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terça-feira, 14 de abril de 2020

A Vacina


Nós já temos a vacina. Segundo um excelente artigo da jornalista Carla Tomás no semanário“Expresso”, as diversas epidemias só nas últimas duas décadas: a SARS (2002) a MERS (2012) e agora a SARS CoV-2 causadora do COVID19, a gripe da aves (2005) e a gripe suína (2009) conhecida por gripe A, são todas de origem animal  - morcegos, macacos, camelos, porcos ou galinhas. No mesmo artigo e fazendo referência a um investigador de renome, refere que excetuando o vírus causador da varíola, que parece ser exclusivamente humano e que por essa razão foi possível eliminá-lo, doenças como o sarampo, varicela e as gripes resultam do manuseamento de animais. Assim sendo, já temos a vacina, é abandonarmos a criação intensiva de animais, consumirmos moderadamente produtos de origem animal e deixar de destruir ecossistemas. A natureza continua a enviar avisos e como diz o ditado: “Quem me avisa meu amigo é”. A natureza também tem a sua bomba atómica e não precisa de um Enola Gay para a transportar. Entretanto vai sair a Super Vacina e mais uma série de vacinas para proteger o humano, porque a destruição e o consumismo exacerbado têm de continuar, os recordes da revista Forbes têm de continuar a ser batidos, em 2019, Jeff Bezos de 55anos, dono da Amazon teve a sua fortuna avaliada em 131 biliões de dólares. Para quem está em confinamento este é o momento ideal para uma introspeção e uma reflexão a nível de todos os aspetos que regulam a vida. Para quem gosta de leitura este é o momento ideal para ler ou reler alguns dos clássicos que abordam o comportamento humano e concomitantemente aumentar o seu pecúlio cultural. Gosto da definição de cultura de Matthew Arnold, poeta inglês:” É a busca da nossa perfeição total, mediante a tentativa de conhecer o melhor possível o que foi dito ou pensado, em todas as questões que nos dizem respeito”. Mas a leitura é também o que Margerite Yourcenar escreve na sua obra de arte que é o romance histórico, Memórias de Adriano:” A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, como as grandes atitudes imoveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida, fez-me compreender os livros”. As minhas sugestões vão para: Os Miseráveis de Victor Hugo, em relação a esta obra o Escritor Vargas Llosa num ensaio sobre a mesma, escreveu: “É uma das obras de literatura que mais fizeram homens e mulheres de todas as línguas e culturas, desejarem um mundo mais justo, mais racional e mais belo do aquele em que viviam”. Os Irmãos Kamarazov de Dostoievki que num posfácio a este romance Sigmund Freud diz: “Os Irmãos Kamarazov é o romance mais magistral que alguma vez se escreveu e nunca seremos capazes de apreciar de verdade o episodio do Grande Inquisidor”. Grandes Esperanças de Charles Dickens é outro dos grandes romances. Colocaria ainda nesta lista de leitura de reflexão: A Servidão Humana de Somerset Maugham e a Insustentável leveza do SER de Milan Kundera. Para terminar, para bem de todos desejo que tudo isto acabe o mais rápido possível, especialmente para  aqueles que estão sofrendo com a doença, com falta de trabalho e os que estão na linha da frente arriscando a vida no combate à doença.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Ética

Na filosofia, ética é o ramo que estuda os valores morais de um grupo ou de um individuo. O ser humano é um ser em constante conflito consigo próprio. Sigmund Freud estudou este fenómeno e dividiu a mente em três elementos: ID, Ego e Superego. O ID nasce connosco e representa o elemento mais primitivo da mente, onde reside o inconsciente e os desejos mais básicos e primitivos. Após o nascimento, começa a desenvolver-se o EGO (consciência), aspeto que procura controlar os impulsos do ID de forma a encontrar soluções menos precipitadas, mais realistas e que vão de encontro dos ideais e sejam socialmente aceitáveis. O Superego (consciência moral) são as crenças, cultura familiar, componente moral e social da personalidade e age em contraponto com o ID. O Ego, também conhecido como o nosso EU, tenta criar um caminho de equilíbrio entre o ID e o Superego, agindo como “uma pessoa equilibrada”. Conhecemos atitudes éticas que engrandecem a humanidade e outras que pelo contrário envergonham. Passo a citar um caso de ética, ou seja, de um Ego que vive em equilíbrio: Numa corrida de atletismo “corta mato” realizada em Espanha, Ivan Fernandes, ia em segundo lugar na prova que era liderada pelo campeão olímpico, o queniano Abel Mutai. Quase no final da prova, Mutai que tinha uma grande distância em relação ao segundo classificado, pensando que já tinha cortado a meta parou e, começou a cumprimentar o público. Ivan Fernandes que vinha em segundo lugar, em vez de correr para a meta e ganhar a prova, dirigiu-se a Mutai e gesticulando explicou-lhe que ainda não tinha cortado a meta, o atleta queniano correu os poucos metros que faltavam e venceu. No final da prova os jornalistas perguntaram a Fernandes: porque fizeste isso? E ele respondeu: Isso o quê? Porque deixaste o Abel Mutai ganhar?  Fernandes respondeu: eu não o deixei ganhar, ele ganhou porque foi melhor do que eu. Que mérito é que eu teria se tivesse ganho desta maneira? Se eu estivesse no primeiro lugar do pódio, quando chegasse a casa o que é que eu ia dizer à minha mãe? Falando de ética, esta é uma frase belíssima, porque a nossa mãe é a última pessoa que queremos dececionar, porque se a pessoa que nos trouxe à vida tiver vergonha de nós, é porque não prestamos. Os problemas morais e éticos são situações que normalmente não envolvem só a pessoa em questão, mas também outras pessoas que podem sofrer consequências das decisões e ações, que muitas vezes até podem afetar uma comunidade inteira. Falta de ética e atitudes que envergonham, são por exemplo: cientistas e governos que pelo dinheiro fácil, se deixam corromper por lóbis como o da indústria da carne, lacticínios, medicamentos, produtos químicos e armamento. Esconderem estudos que provam os malefícios provocados nas pessoas e no planeta por essas industrias e, não satisfeitos, ainda ajudam a promover os respetivos produtos. Eticamente falando, estes corruptores e corrompidos, são as tais pessoas que não podem contar à mãe aquilo que fazem, ela iria sentir vergonha de os ter parido.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Questionar e agir



No clássico infantojuvenil “Alice no País da Maravilhas”, o seu autor Lewis Carroll coloca um diálogo interessante entre Alice e o Gato. Alice pergunta ao Gato qual seria o melhor caminho que deveria seguir para sair daquele lugar. O Gato responde:” Isso depende muito do sítio onde queres chegar”.  Alice diz: “Na verdade não me importo muito”, ao que o gato responde:” Então pouco importa o caminho que sigas”. Nesta história L. Carroll também coloca Alice num monólogo, onde Alice se interroga: “(…) a questão é: quem sou eu afinal? Ah, esse é o grande dilema!”. Neste diálogo e monólogo que podemos interpretar como filosóficos, existem duas questões que deveríamos colocar a nós próprios. Quais são os nossos objetivos como seres humanos e, quem somos nós além da nossa identificação civil. Com estas duas questões respondidas, então, podemos pedir aconselhamento quanto ao caminho a seguir. Até lá, tal como respondeu o Gato a Alice, não importa qual o caminho que sigamos. Num outro clássico da mesma índole: “O Principezinho” de Saint Exupéry, o autor descreve um diálogo entre a Raposa e o Principezinho:” Adeus, disse a Raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. Este também é um pressuposto importante para a evolução humana, vermos as situações pela perspetiva humanista. Cito dois livros para adolescentes porque é sobre duas adolescentes que vou continuar a escrever. Malala Yousafzai, ganhou o Prémio Nobel da Paz com apenas 17 anos. Num local dominado por melícias fundamentalistas Talibãs, onde havia grande repressão sobre as mulheres e se matava alguém simplesmente por discordar do sistema, Malala com apenas 11 anos começou a manifestar-se defendendo o direito de as meninas frequentarem a escola. Continuou com várias formas de luta defendendo a liberdade e a sua causa: “O direito à educação”. Quando tinha 15 anos aconteceu o que parecia inevitável, um terrorista disparou três tiros na sua cabeça. Felizmente não morreu. Agora, outra adolescente, Greta Thunberg com 16 anos de idade, lidera uma luta Hercúlea para salvar o planeta. Conseguiu o apoio de milhões de pessoas. Em março deste ano cerca de 1,4 milhões de crianças em idade escolar, fizeram greve e saíram à rua manifestando-se e apoiando a causa ambientalista. Embora muito jovem já se encontrou com personalidades como o Papa Francisco, Barack Obama, já discursou por duas vezes na Cimeira do Clima das Nações Unidas, onde no seu último discurso acusou os líderes das nações de:” não serem maduros o suficiente para encarar os factos e de estarem a deixar o peso das alterações climáticas para as crianças”. Malala e Greta são exemplos de alguém que por certo sabe quem é, qual o seu objetivo como ser humano e que vê com o coração. “Sejamos a mudança que queremos ver no mundo”, é importante pensarmos globalmente, mas agirmos localmente, percebermos qual a nossa responsabilidade naquilo que condenamos. Como disse G. Thunberg:” Temos de agir como se a nossa casa estivesse a arder, porque está mesmo”.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O Sermão


O sermão de Stº António aos peixes, proferido pelo Padre António Vieira em São Luís do Maranhão a 13 de junho de 1654, é uma alegoria intemporal, a sua voz fez um eco que se ouve até os dias de hoje. Neste sermão serviu-se da alegoria e, pregando aos peixes, tentou sensibilizar a consciência humana. Começou o sermão referindo que Stº António, quando pregava em Itália na cidade de Arímino contra os hereges,  vendo que as suas palavras não eram bem recebidas e pouco faltando para lhe tirarem a vida, não deixou de pregar, simplesmente mudou de  púlpito e de auditório, ”já que não me querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes”, deixou as praças e foi para as praias pregar aos peixes. Estando o Padre Vieira, numa situação análoga à de Stº António e encontrando-se perto do mar, fez como o santo e pregou aos peixes. Destacou as virtudes dos peixes em geral e enalteceu de sobremaneira quatro deles. Criticou-os também de forma global, relativamente à sua ignorância, vaidade, cegueira e más condutas e, por se comerem uns aos outros, com a agravante de serem sempre os maiores a comerem os mais pequenos, explorando e humilhando os mais desfavorecidos. Também na crítica escolheu quatro peixes que por fazerem lembrar a hipocrisia e mesquinhez dos homens, mereceram uma crítica mais profunda. Embora o sermão fosse sobre as atrocidades que os sanguinários colonos portugueses infligiam aos nativos, o tema continua atual, porque continuamos a viver num Mundo onde grande parte da população continua a ser explorada por alguns que dominados pela ganância, o muito é insuficiente. Deveríamos ler e meditar Vieira pelo conteúdo moralista e pela escrita de rara beleza. Fernando Pessoa escreveu que Vieira era o “imperador da língua portuguesa”. Atualmente na situação de emergência ecológica que vivemos e não querendo os homens ouvirem os que tentam salvar a humanidade e o planeta, será que temos de voltar a pregar aos peixes para que os homens nos oiçam? Nunca houve no Mundo gente tão inculta com poder para fazer tanto mal. Dois exemplos de incultura: Bolsonaro presidente do Brasil, respondendo a um jornalista como resolver o problema ambiental: “é só você fazer cocó, dia sim dia não”. Trump no seu discurso do dia da independência diz que o exército americano havia conseguido “tomar o controlo dos aeroportos “contra os britânicos em 1775, o avião só foi inventado um século depois. Sim, já tivemos Hitler, Mao, Estaline, Pinochet, guerras mundiais, genocídios, mas não aprendemos nada com isso? Falemos aos peixes para enaltecer aqueles que lutam por uma humanidade mais humana e criticar os que desrespeitam a criação. O dia da sobrecarga do planeta deste ano foi a 29 de julho, a data mais recuada desde que o défice ecológico começou no ano 1970. As grandes potências “esfregam as mãos” de contentes com o degelo do Ártico, veem mais uma oportunidade de faturar milhões, não conseguem ver que o degelo poderá afetar negativamente o mundo de forma irreversível. Gaudí disse: “A originalidade consiste no retorno à origem; assim, original é aquele que retorna à simplicidade das primeiras soluções”. Aprendamos!

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A Filosofia


 
Sempre que a humanidade atravessa um período de conturbação social, a filosofia emerge das profundezas para confortar a alma humana. Os filósofos são os eternos amigos da Humanidade e perante as adversidades são eles os primeiros a aparecer. Evocam-se os espíritos dos mais ilustres filósofos da antiguidade, para ajudarem a curar uma sociedade que vive doente, angustiada, intolerante e violenta. A sociedade atravessa uma crise de valores, porque a família e a escola, na sua generalidade, não conseguiram contrabalançar com valores de ética, moral e educação uma juventude programada para a competição e, educada no binômio produção/consumo numa sociedade que se tornou demasiado industrializada e pouco social. Esta situação criou em muitos membros da sociedade um vazio existencial e desequilíbrios emocionais. Ao longo da história sempre houve crises sociais e, foi sempre a filosofia a catapulta que projetou o pensamento humano para patamares de consciência mais elevados. A função da filosofia é fornecer “ferramentas”, que permitam ajudar a compreender o que acontece à nossa volta, para atuarmos de acordo com os princípios éticos da conduta humana. Como é o caso da escola filosófica estoica criada em Atenas por volta de 300 a.C. pelo filósofo Zenão de Cítio. Esta corrente filosófica ficou famosa através dos seus ilustres praticantes, onde se inclui o famoso Imperador Romano, Marco Aurélio. O estoicismo ensina que as virtudes devem ser baseadas nos comportamentos e não nas palavras. Que não devemos depender do que não controlamos, mas apenas de nós e das nossas escolhas. O estoicismo lembra que o mundo é imprevisível e que o tempo é efémero, por essa razão devemos vivê-lo da melhor forma possível. Temos a obrigação de sermos firmes, controlar as nossas emoções, ser fortes e confiar na nossa capacidade de raciocínio. O estoico, pensa em como pode melhorar diariamente a sua maneira de ser e agir, como superar os problemas e transformá-los em oportunidades. O estoicismo não se preocupa com teorias abstratas é, um conjunto de reflexões, conselhos e práticas para viver melhor. Como o estoicismo valoriza a ação em detrimento das palavras, tem alguns exercícios práticos que ajudam o fortalecimento da personalidade. Uma das práticas difundidas pelos estoicos é a reflexão matinal, onde a pessoa se prepara para as situações que poderá encontrar durante o dia, mesmo as mais adversas. Essas meditações devem ser anotadas para autoavaliação, assim fazia Marco Aurélio, cujos pensamentos se encontram publicados no famoso Livro “Meditações “. Vários são os aforismos que compõem o pensamento estoico: receba elogios e criticas da mesma maneira, reveja o seu dia e tire ilações, lembre-se sempre que vai morrer, confie em si mesmo, não tenha vergonha de pedir ajuda, faça uma mudança no seu interior. Seja uma força do bem. A filosofia desempenha um papel fundamental na formação, ensina a pensar, transmite valores para a transformação da sociedade. O sistema não quer que as pessoas dominem a arte de pensar com clareza, porque contraria a “moral do rebanho”.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

A Democracia


No ano 399 a. C. o filósofo Sócrates, considerado por muitos como o fundador da filosofia ocidental, foi julgado e condenado à morte. A cidade estado “Atenas “onde Sócrates vivia, era gerida desde o ano 508 a.C.  por um novo sistema politico chamado democracia. Por esta razão, o Filósofo teve um julgamento democrático. O julgamento tinha três acusadores, que perante o Bulé (conselho constituído por 500 membros) apresentaram as acusações, às quais, Sócrates rebateu detalhadamente cada uma. Tendo a maioria dos jurados votado a favor da condenação, Sócrates foi condenado, num dos primeiros atos de injustiça (que temos conhecimento) praticados pela democracia. Sendo a liberdade de expressão o suporte vital de qualquer regime democrático, não deixa de ser um paradoxo alguém, em democracia, ser condenado por utilizar a sua liberdade de expressão, sem nunca ter incentivado à violência e desobediência. Platão, seu discípulo, após o julgamento, condenou a democracia referindo que este julgamento mostrou que a democracia poderia calar a verdade tanto quanto a tirania. Passados quatro séculos, segundo as escrituras sagradas, deu-se o julgamento de Jesus Cristo. Pelo que conta a história, Jesus foi um homem de bem, que sempre pautou a sua vivência com gestos de bondade e tolerância. Acusado injustamente, o governador romano Pôncio Pilates, ficou com o ónus da questão. Entendendo que Jesus era inocente, o governador aproveitou a tradição de soltar um preso na Páscoa para o libertar. Colocando lado a lado, Jesus e um conhecido criminoso de nome Barrabás, teve uma atitude “democrática”, perguntando ao povo quem é que queriam que ele libertasse. A maioria escolheu Barrabás para ser libertado e, como se não bastasse, exigiu a crucificação de Jesus. Prosseguindo na minha divagação, nos séculos XV e XVI quando todos defendiam o geocentrismo, dizendo que o planeta Terra estava fixo no centro do Universo com os corpos celestes a girar em seu redor, só Copérnico e Galileu, cada um em sua época, defenderam o heliocentrismo, dizendo que a terra girava em volta de si mesma e em redor do Sol e, mais uma vez, a maioria errou. Sem dúvida, numa perspetiva histórica, nem sempre a maioria tem razão. A democracia não se esgota na votação, contém leis e mecanismos de ação que salvaguardam a dignidade da pessoa humana. A democracia não é a ditadura da maioria, rege-se pela justiça social e concede espaço de opinião à minoria. Ao longo de 2500 anos, a democracia evoluiu e fortaleceu-se, mas quando imbuída de ignorância, continua tão frágil como no seu início. Não podemos cumprir a democracia sem sabermos o seu verdadeiro significado, desconhecendo a importância de uma sociedade num estado democrático. É necessária uma educação para a política e para a sociedade, um tema que precisa ser debatido nas aulas de filosofia, disciplina que deveria constar do currículo escolar desde os primeiros anos de escolaridade. Não devemos confundir instruir com educar. Os alunos devem ser instruídos nas áreas das suas aptidões específicas, mas educados no aspeto moral e cívico. Uma sociedade desinformada, sem hábitos de leitura, sem cultura política, pode através da democracia, construir uma tirania e, trocar liberdade por grilhões.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A Energia Criadora


Numa entrevista ao Filósofo português Agostinho da Silva, o entrevistador pergunta se ele acredita na existência de Deus, ao que Agostinho responde: “É preciso que o meu amigo me diga o que é essa coisa de Deus para si?”. Na troca de galhardetes entre entrevistador e entrevistado, Agostinho acaba por explicar que essa ideia de Deus que aparece nas religiões e, para não haver tanta confusão, poderia ser substituída por “criatividade absoluta”. O entrevistador insiste: “é nisso que acredita?” Agostinho responde: “Não acha que seria esquisito eu acreditar que existem coisas criadas e não acreditar na criatividade?” A metafísica faz parte do pensamento humano e, a filosofia trouxe as questões que até hoje inquietam a humanidade: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, qual o verdadeiro sentido da vida? Platão na sua teoria diz que antes de existir o Universo tal qual o conhecemos, só existiam ideias, a que chamou “Mundo das ideias”, um Mundo inteligível onde tudo é perfeito e imutável. Segundo o filósofo, esse é o Mundo real, que uma energia criadora materializou, criando o Mundo tal qual o conhecemos, que chamou de: “sensível ou material”. Tudo o que existe são cópias dessa realidade, que é o “Mundo das ideias” e, por serem cópias são imperfeitas. O objetivo dessas cópias é aproximarem-se o mais possível dos seus arquétipos, caminhar em direção à perfeição, ou, dizendo por outras palavras, diminuir a distância que existe entre o material e o divino. A ciência tenta responder às perguntas dos filósofos, são sondas que vagueiam pelo espaço, observações com enormes telescópios, aceleradores de partículas, mas as respostas podem não estar tão longe, podem estar na introspeção, na viagem ao nosso interior. Provavelmente, tudo o que existe tem uma razão para existir e deve cumprir a função para que foi criado. Nós humanos, devemos cumprir a missão que a natureza nos destinou, que é sermos humanos, na verdadeira essência da palavra. A humanidade tem a responsabilidade de ser a guardiã do planeta e, não pode agir como se fosse uma célula cancerígena do mesmo. Estamos a destruir a harmonia em que o mundo foi criado e onde tudo se completa. Os recursos básicos da espécie humana dependem da biodiversidade que não estamos a preservar. Muitos falam da seleção natural, da lei do mais forte, do gene egoísta, mas estão cegos, não vendo que estes argumentos têm servido para justificar as mais bárbaras atrocidades. Hoje existem 20 milhões de seres humanos em risco de fome extrema num mundo de abundância. A miséria humana não é o caminho para a evolução. Acredito no homem poeta, filósofo, espiritualista e, que este homem nos irá conduzir a um mundo melhor. Está escrito no templo de Apolo em Delfos” Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o Universo, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti, não acharás em lugar algum”. Cada um dentro de si tem a solução para a construção de um mundo melhor. Porque não, começar já?

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Fanático


Fanus é uma palavra de origem grega. significa templo. “fanaticus”, adjetivava os frequentadores de Fanus, mas, cujos aspetos passionais e emocionais superavam o equilíbrio racional. A palavra “fanaticus” deu origem à palavra fanático. Hoje, fanático classifica quem de forma intolerante defenda qualquer tipo de causas ou ideias, utilizando se necessário, a violência para converter ou destruir os que não as aceitam. Mas, não devemos confundir fanatismo, com quem de forma abnegada e educada argumenta defendendo ideais. O fanatismo, transporta consigo a irracionalidade e a violência, seja ela física ou verbal. O fanatismo desportivo, político, racista e religioso, tal qual uma doença contagiosa, vêm contaminando as sociedades. No fanatismo desportivo, um espetáculo onde deveriam ser apreciados os dotes artísticos dos intervenientes, perante o fanático é um aspeto irrelevante, só a vitória interessa. Nas bancadas, numa euforia desmedida, lançam-se os mais grosseiros impropérios a outros espetadores e aos intervenientes no jogo. Por vezes, as agressões verbais transbordam para agressões físicas, alteram o seu estado anímico em função de um simples resultado desportivo. O fanático não desfruta do espetáculo é: o mau humor, as noites mal dormidas da derrota, a alegria desmesurada da vitória. O fanatismo político tem repercussões piores. O fanático político defende com ferocidade as suas opiniões, não tem contemplações com amigos ou familiares. A sua verdade é suprema. O seu fanatismo é aproveitado pelos políticos habilidosos. Este fanático é colocado nas primeiras filas das manifestações, participa nos congressos e todos os tipos de reuniões partidárias, é dos que nas campanhas eleitorais, provoca o confronto físico com as campanhas adversárias. O fanatismo racista e xenófobo é hediondo. Normalmente é composto por pequenos grupos de fanáticos que atacam minorias. Neste tipo de fanatismo existe uma tentativa de desvalorizar um determinado grupo social devido a alguma característica física. Fomenta o preconceito, incentiva o ódio e a rejeição contra diferentes grupos étnicos. Todo o tipo de fanatismo é desnecessário e deve preocupar, mas o fanatismo religioso, além de desnecessário é o mais perigoso. O fanático religioso tem a ideia da proteção divina e tudo o que faz é em nome de Deus. Ele convence-se que as suas atitudes são inspiradas por uma força superior e, quando faz algo de errado, sente-se absolvido por essa força. Ao longo dos séculos e até aos dias de hoje, têm-se cometido as maiores sevicias através do fanatismo religioso. Outros tipos de fanatismo, embora não sendo tão perigosos, preocupam-me, casos do fanatismo ecológico e da defesa dos animais, pois esse tipo de comportamento afasta pessoas de bom senso do envolvimento nestas causas. Só a educação pode combater o fanatismo, a educação começa em casa, bons exemplos resultam em bons comportamentos. Ao menor sinal desta “doença” devemos atuar, pois ela aparece muito subtilmente e, rapidamente toma proporções enormes.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Ser Importante


À pergunta arrogante: mas você sabe quem eu sou? Você sabe com quem está a falar? O filósofo brasileiro Mário Cortella responde mais ou menos assim: sei, você é um entre 7,5 biliões de indivíduos, pertencente a uma única espécie, entre outros 30 milhões de espécies que habitam um pequeno planeta, que gira em volta de uma estrela mediana, que é uma entre 100 biliões de estrelas que fazem parte de uma galáxia, entre outros 200 biliões de galáxias que existem num dos universos possíveis e que um dia vai desaparecer. E acaba esta dissertação dizendo: ainda assim você acha-se importante? É claro que esta resposta se destina a quem tem um comportamento arrogante por se considerar superior. A história da humanidade relata-nos as imensas personalidades que deram grandes contributos nas mais diversas áreas e, na defesa de causas com grandes benefícios para a humanidade. Muitos desses famosos, perpetuam a sua imagem em estátuas e nos compêndios, alguns eu admiro, agradeço o que fizeram, mas não são importantes para mim. Ser importante, para mim, tem um sentido muito mais íntimo. Analisando o sentido etimológico da palavra Importante, a sua origem é do latim importare (in + portar) o prefixo in significa dentro e portar significa transportar. Ou seja, uma pessoa importante é aquela transportamos para dentro de nós, que levamos no nosso “coração”. É alguém que nos faz falta, que esteve connosco quando mais precisamos, é quem nunca esqueceremos. Feliz aquele que tem no seu pai, mãe, cônjuge, filhos, pessoas importantes para si. Feliz quem consegue ter “amigos” que na verdadeira essência da palavra são pessoas importantes. Triste quem não faz falta a alguém. Triste aquele que pela vida que levou não tem a quem revelar a sua tristeza. Tchékhov num dos seus contos, fala do concheiro Iona a quem lhe tinha morrido o filho e que no seu enorme desgosto precisava de falar com alguém no sucedido, mas ninguém tinha vontade de o ouvir. Então, numa noite em que não conseguia dormir dirigiu- se à cavalariça e começa a falar com a sua égua: “É assim a vida, eguazinha amiga... já cá não está o Kuzmá Iónitch…. Entregou a alma ao Criador… De repente, sem mais nem menos apagou-se …. É assim: digamos que tu tens um potrinho, que és a mãe do potrinho…E de repente, é um supor, o teu potrinho entrega a alma ao Criador…Grande pena, não era? A égua mastiga, ouve e respira para as mãos do dono. Iona não tem mão em si e conta-lhe tudo” Podemos acabar como o cocheiro Iona, sem sermos importantes para alguém, agarrados a um animal de estimação, ou simplesmente colocados num Lar ou abandonados num Hospital sem alguém que nos queira ouvir. Precisamos sair de dentro de nós, para que os outros nos possam “importar” e tornar-nos importantes. Façamos obra, lutemos por causas, não habitemos dentro duma redoma. Sejamos bons seres humanos e exteriorizemos essa condição de forma a podermos gravar o nosso nome no coração de outras pessoas. É importante sermos importantes.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Ídolos


Desde os primórdios que a escrita faz alusão à idolatria. Um texto bíblico do antigo testamento, conta que o rei da Babilónia Nabucodonosor pediu ao profeta Daniel para lhe decifrar o seguinte sonho: “Uma estátua alta e muito brilhante com uma aparência impressionante. A cabeça da estátua era de ouro maciço, o peito e os braços eram de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro e os pés parte de ferro e parte de barro. Uma pedra desprendeu-se da montanha, e veio bater nos pés da estátua quebrando-os”. E claro, toda a estátua se desmoronou. Consta que provém desta história a frase: “Ídolos com pés de barro”. Embora esta história tenha mais de 2600 anos, pode servir de reflexão para a atualidade onde como nunca se promovem Ídolos. A economia através das técnicas de marketing e utilizando os mais avançados meios de comunicação faz do ídolo, um produto que tenta rentabilizar financeiramente. É demais evidente a tentativa de idolatrizar o mais possível. Esta, é uma ação socialmente perigosa, porque os jovens, têm a tendência de imitar os comportamentos dos seus ídolos, sendo muitos deles inadequados. Proliferam as referências aos comportamentos desviantes dos chamados “ídolos com pés de barro”, heróis vitimas do infortúnio, provavelmente por terem sido colocados num pedestal, para o qual não estavam preparados. São medalhas devolvidas devido à utilização do doping, internamentos para desintoxicação devido ao consumo de drogas, violência doméstica, alcoolismo, prostituição, enfim, um sem-números de situações que põem a descoberto o quanto falível é o ser humano, para ser elevado a Ídolo e venerado. É preciso destruir este ídolo que bloqueia a inteligência humana. Cultuar cega e, não nos deixar ver o outro, ficamos obcecados. Onde poderíamos ver a grandeza da diversidade humana, vemos simplesmente aquele que para nós está acima de tudo. É natural gostarmos, valorizarmos e reconhecermos o valor daqueles que são exímios na sua arte, que atingiram a excelência. É bom examinarmos os seus percursos, aprender com eles, retermos o útil, mas, não venerar essas personalidades. A idolatria não deixa ver que existem cidadãos anónimos, gente honesta, culta, inteligente e humilde, que são verdadeiros exemplos para todos. Estes não têm campanha de marketing, mas são tão ou mais importantes que as celebridades. Não têm uma plateia pela frente, mas são exímios na arte de: “construir um mundo melhor”. Gente altruísta, que depois de um dia árduo de trabalho anda pelas ruas ajudando os sem abrigo, distribuindo alimentos. Alguns arriscando a vida nos campos de refugiados, nos lugares mais inóspitos do planeta, ajudando quem mais precisa. Outros, “comendo o pão que o diabo amassou” para sustentar uma família, dar formação e educação aos seus filhos. Estes nunca serão ídolos, nunca saberemos onde é a sua campa para os ir visitar, mas são a base da construção de uma sociedade melhor.     

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A Caverna


Na “Alegoria da Caverna”, Platão imaginou um grupo de homens que vivessem desde a infância num subterrâneo em forma de caverna. Eles estavam virados para uma parede, acorrentados pelos pés e pescoço. Uma forte luz no exterior da caverna permitia aos prisioneiros verem projetadas na parede as sombras do que passava pela frente da abertura da caverna. Como ignoravam o mundo lá fora, essas sombras, eram a sua realidade. Imaginou também: se um desses prisioneiros se soltasse das amarras e fugisse da caverna, o que aconteceria? Ao sair, ficaria ofuscado pela luz e sentiria dores com a claridade. Aos poucos, iria verificando a beleza incrível que havia fora da caverna. Com o passar do tempo é, normal que sentisse a necessidade de voltar à caverna, contar aos companheiros tudo que presenciou e tentar libertá-los. Qual seria a reação dos prisioneiros? Provavelmente não acreditariam nele, considerá-lo-iam louco e matavam-no. A caverna, representa o nosso mundo. Os prisioneiros, são as pessoas que estão presas a preconceitos que vivem no obscurantismo. As sombras projetadas na parede, são as “falsas verdades”. O fugitivo, é aquele que questiona e reflete sobre o mundo em que vive. O lado de fora da caverna, representa a realidade, a forte luz, o conhecimento. O retorno do fugitivo à caverna, representa o educador, o filósofo. Platão nesta metáfora, provavelmente representa a vida do seu mestre Sócrates, filósofo que não se submeteu aos conceitos vigentes e, incentivou as pessoas a uma busca interior, dando mais valor ao aspeto moral que aos bens materiais. Sócrates foi condenado à morte em 399 A.C. com as acusações de: corromper os jovens com a sua filosofia, negar os Deuses do estado e, ameaçar a vida social e politica de Atenas. Passados que foram quatro séculos, foi a vez de Jesus Cristo percorrer o mesmo caminho de Sócrates. Ao desvalorizar o materialismo em prol da espiritualidade e, através de parábolas provocar reflexões sobre a vida, acabou como Sócrates, condenado à morte. Mil e poucos anos depois apareceu a inquisição, que julgou em tribunal mais de 150 mil pessoas, muitas delas acabaram assassinadas, porque pensavam diferente ou não agiam segundo os padrões sociais instituídos. Atualmente, com a implementação da democracia em muitos países, existe uma maior tolerância à opinião contrária e maior liberdade de expressão. Mas, a tradição, a superstição e a ignorância, ainda são armas poderosas de manipulação. Em muitas situações, quem pensa e age diferente ainda é alvo de preconceito e violência. Hoje, tal qual, no tempo de Platão, continua a ser necessário rebentar as amarras, sair da caverna, ver a realidade e, mesmo correndo riscos, retornar à caverna, contar as boas novas e, tentar soltar os prisioneiros. Bem hajam, todos aqueles que já saíram da caverna e, que mesmo num ambiente de hostilidade, promovem o caminho para a dignidade humana e animal, que lutam contra a pobreza, protegem o meio ambiente e têm um modo de vida sustentável. Benditos, aqueles que se preocupam e dedicam ao bem da humanidade e, com os seus gestos conseguem influenciar os outros.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A Desculpa


Existe a desculpa esfarrapada cujo expoente é a famosa frase: “eu não tenho culpa, a culpa é do meu signo”, a desculpa religiosa “a culpa é do diabo, foi ele que me tentou” e a desculpa cientifica, “A culpa é do Gene “.  A desculpa é transversal a toda a sociedade, desde o trivial ao argumento mais sofisticado, existem desculpas para todos os gostos. No parlamento brasileiro uma deputada expressou de forma convicta: “A corrupção está no DNA do brasileiro”. É sobre a desculpa científica que vou tecer algumas palavras neste artigo. Não me querendo imiscuir numa área que não domino, limito-me a referenciar somente o que a um leigo é permitido. O DNA é constituído por cromossomas que por sua vez são constituídos por genes. Os genes são um género de manual de instruções codificadas. A nossa herança biológica, (hereditariedade) é transmitida pelas características codificadas nos genes. Segundo o biólogo Dawkins, os genes é que criaram o nosso corpo e a nossa mente. Compreendendo a parte biológica dos genes, já não é tão claro, que sejam eles os responsáveis pelas nossas atitudes, perfil psicológico, emoções, opções morais e éticas. É comum a expressão: “Não podemos fazer nada, ele é assim, faz parte da sua genética (feitio)”. O geneticista Dean Hamer, depois de já ter mencionado um gene responsável pela homossexualidade, mais propriamente o cromossoma x secção xq28, saiu recentemente com um livro (O gene de Deus) que revela o gene (Vmat2) como responsável pela fé religiosa. Embora não explique se foi esse gene responsável pelo homem criar Deus ou se foi Deus que criou esse gene para o homem saber da sua existência. Também um estudo efectuado na Finlândia revelou dois genes que podem estar ligados à violência. Já se identificou o gene do alcoolismo e, até o da promiscuidade e da infidelidade. Ou seja, nós não somos responsáveis pelas nossas ações, mas umas “pobres” vítimas dos genes. É claro que estes argumentos já estão a ser utilizados habilmente pelos advogados para redução de penas. Acredito no livre arbítrio filosófico, doutrina que afirma: “o ser humano é livre de escolher ou decidir em função da sua própria vontade, estando isento de qualquer condicionamento prévio ou causa determinante” Acredito na educação que por sua vez produz o respeito. Acredito na consciência e, não acreditando na religião, acredito na espiritualidade. O corpo não é simplesmente uma máquina para a sobrevivência e transmissão dos genes é, também uma entidade para o desenvolvimento do espírito. O que provoca o alcoolismo não é o gene é, a infelicidade e a miséria humana. Os cerca de 800 milhões de pessoas ameaçados de morte por causa da fome, devido ao desperdício de alimentos. Os 60 biliões de animais mortos por ano nos matadouros, o aquecimento global, a infestação dos produtos agrícolas com químicos e toda a destruição da natureza, as guerras para fomentar a venda de armas, a precariedade no emprego e desigualdades sociais, nada disto tem desculpa, a culpa não é dos genes, dos signos ou do diabo é da estupidez humana, que como Einstein disse: “É infinita”.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Reprogramação


Já defendiam os pensadores da antiga Grécia e mais tarde Marx e Sartre, entre outros, que o homem é um animal social e produto do meio em que vive. O homem mentalmente constrói-se a partir das suas relações sociais, sendo influenciado pelos paradigmas (cultura) que lhe são impostos desde a mais tenra idade. Somos vitimas e cúmplices de uma educação familiar, religiosa, escolar e social. “...nascemos originais e morremos cópias “esta frase retrata a vivencia da maioria das pessoas. Somos treinados para sermos trabalhadores e não empreendedores. A sociedade de forma inteligente e, sabendo que um indivíduo num determinado ambiente se ajusta ao mesmo, molda os seus membros conforme as suas necessidades. Esta organização (sociedade) gerou mecanismos de repetição constante, que por sua vez acabam por criar automatismos, na ação dos indivíduos. Os vícios, são um exemplo de como a repetição constante manipula facilmente o ser humano. Podemos constatar este aspeto mesmo nas chamadas drogas legais: cafeína, nicotina e álcool, aceites e fomentadas socialmente, cujo efeito dissuasor de uma sociedade estratificada, instrumentalizada e altamente competitiva, serve plenamente os objetivos dessa mesma sociedade. Estaremos condenados a ser apenas um produto do meio em que vivemos? Eu penso que não. Nós podemos ser subversivos, temos capacidade para fazer uma reprogramação “emocional”, destruir padrões “mentais” entranhados, mudar de hábitos criando novos paradigmas. Com a repetição sistemática de um determinado comportamento o cérebro cria vias sinápticas mais rápidas fazendo com que ações promovam outras ações de uma forma quase automática. Assim foram criados os nossos atuais padrões de comportamento e, desta forma também podemos criar novos hábitos, abandonando aqueles com que não concordamos. Mas, é importante sabermos que os novos hábitos levam algum tempo a se fixarem. Também é preciso lembrar que os nossos antigos hábitos sugiram através de repetições de comportamento e, mesmo depois de “quebrados”, esses comportamentos podem ser reativados sobre o menor estímulo. Depois de adquirirmos novos padrões de comportamento, não devemos abrir alguma exceção para voltar a utilizar algum dos padrões que com tanto esforço conseguimos eliminar. Alterar comportamentos pode ter um efeito que vai muito além do fator individual. Dou o exemplo do que uma simples alteração dos hábitos alimentares pode fazer: foi feito um estudo pela universidade de Oxford onde prova cientificamente que ser vegetariano reduz para metade a pegada ecológica. Como podemos verificar os nossos comportamentos podem ter impacto a nível global. Nota-se um número crescente de pessoas a quererem alterar os seus padrões de comportamento, mas nós somos seres programados, a mudança mete sempre medo, exige esforço e dedicação.  Qualquer um de nós e após uma introspeção, se quiser, pode mudar qualquer hábito por muito enraizado que esteja. Na minha opinião o fator importante para conseguirmos reprogramar os nossos hábitos não é a força de vontade, mas a consciência e a capacidade de se liderar.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Não Obstante a Palavra


Não obstante a palavra “vegetariano” já não ser uma palavra exótica e, reconhecendo que atualmente existe uma maior curiosidade e procura de informação sobre a alimentação vegetariana, ainda assim, existem alguns mal-entendidos sobre este tipo de alimentação. Estando referenciados vários tipos de vegetarianismo, na maior parte dos casos, quando alguém diz ser vegetariano, simplesmente está a dizer que não come animais. Com exceção dos vegetarianos” Vegans” que além de não comerem animais, não consomem nenhum produto de origem animal, grande parte dos vegetarianos têm uma alimentação que se coaduna com a alimentação dita” Normal” Omnívora, excetuando três alimentos: carne, peixe e marisco. Desmistificando o vegetarianismo, começo por dar o exemplo de um convívio onde consta uma refeição omnívora e, a presença de um vegetariano nesse convívio possa causar algum constrangimento ao anfitrião. A pergunta mais comum é: mas o que é que vou cozinhar para ele? É muito fácil. À exceção do animal, o vegetariano come de tudo. Todo o tipo de farináceos, legumes, leguminosas, frutas e alguns até comem ovos, queijos e demais derivados do leite, que podem ser preparados e cozinhados de qualquer forma. Ou seja, com os ingredientes que estão a fazer a refeição omnívora, só não adicionando a carne, peixe ou marisco, poderão fazer uma bela refeição vegetariana. Todos esses alimentos quando bem confecionados e condimentados com as excelentes especiarias que existem, fazem pratos deliciosos para o vegetariano ou qualquer outra pessoa. Ao contrário do que se pensa, o vegetariano não é somente um comedor de saladas. Embora possa comer, o vegetariano também não é um comedor de soja, tofu, Shoyu, Algas, seitan, alimentos integrais e, tantos outros produtos que fazem parte da alimentação macrobiótica e não da alimentação vegetariana. O vegetariano faz uma alimentação completamente normal, só não come animais. Como acontece com pessoas que por motivos de alergias, gustação ou alguma sensibilidade, não comem certos alimentos é, normal que também algum vegetariano tenha algumas restrições mesmo nos alimentos que podem fazer parte do seu cardápio. Anteriormente mencionei que existem vários tipos de vegetarianismo, este facto está diretamente relacionado com as motivações que levam as pessoas a esta prática. Podem ser motivos éticos (respeito pela vida dos animais), a própria saúde, razões ambientais (ecológicas e económicas) ou por razões espirituais. Independentemente do regime alimentar ou da razão da opção, o importante é sermos consumidores responsáveis e estarmos conscientes que a nossa opção alimentar tem consequências devendo ter em conta: um baixo impacto ambiental, proteger e respeitar a biodiversidade e o ecossistema, ser sustentável, nutricional e saudável. Daí, devermos dar preferência aos produtos sazonais, nacionais, de origem vegetal e produção biológica. Assim também ajudaremos os agricultores e mercados locais e concomitantemente estamos a ser uteis à economia global.

domingo, 30 de julho de 2017

Capitalismo Global

Império: “Unidade política que abrange uma vasta extensão territorial e que integra povos com diferentes culturas sob um único poder, independentemente da forma de governo”.  Nos últimos dois milénios, utilizando a força e as invasões militares floresceram impérios como o Helénico, Romano, Bizantino, Otomano entre outros, com um objetivo comum, conquistar terras e ter um domínio total sobre as suas riquezas e povos. Todos esses impérios eram personificados por uma grande figura, uma nação ou um sistema político. Assim sendo, a sua génese estava identificada e, foi possível lutar contra esses poderes e vencer. O imperialismo para os historiadores foi dado como extinto e, ao longo das últimas décadas um sistema democrático e a independência das nações foi-se impondo na generalidade dos países. Mas, subtilmente, surgiu um novo modelo de domínio, que sem rosto, nação ou sistema politico, cumpre na integra os objetivos do antigo Império. Tem um especto aparentemente inofensivo, objetivos altruístas, é atrativo, fascinante, domina as sociedades, sistemas políticos e nações. O império não acabou, mudou de estratégia. Hoje não utiliza as invasões militares como antigamente, o atual sistema imperial cujo nome é: “capitalismo global” faz exatamente o que os antigos impérios faziam, invade as nações, domina os seus povos e riquezas. Este sistema conseguiu absorver e comprometer as elites da maior parte dos países, fossem eles considerados ricos, emergentes ou pobres. Impôs ao mundo um mercado livre e global, os estados, seus habitantes e as multinacionais começaram a funcionar em função desse mercado. Criou-se mecanismos que permitiram a transferência de empresas e empregos dos países desenvolvidos para países onde a mão-de-obra qualificada e a matéria-prima são mais baratas e com uma baixa carga de impostos. Tudo vale para fazer riqueza, o império não permite que alguém o conteste, só no último ano foram assassinados 200 ativistas ambientais, por contestarem o sistema. Conforme escreveu Aldous Huxley “A ditadura perfeita terá a aparência de uma democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga. Um sistema de escravatura onde graças ao consumo e divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”  É alarmante a nível ambiental a crescente destruição da biodiversidade e o uso excessivo de recursos naturais, a nível social, o aumento de desemprego e trabalho precário nos países desenvolvidos. O capital precisa de transformar continuamente a natureza em mercadoria para sustentar o seu crescimento, a sua expansão tem de ter um ritmo sempre crescente para que não caia em crise e haja uma queda das ações. O consumismo excessivo está a ser introduzido nas populações como uma droga altamente viciante. O “capitalismo global” a seguir às armas atómicas é a maior ameaça que o mundo já enfrentou. Cabe a cada um de nós, ter consciência desta realidade e iniciar a sua luta contra o sistema, não se deixando manipular e passando esta mensagem tão importante para a salvação do planeta e da raça humana. 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Conversas com o filósofo


Tinha o nome de “Conversas Vadias” e foi um programa histórico passado na RTP em 1990, onde grandes personalidades do jornalismo português entrevistaram e debateram vários temas com o Professor, filósofo e ensaísta português Agostinho da Silva. É meu intuito, através destas breves palavras escritas, relembrar a existência deste vulto da cultura portuguesa e quem sabe, aguçar a curiosidade a quem não o conheça e acicatar o descobrir desta personalidade. Todos os programas de “Conversas Vadias” estão no youtube e podem facilmente ser visualizadas. Agostinho da Silva, falecido em 1994, foi um homem com uma visão profética. Desafiava as pessoas s serem aquilo para que nasceram e, não viverem sendo no que a sociedade as tornou. Foi um critico do actual modelo de ensino por achar que o mesmo cerceava a criatividade dos alunos e, onde grassavam conteúdos sem interesse prático para a vida. Defendia que o proliferar da tecnologia iria permitir mais horas livres para o ser humano, que por sua vez iria viver mais anos e a escola deveria preparar os alunos para esta nova realidade. Nas suas “Conversas Vadias” incentivava as pessoas a extraírem algo de positivo mesmo das situações mais adversas, pois, podia ser que fosse a vida a colocar essas situações, que ao serem ultrapassadas levariam a uma evolução da pessoa em questão “ não devemos dizer que a vida é negativa e ficar presos a essa ideia, mas procurar outras soluções. Podemos ser uma pedra a recusar o cinzel do escultor que nos quer tornar menos pedra e mais estátua.” Quando lhe perguntaram; O que é que acontece nas situações em que não conseguimos ultrapassar essas dificuldades? de pronto respondeu:” Pode ser que a vida seja mais inteligente do que nós, nos faça sinais, supondo que nós somos tão inteligentes como ela e, nós depois apresentemos soluções que afinal não são as mais correctas e pretendidas por ela” O filósofo não gostava de dividir as pessoas entre as que têm qualidades e as que têm defeitos. “ Em vez disso deveríamos dizer que as pessoa têm determinadas características, porque ao longo dos anos temos verificado que muitas vezes do que chamamos defeitos saíram grandes obras e são as qualidades que muitas vezes às abatem.” Abordar a obra de Agostinho da Silva pode ser importante incentivo a tudo questionarmos, desenvolvermos uma opinião própria e não nos deixarmos manipular. As novas tecnologias de informação estão a ser utilizadas de uma forma muito agressiva, por vários agentes económicos, políticos e religiosos, sendo muito importante a capacidade para filtrar toda essa informação, utilizado somente a parte útil dessa informação. O filósofo, depois das suas divagações, costumava dizer: “Mas esqueça tudo isto que lhe estou a dizer, nunca pense por mim, pense sempre por você; valem mais todos os erros que forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus e não seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas”.Também dizia que :  Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se algum tenho, os que estão contra mim; porque esses guardam no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmiti-lhe: a de não se conformarem”. Acabo transcrevendo uma frase que li algures: “ A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”

quarta-feira, 15 de março de 2017

Evoluindo


Segundo a Associação Vegetariana Portuguesa, em 2007 existiam em Portugal cerca de 30.000 vegetarianos. Em 2014, a Associação Portuguesa de Medicina Preventiva anunciou que esse número ascendia a cerca de 200.000. Muitos podem questionar estes números, mas, poucos contestarão a gestão comercial da McDonald’s, cuja cadeia de restaurantes em Portugal, lançou um hambúrguer vegetariano, o McVeggie, composto por quinoa e vegetais. Ninguém acredita que a maior cadeia mundial de restaurantes de fast food, iria investir num produto que não tivesse um grande número de consumidores.  Esta pequena introdução vem a propósito dos projetos de lei, que primeiramente apresentado pelo partido Pessoas Animais e Natureza (PAN) e, posteriormente pelo Bloco de Esquerda (BE) e Partido Ecologista os Verdes (PEV), torna obrigatório a inclusão de pelo menos uma opção vegetariana (que não contenha nenhum produto de origem animal) nos menus de todas as cantinas públicas e refeitórios do Estado. Esta lei, foi aprovada no parlamento na passada sexta feira com a abstenção do PSD e CDS e concordância dos restantes partidos que compõem o hemiciclo. Aguarda promulgação e a respetiva publicação em Diário da Republica. Prevê-se que entre em vigor daqui a dois meses. De salientar, que a aprovação da lei, foi pedida em petição pública por mais de 15 000 pessoas. A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) assegura a fiscalização e o cumprimento da lei, sendo esta a instituição à qual qualquer cidadão pode enviar uma queixa. Assim, acabará a discriminação que existia em relação às pessoas que têm uma opção de vida vegetariana. Mas, como uma boa notícia nunca vem só, esta semana foi publicado em Diário da Republica, no dia 3 de março, o novo estatuto jurídico dos animais. Esta nova lei, largamente noticiada aquando da sua promulgação pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, entra em vigor no próximo dia 1 de maio. O estatuto reconhece os animais como: “Seres vivos dotados de sensibilidade e objeto de proteção jurídica”. Esta legislação vem alterar o anterior código penal, no qual os animais eram considerados coisas. Estas novas leis, só surpreendem aqueles que não conhecem a história da evolução das leis em Portugal. O nosso país ao longo da sua história tem estado na vanguarda das leis que acabaram com muitas injustiças e desigualdades sociais. Vou mencionar apenas algumas das que considero mais importantes: Portugal foi o primeiro país no mundo a inscrever na Constituição a abolição da pena de morte.  Já, em 1761 Portugal tinha sido o primeiro país a abolir a escravatura, embora de forma restrita, pois só abrangia o território Continental e a Índia. Em 1869, foi aprovada a abolição completa da escravidão no império português. Em 1867, primeiro código civil, começou em Portugal a evolução dos direitos das mulheres. Em 1889, Portugal já tinha uma mulher médica e, em 1890 é autorizado o acesso das mulheres aos liceus públicos. Mais recentemente, o ordenamento jurídico português consagra, em sede de lei Constitucional, Direitos Fundamentais dos Cidadãos com Deficiência. Esta lei consagra às pessoas portadoras de deficiência o direito social, designadamente o direito à subsistência condigna. Também possuímos uma lei de bases do ambiente, bastante ambiciosa, que defende o direito dos cidadãos a terem um ambiente humano e ecologicamente equilibrado. Portugal, subscreve na íntegra a declaração sobre os direitos das pessoas pertencentes a minorias Nacionais ou Étnicas, Religiosas e Linguísticas. Muitas destas leis que têm sido fundamentais para a evolução da nossa sociedade, provêm de propostas de pequenos partidos, ações individuais e movimentos de cidadania. Dai, a importância de não criarmos bipolarização politica, dispersarmos os votos, darmos oportunidade às várias correntes de pensamento e, criarmos sinergias que contribuam para uma sociedade mais equilibrada e solidária.

 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Rendimento Básico Incondicional



Uber e Volvo juntam-se para testar carros sem condutor; Ford quer lançar carro sem condutor até 2021; A partir de agora todos os carros da Tesla são produzidos com tecnologia necessária para no futuro serem carros sem condutor. Estas são algumas das notícias produzidas diariamente anunciando avanços tecnológicos. A produção deste tipo de veículos Inevitavelmente vai provocar desemprego em milhões de pessoas cuja profissão é conduzir. As empresas que se dedicam à tecnologia estão a evoluir os robôs. Segundo estudiosos desta área a inteligência artificial provocará nos próximos anos uma perda líquida superior a cinco milhões de empregos, nos 15 países líderes. Robôs que trabalham sem revindicações, dias inteiros sem parar, sem férias, sem horas de almoço, sem doenças, são um aliciante para as grandes empresas. As máquinas deveriam ajudar o humano, diminuindo as horas laborais humanas e, concomitantemente melhorando as suas condições salariais. Mas, a ganância humana não permite que assim seja, então a máquina em vez de ajudar o humano coloca-o no desemprego e sem meios de sustentação. As pessoas não podem morrer à fome, vai ser preciso arranjar meios de sustentabilidade para esses milhões que sem emprego, precisam viver com o mínimo de dignidade. Para colmatar esta situação, surge o chamado Rendimento Básico Incondicional (RBI). O que é o RBI? O RBI é uma prestação a ser atribuída a cada cidadão, independentemente da sua situação financeira, familiar ou profissional, que lhe forneça condições para viver com o mínimo de dignidade. O RBI, não discrimina ninguém, pois todos o recebem e garante uma autonomia financeira às pessoas com mais dificuldades. Esta é uma forma de tentar acabar com a pobreza. Assim dito, parece uma utopia, uma proposta de alienados, pessoas ignorantes e irresponsáveis. Mas não é assim, é uma proposta que pode ser viável e com estudos de implementação a serem efetuados em países como a Finlândia e a Noruega. Na Suíça, embora sendo rejeitado, foi efetuado um referendo sobre a atribuição do RBI a Suíços e estrangeiros legais no país há pelo menos cinco anos A ideia de um rendimento mínimo fixo não é nova. Existe um movimento internacional que desde 1986 defende esta ideia. Este tema é destaque em Portugal devido ao partido Pessoas Animais e Natureza (PAN) defender um estudo para a sua implementação no nosso país. Segundo o PAN, ao aplicar o RBI iriam desaparecer muitas das prestações sociais (não contributivas) como o complemento social para idosos, pensões de invalidez, rendimento social de inserção, desemprego e, poderia ser atribuído um valor limite para atribuição de reformas, o que permitiria o Estado poupar milhões de euros. A esta poupança ainda podemos somar uma “poupança instantânea” em encargos públicos provocados pela pobreza aos sistemas públicos de saúde. Segundo O PAN, com os valores das declarações de rendimentos totais de IRS de 2012, que somaram 80 milhões de euros, aplicando metade dessa verba para o RBI, permitiria dar 435 euros mensais a cada adulto. O PAN ao lançar este tema para a praça pública, fez despoletar um grande interesse pelos principais órgãos de informação e deu início a um debate público com intervenção de algumas das principais personalidades políticas portuguesas. Este é um tema pertinente, que na minha opinião merece uma reflexão bastante profunda. Dei o exemplo do ramo automóvel, mas esta evolução tecnológica é transversal a toda a área comercial, como podemos constatar presentemente nas self-Checkout, que são a mais recente forma de pagamento nas grandes superfícies e que dispensam o operador de caixa e, os projectos de construção dos chamados supermercados “inteligentes”

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Cassandra


                   
Cassandra era a mais formosa das filhas de Príamo rei de Tróia. A mitologia grega, através da ilíada, conta que o Deus Apolo concedeu a Cassandra o dom de predizer o futuro em troca do seu amor por ele. Mas, Cassandra faltou à sua palavra. Apolo irritado, ordenou que as profecias de Cassandra não merecessem algum crédito e quem às ouvia acabava ridicularizando as mesmas. Assim, quando Cassandra previu a destruição de Tróia, ninguém levou a sério, o mesmo aconteceu quando pediu que destruíssem o famoso cavalo de Tróia e, com a profecia sobre a morte de Ageamenon. Consideravam-na louca. Como sabemos, essas profecias acabaram por concretizar-se. Hoje, na psicologia, utiliza- se o termo: “síndrome ou complexo de Cassandra”, uma metáfora para designar pessoas que, apesar de falarem verdade, são tidas como mentirosas, ou quando alguém visando o melhor, avisa e aconselha, mas os seus avisos e conselhos são ignorados. Fazendo uma analogia e um pouco de ironia, parece-me quea maldição do Deus Apolo, que ao longo dos séculos tem atingido as mais diversas intelectualidades da história, hoje atinge fundamentalmente os defensores da sustentabilidade do planeta e, aqueles que se preocupam com o bem comum e com o futuro das gerações vindouras. Isto passa-se a nível regional, Nacional e internacional. Quem não se lembra da famosa palmeira no Porto Santo, várias pessoas alertaram para a sua perigosidade, foram ignoradas e vítimas de chacota, a mesma acabou por cair fazendo duas vítimas. Os avisos públicos feitos pelo geógrafo Raimundo Quintal, para uma possível catástrofe devido ao estado das ribeiras e zonas adjacentes. O geógrafo foi acusado de profeta da desgraça, inimigo da Madeira e ridicularizado. Depois o previsto aconteceu e foi a destruição que se viu. Um recente relatório da ONU aponta a América Latina como a região mais hostil aos ambientalistas. Por toda a América latina e Caraíbas, os activistas ambientais são desacreditados, classificados como “ antidesenvolvimento” e, enfrentam os piores obstáculos na sua luta por um mundo mais sustentável. Em muitos casos a sua cruzada em prol do planeta e dos direitos humanos tem custado as suas vidas. Entretanto vão-nos chegando notícias credíveis sobre o estado em que estamos deixando a nossa casa. No oceano Pacífico existe a maior lixeira do mundo, conhecida nos meandros científicos pela “ Sopa de plástico”. Estima-se que esta lixeira flutuante seja composta por cerca de cem milhões de toneladas de lixo. Segundo a ONU, os resíduos de plástico matam por ano mais de um milão de aves marinhas e mais de cem mil mamíferos marinhos. A verdade (incómoda) sobre a produção de animais em serie, para um consumo desmesurado de carne que está dizimando os recursos naturais do planeta. As florestas estão perdendo a área de um campo de futebol por segundo, para a criação de pastos para a pecuária, que por sua vez também é considerada a principal fonte de contaminação de oceanos, rios e aquíferos. O aquecimento global, segundo as últimas notícias está chegando ao aumento de 1ºC, ou seja, à metade da trajectória para um aquecimento de 2ºC que é considerado pelos climatologistas como “perigoso”. A enumeração destas situações continuava mas falta-me espaço. Não sejamos como os troianos, não passemos a vida a ridicularizar todos aqueles que nos avisam sobre o mal que estamos a fazer à natureza e, as consequências nefastas que isso ira trazer. Sejamos seres inteligentes, analisar, reflectir e agir pela nossa consciência. Não deixemos que a nossa Tróia (planeta) seja destruída.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A CASA DOS HÓSPEDES

 
Adaptado de um poema do mestre Sufi do século Xll: RUMI
 
 

O “ser humano” é uma casa de hóspedes.

Cada manhã é uma nova visita.

A alegria, a depressão, a  maldade, a falta de sentido

Aparecem, como uma visita inesperada.

Devemos a todos dar as boas vindas e entretê-los

Mesmo que sejam uma multidão de dores e mágoas

Que violentamente varram a nossa casa e, levem a mobília

Mesmo assim, devemos tratar honradamente cada hóspede

Ele pode estar a purificar-nos  

Para que possamos receber uma nova alegria.

O pensamento obscuro, a vergonha, a malícia

Devemos recebe-los à porta rindo

E, convidá-los para entrarem.

Sejamos gratos a quem quer que venha

Porque cada um foi enviado

Como um guia do além.