terça-feira, 30 de outubro de 2018

O dilema do porco- espinho


Num dia frio de inverno,vários porcos-espinho ​​amontoaram-se à procura de calor; mas, quando começaram a se picar com seus espinhos, foram obrigados a se afastarem. No entanto, o frio fazia com que voltassem a se reunir, porém, afastavam- se novamente. Depois de várias tentativas, perceberam que poderiam manter certa distância uns dos outros sem se dispersarem. Do mesmo modo, as necessidades sociais, a solidão e a monotonia impulsionam os “homens porcos-espinho” a se reunirem, apenas para se repelirem devido às inúmeras características espinhosas e desagradáveis das suas naturezas. A distância moderada que os homens finalmente descobrem é a condição necessária para que a convivência seja tolerada; é o código de cortesia e boas maneiras. Aqueles que transgridem esse código são duramente advertidos, como se diz na Inglaterra: keep your distance! Com esse arranjo, a necessidade mútua de calor é apenas parcialmente satisfeita, mas pelo menos não se magoam.Um homem que possui algum calor em si mesmo prefere permanecer afastado, assim ele não precisa ferir outras pessoas e também não é ferido.

 Schopenhauer

 

O Deus de Espinosa




“Pára de ficar rezando e batendo no peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes da tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que eu fiz para ti. Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. A minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde eu vivo e, aí expresso o meu amor por ti. Pára de me culpar da tua vida miserável: eu nunca te disse que há algo de mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que eu te dei e com o qual podes expressar o teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer. Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.
Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar dos teus amigos, nos olhos do teu filho... Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer o meu trabalho? Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor. Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se eu te fiz... se eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio, como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso? Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti. Respeita o teu próximo e não faças aos outros o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção à tua vida, que o teu estado de alerta seja teu guia. Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é a única que há aqui e agora, e a única que precisas. Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placard. Ninguém leva um registo. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno. Não te posso dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho: vive como se não o houvesse. Como se esta fosse a tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado a oportunidade que te dei. E se houver, tem a certeza que eu não vou te perguntar se foste bem-comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... do que mais gostaste? O que aprendeste? Pára de crer em mim, crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas a tua filha, quando acaricias o teu cachorro, quando tomas banho no mar. Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Aborrece-me que me louvem. Cansa-me que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, da tua saúde, das tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.    Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro de ti...aí é que estou."

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O Fantasma da Ópera


Na sequência de uma conversa, perguntaram se eu era mesmo vegetariano. Eu respondi que sim. “Eu também gostava de ser, não acho bem o que fazem aos animais, mas a vida é curta e temos que aproveitar todos os prazeres, não consigo prescindir do prazer de comer carne e peixe”. Esta observação fez-me lembrar a análise que ouvi de uma professora de filosofia, Lúcia Galvão da Nova Acrópole, sobre o musical “O Fantasma da Ópera”. A filósofa analisando a obra numa perspetiva metafórica, interpreta a história como uma luta entre a essência humana e o apego material. Contextualizando,” O Fantasma da ópera” é um romance francês de Gaston Leroux publicado em 1910, com várias adaptações para o teatro e cinema, sendo o musical mais visto de sempre, por mais de 140 milhões de pessoas. Os principais protagonistas são: Erik o fantasma, que por ter o rosto deformado usa uma máscara e vive nos subterraneos da ópera, Christine a quem o fantasma através das suas lições de canto ajuda a transformar-se numa grande soprano e, Raoul um amigo de infância de Christine, que é o patrocinador da ópera. A narrativa conta-nos o amor que o fantasma (Erik) e Raoul têm por Christine e a indecisão desta sobre por quem optar. O fantasma (Erik) que numa primeira fase não tinha uma presença física perante Christine, pois ela só ouvia a sua voz, a que chamava “a voz do anjo da música”, representa o mundo das verdades o desenvolvimento espiritual a verticalidade. Ele era um génio, mas pela sua deformação física, era negado pelos homens e vivia escondido nos subterrâneos escuros do teatro. Raoul, representa o ego, o mundano a banalidade os prazeres efémeros a horizontalidade. Christine vivia crucificada entre estes dois mundos, tal como a maior parte de nós, vivia no conflito do dualismo, espírito/ matéria, bem /mal. Enquanto Christine, só ouvia a voz do fantasma, as palavras deste eram maravilhosas, cheias de brilho, mas, quando viu o rosto de Erik e soube que era ele o assassino de algumas pessoas do teatro, que lhe queria roubar os prazeres da vida, chama-o de monstro. O que Erik matou são as superficialidades, “as distrações do palco da vida”, que impedem de sermos a nossa verdadeira essência. Por vezes, fazemos algo que vai contra a nossa consciência, sentimos remorsos, sentimos essa luta que Christine travou, entre o certo e o errado que traz benefícios materiais. É normal colocarmos máscaras na nossa face, a maior parte de nós foi educada assim. Mas, como diz na peça: “Ainda que tenhas muitas máscaras a tua verdadeira face, a tua essência humana, ainda te perseguirá”. Christine optou por Raoul (a vida feliz cheia de futilidades), é o que a maior parte de nós faria. Quando confrontamos a nossa consciência, achamo-la um monstro, com as nossas debilidades e vícios não estamos preparados para ver o seu rosto e colocamo-la nas caves escuras do nosso intimo. E como disse a pessoa que me interpelou, “A vida é curta e temos que aproveitar todos os prazeres”. O ideal, seria aproveitar a vida, mas sem ter medo de olhar a face da nossa consciência.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Vivendo na Matrix


Matrix não é apenas um filme de ficção e lutas é, acima de tudo um tratado filosófico. É uma metáfora, que através dos seus principais protagonistas: Neo e Morpheus, leva-nos a uma profunda reflexão. Mas o que é a Matrix? Morpheus explica:” Matrix está em toda a parte. É o mundo que acredita ser real para que não se perceba a verdade, que somos escravos, que nascemos num cativeiro, numa prisão que não se pode ver, cheirar ou tocar, uma prisão para a nossa mente”. Num outro diálogo Morpheus diz: “A Matrix é um sistema. Esse sistema é nosso inimigo. Mas quando você está dentro, você olha em volta, o que você vê? Homens de negócio, professores, advogados, carpinteiros. As próprias mentes das pessoas que estamos tentando salvar. Mas até que o façamos, essas pessoas são ainda uma parte do sistema e isso as torna nossas inimigas. Você precisa entender que a maioria dessas pessoas não está pronta para ser desconectada. E muitas delas estão tão acostumadas, tão irremediavelmente dependentes do sistema, que lutarão para protegê-lo”. A película alerta-nos para um mundo onde somos manipulados, induzidos a pensar e agir em prol de um sistema. Desde a infância somos programados para colocar a nossa energia à disposição desse sistema, através de dois procedimentos: produzir e consumir. A programação começa com a família, continua na escola, fundamenta-se na religião, instrumentaliza-se nas organizações políticas e sociais, tem o seu apogeu no ensino universitário, rentabilizando-se no trabalho. Sair do sistema é doloroso, tudo está programado de forma a dificultar a saída. Quando Neo sai da Matrix pergunta a Morpheus porque é que lhe doem os olhos, este responde “Nunca os usaste antes”. Este é o sistema que tem como principal propósito, ganhar muito dinheiro. Mensurado principalmente pelo Produto Mundial Bruto (PMD) que é a soma do Produto Interno Bruto (PIB) de todos os países, só nesta rubrica gera anualmente mais de 70 triliões de dólares. Os países são constantemente incentivados a aumentar o (PIB) e, para que isso aconteça, utilizam mecanismos de incentivo à produção e consumo desmesurado. Este consumismo, onde o muito é sempre pouco, está a destruir o Planeta. O Overshoot day (dia da sobrecarga do planeta) mede quanto tempo levamos a gastar o que a terra produz num ano. Em 2018, esse dia, aconteceu no dia 1 de agosto, ou seja, gastamos em 8 meses o que a terra é capaz de produzir num ano. Para que o sistema, continue com a sofreguidão em aumentar os triliões é, importante que as pessoas não pensem diferente, se possível, que não pensem, produzam e consumam, simplesmente. Não podemos combater a “Matrix” ela é muito forte e acabará por nos destruir. Sócrates o filósofo, Jesus Cristo e todos aqueles que tentaram enfrentar o sistema, incentivando as pessoas a pensarem, foram condenados à morte ou tiveram que renunciar aos seus pensamentos como aconteceu com Galileu. Não podemos combater, mas podemos criar um sistema próprio e não sermos totalmente cúmplices da destruição que estamos a presenciar. Como?  Com pequenas mudanças no nosso comportamento do dia a dia.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A Energia Criadora


Numa entrevista ao Filósofo português Agostinho da Silva, o entrevistador pergunta se ele acredita na existência de Deus, ao que Agostinho responde: “É preciso que o meu amigo me diga o que é essa coisa de Deus para si?”. Na troca de galhardetes entre entrevistador e entrevistado, Agostinho acaba por explicar que essa ideia de Deus que aparece nas religiões e, para não haver tanta confusão, poderia ser substituída por “criatividade absoluta”. O entrevistador insiste: “é nisso que acredita?” Agostinho responde: “Não acha que seria esquisito eu acreditar que existem coisas criadas e não acreditar na criatividade?” A metafísica faz parte do pensamento humano e, a filosofia trouxe as questões que até hoje inquietam a humanidade: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, qual o verdadeiro sentido da vida? Platão na sua teoria diz que antes de existir o Universo tal qual o conhecemos, só existiam ideias, a que chamou “Mundo das ideias”, um Mundo inteligível onde tudo é perfeito e imutável. Segundo o filósofo, esse é o Mundo real, que uma energia criadora materializou, criando o Mundo tal qual o conhecemos, que chamou de: “sensível ou material”. Tudo o que existe são cópias dessa realidade, que é o “Mundo das ideias” e, por serem cópias são imperfeitas. O objetivo dessas cópias é aproximarem-se o mais possível dos seus arquétipos, caminhar em direção à perfeição, ou, dizendo por outras palavras, diminuir a distância que existe entre o material e o divino. A ciência tenta responder às perguntas dos filósofos, são sondas que vagueiam pelo espaço, observações com enormes telescópios, aceleradores de partículas, mas as respostas podem não estar tão longe, podem estar na introspeção, na viagem ao nosso interior. Provavelmente, tudo o que existe tem uma razão para existir e deve cumprir a função para que foi criado. Nós humanos, devemos cumprir a missão que a natureza nos destinou, que é sermos humanos, na verdadeira essência da palavra. A humanidade tem a responsabilidade de ser a guardiã do planeta e, não pode agir como se fosse uma célula cancerígena do mesmo. Estamos a destruir a harmonia em que o mundo foi criado e onde tudo se completa. Os recursos básicos da espécie humana dependem da biodiversidade que não estamos a preservar. Muitos falam da seleção natural, da lei do mais forte, do gene egoísta, mas estão cegos, não vendo que estes argumentos têm servido para justificar as mais bárbaras atrocidades. Hoje existem 20 milhões de seres humanos em risco de fome extrema num mundo de abundância. A miséria humana não é o caminho para a evolução. Acredito no homem poeta, filósofo, espiritualista e, que este homem nos irá conduzir a um mundo melhor. Está escrito no templo de Apolo em Delfos” Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o Universo, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti, não acharás em lugar algum”. Cada um dentro de si tem a solução para a construção de um mundo melhor. Porque não, começar já?

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A Borboleta

                                               



Imaginei-te
Apareceste
Fui eu que te criei
Fiz-te bela e livre
Dei-te asas
Criei um jardim
Agora, cá do meu recanto
Fico a ver-te voar entre as flores
 
 
Adriano Gonçalves










 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Fanático


Fanus é uma palavra de origem grega. significa templo. “fanaticus”, adjetivava os frequentadores de Fanus, mas, cujos aspetos passionais e emocionais superavam o equilíbrio racional. A palavra “fanaticus” deu origem à palavra fanático. Hoje, fanático classifica quem de forma intolerante defenda qualquer tipo de causas ou ideias, utilizando se necessário, a violência para converter ou destruir os que não as aceitam. Mas, não devemos confundir fanatismo, com quem de forma abnegada e educada argumenta defendendo ideais. O fanatismo, transporta consigo a irracionalidade e a violência, seja ela física ou verbal. O fanatismo desportivo, político, racista e religioso, tal qual uma doença contagiosa, vêm contaminando as sociedades. No fanatismo desportivo, um espetáculo onde deveriam ser apreciados os dotes artísticos dos intervenientes, perante o fanático é um aspeto irrelevante, só a vitória interessa. Nas bancadas, numa euforia desmedida, lançam-se os mais grosseiros impropérios a outros espetadores e aos intervenientes no jogo. Por vezes, as agressões verbais transbordam para agressões físicas, alteram o seu estado anímico em função de um simples resultado desportivo. O fanático não desfruta do espetáculo é: o mau humor, as noites mal dormidas da derrota, a alegria desmesurada da vitória. O fanatismo político tem repercussões piores. O fanático político defende com ferocidade as suas opiniões, não tem contemplações com amigos ou familiares. A sua verdade é suprema. O seu fanatismo é aproveitado pelos políticos habilidosos. Este fanático é colocado nas primeiras filas das manifestações, participa nos congressos e todos os tipos de reuniões partidárias, é dos que nas campanhas eleitorais, provoca o confronto físico com as campanhas adversárias. O fanatismo racista e xenófobo é hediondo. Normalmente é composto por pequenos grupos de fanáticos que atacam minorias. Neste tipo de fanatismo existe uma tentativa de desvalorizar um determinado grupo social devido a alguma característica física. Fomenta o preconceito, incentiva o ódio e a rejeição contra diferentes grupos étnicos. Todo o tipo de fanatismo é desnecessário e deve preocupar, mas o fanatismo religioso, além de desnecessário é o mais perigoso. O fanático religioso tem a ideia da proteção divina e tudo o que faz é em nome de Deus. Ele convence-se que as suas atitudes são inspiradas por uma força superior e, quando faz algo de errado, sente-se absolvido por essa força. Ao longo dos séculos e até aos dias de hoje, têm-se cometido as maiores sevicias através do fanatismo religioso. Outros tipos de fanatismo, embora não sendo tão perigosos, preocupam-me, casos do fanatismo ecológico e da defesa dos animais, pois esse tipo de comportamento afasta pessoas de bom senso do envolvimento nestas causas. Só a educação pode combater o fanatismo, a educação começa em casa, bons exemplos resultam em bons comportamentos. Ao menor sinal desta “doença” devemos atuar, pois ela aparece muito subtilmente e, rapidamente toma proporções enormes.