Nós já temos a vacina. Segundo um
excelente artigo da jornalista Carla Tomás no semanário“Expresso”, as diversas epidemias só nas
últimas duas décadas: a SARS (2002) a MERS (2012) e agora a SARS CoV-2
causadora do COVID19, a gripe da aves (2005) e a gripe suína (2009) conhecida
por gripe A, são todas de origem animal
- morcegos, macacos, camelos, porcos ou galinhas. No mesmo artigo e
fazendo referência a um investigador de renome, refere que excetuando o vírus
causador da varíola, que parece ser exclusivamente humano e que por essa razão
foi possível eliminá-lo, doenças como o sarampo, varicela e as gripes resultam
do manuseamento de animais. Assim sendo, já temos a vacina, é abandonarmos a criação
intensiva de animais, consumirmos moderadamente produtos de origem animal e
deixar de destruir ecossistemas. A natureza continua a enviar avisos e como diz
o ditado: “Quem me avisa meu amigo é”. A natureza também tem a sua bomba
atómica e não precisa de um Enola Gay para a transportar. Entretanto vai sair a
Super Vacina e mais uma série de vacinas para proteger o humano, porque a
destruição e o consumismo exacerbado têm de continuar, os recordes da revista
Forbes têm de continuar a ser batidos, em 2019, Jeff Bezos de 55anos, dono da
Amazon teve a sua fortuna avaliada em 131 biliões de dólares. Para quem está em
confinamento este é o momento ideal para uma introspeção e uma reflexão a nível
de todos os aspetos que regulam a vida. Para quem gosta de leitura este é o
momento ideal para ler ou reler alguns dos clássicos que abordam o
comportamento humano e concomitantemente aumentar o seu pecúlio cultural. Gosto
da definição de cultura de Matthew Arnold, poeta inglês:” É a busca da nossa
perfeição total, mediante a tentativa de conhecer o melhor possível o que foi
dito ou pensado, em todas as questões que nos dizem respeito”. Mas a
leitura é também o que Margerite Yourcenar escreve na sua obra de arte que é o
romance histórico, Memórias de Adriano:” A palavra escrita ensinou-me a
escutar a voz humana, como as grandes atitudes imoveis das estátuas me
ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida,
fez-me compreender os livros”. As minhas sugestões vão para: Os Miseráveis
de Victor Hugo, em relação a esta obra o Escritor Vargas Llosa num ensaio sobre
a mesma, escreveu: “É uma das obras de literatura que mais fizeram homens e
mulheres de todas as línguas e culturas, desejarem um mundo mais justo, mais
racional e mais belo do aquele em que viviam”. Os Irmãos Kamarazov de
Dostoievki que num posfácio a este romance Sigmund Freud diz: “Os Irmãos Kamarazov
é o romance mais magistral que alguma vez se escreveu e nunca seremos capazes
de apreciar de verdade o episodio do Grande Inquisidor”. Grandes Esperanças
de Charles Dickens é outro dos grandes romances. Colocaria ainda nesta lista de
leitura de reflexão: A Servidão Humana de Somerset Maugham e a Insustentável
leveza do SER de Milan Kundera. Para terminar, para bem de todos desejo que
tudo isto acabe o mais rápido possível, especialmente para aqueles que estão sofrendo
com a doença, com falta de trabalho e os que estão na linha da frente arriscando
a vida no combate à doença.
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terça-feira, 14 de abril de 2020
sexta-feira, 6 de dezembro de 2019
Ética
Na
filosofia, ética é o ramo que estuda os valores morais de um grupo ou de um
individuo. O ser humano é um ser em constante conflito consigo próprio. Sigmund
Freud estudou este fenómeno e dividiu a mente em três elementos: ID, Ego e
Superego. O ID nasce connosco e representa o elemento mais primitivo da mente,
onde reside o inconsciente e os desejos mais básicos e primitivos. Após o nascimento,
começa a desenvolver-se o EGO (consciência), aspeto que procura controlar os
impulsos do ID de forma a encontrar soluções menos precipitadas, mais realistas
e que vão de encontro dos ideais e sejam socialmente aceitáveis. O Superego (consciência
moral) são as crenças, cultura familiar, componente moral e social da personalidade
e age em contraponto com o ID. O Ego, também conhecido como o nosso EU, tenta
criar um caminho de equilíbrio entre o ID e o Superego, agindo como “uma pessoa
equilibrada”. Conhecemos atitudes éticas que engrandecem a humanidade e outras
que pelo contrário envergonham. Passo a citar um caso de ética, ou seja, de um
Ego que vive em equilíbrio: Numa corrida de atletismo “corta mato” realizada em
Espanha, Ivan Fernandes, ia em segundo lugar na prova que era liderada pelo campeão
olímpico, o queniano Abel Mutai. Quase no final da prova, Mutai que tinha uma
grande distância em relação ao segundo classificado, pensando que já tinha
cortado a meta parou e, começou a cumprimentar o público. Ivan Fernandes que
vinha em segundo lugar, em vez de correr para a meta e ganhar a prova,
dirigiu-se a Mutai e gesticulando explicou-lhe que ainda não tinha cortado a meta,
o atleta queniano correu os poucos metros que faltavam e venceu. No final da prova
os jornalistas perguntaram a Fernandes: porque fizeste isso? E ele respondeu:
Isso o quê? Porque deixaste o Abel Mutai ganhar? Fernandes respondeu: eu não o deixei ganhar, ele
ganhou porque foi melhor do que eu. Que mérito é que eu teria se tivesse ganho
desta maneira? Se eu estivesse no primeiro lugar do pódio, quando chegasse a
casa o que é que eu ia dizer à minha mãe? Falando de ética, esta é uma frase
belíssima, porque a nossa mãe é a última pessoa que queremos dececionar, porque
se a pessoa que nos trouxe à vida tiver vergonha de nós, é porque não prestamos.
Os problemas morais e éticos são situações que normalmente não envolvem só a
pessoa em questão, mas também outras pessoas que podem sofrer consequências das
decisões e ações, que muitas vezes até podem afetar uma comunidade inteira. Falta
de ética e atitudes que envergonham, são por exemplo: cientistas e governos que
pelo dinheiro fácil, se deixam corromper por lóbis como o da indústria da
carne, lacticínios, medicamentos, produtos químicos e armamento. Esconderem
estudos que provam os malefícios provocados nas pessoas e no planeta por essas
industrias e, não satisfeitos, ainda ajudam a promover os respetivos produtos. Eticamente
falando, estes corruptores e corrompidos, são as tais pessoas que não podem
contar à mãe aquilo que fazem, ela iria sentir vergonha de os ter parido.
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
Questionar e agir
No clássico infantojuvenil “Alice
no País da Maravilhas”, o seu autor Lewis Carroll coloca um diálogo interessante
entre Alice e o Gato. Alice pergunta ao Gato qual seria o melhor caminho que deveria
seguir para sair daquele lugar. O Gato responde:” Isso depende muito do sítio onde queres chegar”. Alice diz: “Na verdade não me importo muito”, ao que
o gato responde:” Então pouco importa o
caminho que sigas”. Nesta história L. Carroll também coloca Alice num
monólogo, onde Alice se interroga: “(…) a
questão é: quem sou eu afinal? Ah, esse é o grande dilema!”. Neste diálogo
e monólogo que podemos interpretar como filosóficos, existem duas questões que deveríamos
colocar a nós próprios. Quais são os nossos objetivos como seres humanos e,
quem somos nós além da nossa identificação civil. Com estas duas questões respondidas,
então, podemos pedir aconselhamento quanto ao caminho a seguir. Até lá, tal
como respondeu o Gato a Alice, não importa qual o caminho que sigamos. Num
outro clássico da mesma índole: “O Principezinho” de Saint Exupéry, o autor descreve
um diálogo entre a Raposa e o Principezinho:”
Adeus, disse a Raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: Só se vê bem com o
coração, o essencial é invisível aos olhos”. Este também é um pressuposto
importante para a evolução humana, vermos as situações pela perspetiva
humanista. Cito dois livros para adolescentes porque é sobre duas adolescentes
que vou continuar a escrever. Malala Yousafzai, ganhou o Prémio Nobel da Paz
com apenas 17 anos. Num local dominado por melícias fundamentalistas Talibãs, onde
havia grande repressão sobre as mulheres e se matava alguém simplesmente por
discordar do sistema, Malala com apenas 11 anos começou a manifestar-se defendendo
o direito de as meninas frequentarem a escola. Continuou com várias formas de luta
defendendo a liberdade e a sua causa: “O direito à educação”. Quando tinha 15
anos aconteceu o que parecia inevitável, um terrorista disparou três tiros na
sua cabeça. Felizmente não morreu. Agora, outra adolescente, Greta Thunberg com
16 anos de idade, lidera uma luta Hercúlea para salvar o planeta. Conseguiu o
apoio de milhões de pessoas. Em março deste ano cerca de 1,4 milhões de
crianças em idade escolar, fizeram greve e saíram à rua manifestando-se e
apoiando a causa ambientalista. Embora muito jovem já se encontrou com
personalidades como o Papa Francisco, Barack Obama, já discursou por duas vezes
na Cimeira do Clima das Nações Unidas, onde no seu último discurso acusou os
líderes das nações de:” não serem maduros
o suficiente para encarar os factos e de estarem a deixar o peso das alterações
climáticas para as crianças”. Malala e Greta são exemplos de alguém que por
certo sabe quem é, qual o seu objetivo como ser humano e que vê com o coração. “Sejamos
a mudança que queremos ver no mundo”, é importante pensarmos globalmente, mas
agirmos localmente, percebermos qual a nossa responsabilidade naquilo que
condenamos. Como disse G. Thunberg:” Temos
de agir como se a nossa casa estivesse a arder, porque está mesmo”.
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
O Sermão
O sermão de Stº António aos
peixes, proferido pelo Padre António Vieira em São Luís do Maranhão a 13 de junho
de 1654, é uma alegoria intemporal, a sua voz fez um eco que se ouve até os
dias de hoje. Neste sermão serviu-se da alegoria e, pregando aos peixes, tentou
sensibilizar a consciência humana. Começou o sermão referindo que Stº António,
quando pregava em Itália na cidade de Arímino contra os hereges, vendo que as suas palavras não eram bem
recebidas e pouco faltando para lhe tirarem a vida, não deixou de pregar,
simplesmente mudou de púlpito e de
auditório, ”já que não me querem ouvir os
homens, ouçam-me os peixes”, deixou as praças e foi para as praias pregar
aos peixes. Estando o Padre Vieira, numa situação análoga à de Stº António e
encontrando-se perto do mar, fez como o santo e pregou aos peixes. Destacou as
virtudes dos peixes em geral e enalteceu de sobremaneira quatro deles. Criticou-os
também de forma global, relativamente à sua ignorância, vaidade, cegueira e más
condutas e, por se comerem uns aos outros, com a agravante de serem sempre os
maiores a comerem os mais pequenos, explorando e humilhando os mais
desfavorecidos. Também na crítica escolheu quatro peixes que por fazerem
lembrar a hipocrisia e mesquinhez dos homens, mereceram uma crítica mais
profunda. Embora o sermão fosse sobre as atrocidades que os sanguinários
colonos portugueses infligiam aos nativos, o tema continua atual, porque
continuamos a viver num Mundo onde grande parte da população continua a ser
explorada por alguns que dominados pela ganância, o muito é insuficiente.
Deveríamos ler e meditar Vieira pelo conteúdo moralista e pela escrita de rara
beleza. Fernando Pessoa escreveu que Vieira era o “imperador da língua portuguesa”. Atualmente na situação de
emergência ecológica que vivemos e não querendo os homens ouvirem os que tentam
salvar a humanidade e o planeta, será que temos de voltar a pregar aos peixes
para que os homens nos oiçam? Nunca houve no Mundo gente tão inculta com poder
para fazer tanto mal. Dois exemplos de incultura: Bolsonaro presidente do
Brasil, respondendo a um jornalista como resolver o problema ambiental: “é só você fazer cocó, dia sim dia não”. Trump
no seu discurso do dia da independência diz que o exército americano havia
conseguido “tomar o controlo dos
aeroportos “contra os britânicos em 1775, o avião só foi inventado um
século depois. Sim, já tivemos Hitler, Mao, Estaline, Pinochet, guerras
mundiais, genocídios, mas não aprendemos nada com isso? Falemos aos peixes para
enaltecer aqueles que lutam por uma humanidade mais humana e criticar os que
desrespeitam a criação. O dia da sobrecarga do planeta deste ano foi a 29 de
julho, a data mais recuada desde que o défice ecológico começou no ano 1970. As
grandes potências “esfregam as mãos” de contentes com o degelo do Ártico, veem
mais uma oportunidade de faturar milhões, não conseguem ver que o degelo poderá
afetar negativamente o mundo de forma irreversível. Gaudí disse: “A originalidade consiste no retorno à
origem; assim, original é aquele que retorna à simplicidade das primeiras
soluções”. Aprendamos!
sexta-feira, 31 de maio de 2019
A Filosofia
segunda-feira, 13 de maio de 2019
A Democracia
No ano 399 a. C. o filósofo Sócrates, considerado por muitos
como o fundador da filosofia ocidental, foi julgado e condenado à morte. A
cidade estado “Atenas “onde Sócrates vivia, era gerida desde o ano 508 a.C. por um novo sistema politico chamado
democracia. Por esta razão, o Filósofo teve um julgamento democrático. O
julgamento tinha três acusadores, que perante o Bulé (conselho constituído por
500 membros) apresentaram as acusações, às quais, Sócrates rebateu
detalhadamente cada uma. Tendo a maioria dos jurados votado a favor da
condenação, Sócrates foi condenado, num dos primeiros atos de injustiça (que
temos conhecimento) praticados pela democracia. Sendo a liberdade de expressão
o suporte vital de qualquer regime democrático, não deixa de ser um paradoxo alguém,
em democracia, ser condenado por utilizar a sua liberdade de expressão, sem
nunca ter incentivado à violência e desobediência. Platão, seu discípulo, após
o julgamento, condenou a democracia referindo que este julgamento mostrou que a
democracia poderia calar a verdade tanto quanto a tirania. Passados quatro
séculos, segundo as escrituras sagradas, deu-se o julgamento de Jesus Cristo.
Pelo que conta a história, Jesus foi um homem de bem, que sempre pautou a sua
vivência com gestos de bondade e tolerância. Acusado injustamente, o governador
romano Pôncio Pilates, ficou com o ónus da questão. Entendendo que Jesus era
inocente, o governador aproveitou a tradição de soltar um preso na Páscoa para o
libertar. Colocando lado a lado, Jesus e um conhecido criminoso de nome
Barrabás, teve uma atitude “democrática”, perguntando ao povo quem é que
queriam que ele libertasse. A maioria escolheu Barrabás para ser libertado e,
como se não bastasse, exigiu a crucificação de Jesus. Prosseguindo na minha
divagação, nos séculos XV e XVI quando todos defendiam o geocentrismo, dizendo
que o planeta Terra estava fixo no centro do Universo com os corpos celestes a
girar em seu redor, só Copérnico e Galileu, cada um em sua época, defenderam o
heliocentrismo, dizendo que a terra girava em volta de si mesma e em redor do
Sol e, mais uma vez, a maioria errou. Sem dúvida, numa perspetiva histórica,
nem sempre a maioria tem razão. A democracia não se esgota na votação, contém
leis e mecanismos de ação que salvaguardam a dignidade da pessoa humana. A
democracia não é a ditadura da maioria, rege-se pela justiça social e concede
espaço de opinião à minoria. Ao longo de 2500 anos, a democracia evoluiu e
fortaleceu-se, mas quando imbuída de ignorância, continua tão frágil como no
seu início. Não podemos cumprir a democracia sem sabermos o seu verdadeiro
significado, desconhecendo a importância de uma sociedade num estado
democrático. É necessária uma educação para a política e para a sociedade, um
tema que precisa ser debatido nas aulas de filosofia, disciplina que deveria constar
do currículo escolar desde os primeiros anos de escolaridade. Não devemos
confundir instruir com educar. Os alunos devem ser instruídos nas áreas das suas
aptidões específicas, mas educados no aspeto moral e cívico. Uma sociedade
desinformada, sem hábitos de leitura, sem cultura política, pode através da democracia,
construir uma tirania e, trocar liberdade por grilhões.
sexta-feira, 22 de junho de 2018
A Energia Criadora
Numa entrevista ao Filósofo
português Agostinho da Silva, o entrevistador pergunta se ele acredita na
existência de Deus, ao que Agostinho
responde: “É preciso que o meu amigo me
diga o que é essa coisa de Deus para si?”. Na troca de galhardetes entre
entrevistador e entrevistado, Agostinho acaba por explicar que essa ideia de
Deus que aparece nas religiões e, para não haver tanta confusão, poderia ser
substituída por “criatividade absoluta”.
O entrevistador insiste: “é nisso que
acredita?” Agostinho responde: “Não
acha que seria esquisito eu acreditar que existem coisas criadas e não
acreditar na criatividade?” A metafísica faz parte do pensamento humano e,
a filosofia trouxe as questões que até hoje inquietam a humanidade: quem somos,
de onde viemos, para onde vamos, qual o verdadeiro sentido da vida? Platão na
sua teoria diz que antes de existir o Universo tal qual o conhecemos, só
existiam ideias, a que chamou “Mundo das ideias”, um Mundo inteligível onde
tudo é perfeito e imutável. Segundo o filósofo, esse é o Mundo real, que uma
energia criadora materializou, criando o Mundo tal qual o conhecemos, que
chamou de: “sensível ou material”. Tudo o que existe são cópias dessa realidade,
que é o “Mundo das ideias” e, por serem cópias são imperfeitas. O objetivo dessas
cópias é aproximarem-se o mais possível dos seus arquétipos, caminhar em
direção à perfeição, ou, dizendo por outras palavras, diminuir a distância que
existe entre o material e o divino. A ciência tenta responder às perguntas dos
filósofos, são sondas que vagueiam pelo espaço, observações com enormes
telescópios, aceleradores de partículas, mas as respostas podem não estar tão
longe, podem estar na introspeção, na viagem ao nosso interior. Provavelmente, tudo
o que existe tem uma razão para existir e deve cumprir a função para que foi
criado. Nós humanos, devemos cumprir a missão que a natureza nos destinou, que
é sermos humanos, na verdadeira essência da palavra. A humanidade tem a
responsabilidade de ser a guardiã do planeta e, não pode agir como se fosse uma
célula cancerígena do mesmo. Estamos a destruir a harmonia em que o mundo foi
criado e onde tudo se completa. Os recursos básicos da espécie humana dependem
da biodiversidade que não estamos a preservar. Muitos
falam da seleção natural, da lei do mais forte, do gene egoísta, mas estão
cegos, não vendo que estes argumentos têm servido para justificar as mais bárbaras
atrocidades. Hoje existem 20 milhões de seres humanos em risco de fome extrema
num mundo de abundância. A miséria humana não é o caminho para a evolução. Acredito
no homem poeta, filósofo, espiritualista e, que este homem nos irá conduzir a
um mundo melhor. Está escrito no templo de Apolo em Delfos” Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o Universo, porque se
o que procuras não achares primeiro dentro de ti, não acharás em lugar algum”.
Cada um dentro de si tem a solução para a construção de um mundo melhor. Porque
não, começar já?
quarta-feira, 16 de maio de 2018
Fanático
Fanus é
uma palavra de origem grega. significa templo. “fanaticus”, adjetivava
os frequentadores de Fanus, mas, cujos aspetos passionais e emocionais
superavam o equilíbrio racional. A palavra “fanaticus” deu origem à palavra
fanático. Hoje, fanático classifica quem de forma intolerante defenda qualquer
tipo de causas ou ideias, utilizando se necessário, a violência para converter
ou destruir os que não as aceitam. Mas, não devemos confundir fanatismo, com
quem de forma abnegada e educada argumenta defendendo ideais. O fanatismo, transporta
consigo a irracionalidade e a violência, seja ela física ou verbal. O fanatismo
desportivo, político, racista e religioso, tal qual uma doença contagiosa, vêm
contaminando as sociedades. No fanatismo desportivo, um espetáculo onde
deveriam ser apreciados os dotes artísticos dos intervenientes, perante o
fanático é um aspeto irrelevante, só a vitória interessa. Nas bancadas, numa euforia
desmedida, lançam-se os mais grosseiros impropérios a outros espetadores e aos
intervenientes no jogo. Por vezes, as agressões verbais transbordam para agressões
físicas, alteram o seu estado anímico em função de um simples resultado
desportivo. O fanático não desfruta do espetáculo é: o mau humor, as noites mal
dormidas da derrota, a alegria desmesurada da vitória. O fanatismo político tem repercussões piores. O fanático político defende
com ferocidade as suas opiniões, não tem contemplações com amigos ou
familiares. A sua verdade é suprema. O seu fanatismo é aproveitado pelos políticos
habilidosos. Este fanático é colocado nas primeiras filas das manifestações,
participa nos congressos e todos os tipos de reuniões partidárias, é dos que
nas campanhas eleitorais, provoca o confronto físico com as campanhas
adversárias. O fanatismo racista e xenófobo é hediondo. Normalmente é composto
por pequenos grupos de fanáticos que atacam minorias. Neste tipo de fanatismo
existe uma tentativa de desvalorizar um determinado grupo social devido a
alguma característica física. Fomenta o preconceito, incentiva o ódio e a
rejeição contra diferentes grupos étnicos. Todo o tipo de fanatismo é desnecessário
e deve preocupar, mas o fanatismo religioso, além de desnecessário é o mais perigoso.
O fanático religioso tem a ideia da proteção divina e tudo o que faz é em nome
de Deus. Ele convence-se que as suas atitudes são inspiradas por uma força superior
e, quando faz algo de errado, sente-se absolvido por essa força. Ao longo dos
séculos e até aos dias de hoje, têm-se cometido as maiores sevicias através do
fanatismo religioso. Outros tipos de fanatismo, embora não sendo tão perigosos,
preocupam-me, casos do fanatismo ecológico e da defesa dos animais, pois esse
tipo de comportamento afasta pessoas de bom senso do envolvimento nestas
causas. Só a educação pode combater o fanatismo, a educação começa em casa,
bons exemplos resultam em bons comportamentos. Ao menor sinal desta “doença”
devemos atuar, pois ela aparece muito subtilmente e, rapidamente toma
proporções enormes.
sexta-feira, 27 de abril de 2018
Ser Importante
À pergunta arrogante: mas você
sabe quem eu sou? Você sabe com quem está a falar? O filósofo brasileiro Mário
Cortella responde mais ou menos assim: sei, você é um entre 7,5 biliões de
indivíduos, pertencente a uma única espécie, entre outros 30 milhões de
espécies que habitam um pequeno planeta, que gira em volta de uma estrela
mediana, que é uma entre 100 biliões de estrelas que fazem parte de uma
galáxia, entre outros 200 biliões de galáxias que existem num dos universos
possíveis e que um dia vai desaparecer. E acaba esta dissertação dizendo: ainda
assim você acha-se importante? É claro que esta resposta se destina a quem tem
um comportamento arrogante por se considerar superior. A história da humanidade
relata-nos as imensas personalidades que deram grandes contributos nas mais
diversas áreas e, na defesa de causas com grandes benefícios para a humanidade.
Muitos desses famosos, perpetuam a sua imagem em estátuas e nos compêndios,
alguns eu admiro, agradeço o que fizeram, mas não são importantes para mim. Ser
importante, para mim, tem um sentido muito mais íntimo. Analisando o sentido
etimológico da palavra Importante, a sua origem é do latim importare (in +
portar) o prefixo in significa dentro e portar significa transportar. Ou seja,
uma pessoa importante é aquela transportamos para dentro de nós, que levamos no
nosso “coração”. É alguém que nos faz falta, que esteve connosco quando mais
precisamos, é quem nunca esqueceremos. Feliz aquele que tem no seu pai, mãe,
cônjuge, filhos, pessoas importantes para si. Feliz quem consegue ter “amigos”
que na verdadeira essência da palavra são pessoas importantes. Triste quem não
faz falta a alguém. Triste aquele que pela vida que levou não tem a quem
revelar a sua tristeza. Tchékhov num dos seus contos, fala do concheiro Iona a
quem lhe tinha morrido o filho e que no seu enorme desgosto precisava de falar
com alguém no sucedido, mas ninguém tinha vontade de o ouvir. Então, numa noite
em que não conseguia dormir dirigiu- se à cavalariça e começa a falar com a sua
égua: “É assim a vida, eguazinha amiga...
já cá não está o Kuzmá Iónitch…. Entregou a alma ao Criador… De repente, sem
mais nem menos apagou-se …. É assim: digamos que tu tens um potrinho, que és a
mãe do potrinho…E de repente, é um supor, o teu potrinho entrega a alma ao
Criador…Grande pena, não era? A égua mastiga, ouve e respira para as mãos do
dono. Iona não tem mão em si e conta-lhe tudo” Podemos acabar como o
cocheiro Iona, sem sermos importantes para alguém, agarrados a um animal de
estimação, ou simplesmente colocados num Lar ou abandonados num Hospital sem
alguém que nos queira ouvir. Precisamos sair de dentro de nós, para que os
outros nos possam “importar” e tornar-nos importantes. Façamos obra, lutemos
por causas, não habitemos dentro duma redoma. Sejamos bons seres humanos e
exteriorizemos essa condição de forma a podermos gravar o nosso nome no coração
de outras pessoas. É importante sermos importantes.
sexta-feira, 6 de abril de 2018
Ídolos
Desde os primórdios que a escrita faz alusão à
idolatria. Um texto bíblico do antigo testamento, conta que o rei da Babilónia
Nabucodonosor pediu ao profeta Daniel para lhe decifrar o seguinte sonho: “Uma estátua alta e muito brilhante com uma aparência
impressionante. A cabeça da estátua era de ouro maciço, o peito e os braços
eram de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro e os pés parte
de ferro e parte de barro. Uma pedra desprendeu-se da montanha, e veio bater
nos pés da estátua quebrando-os”. E claro, toda a estátua se desmoronou. Consta que provém desta história a
frase: “Ídolos com pés de barro”. Embora esta história tenha mais de 2600 anos,
pode servir de reflexão para a atualidade onde como nunca se promovem Ídolos. A
economia através das técnicas de marketing e utilizando os mais avançados meios
de comunicação faz do ídolo, um produto que tenta rentabilizar financeiramente.
É demais evidente a tentativa de idolatrizar o mais possível. Esta, é uma ação
socialmente perigosa, porque os jovens, têm a tendência de imitar os
comportamentos dos seus ídolos, sendo muitos deles inadequados. Proliferam as
referências aos comportamentos desviantes dos chamados “ídolos com pés de
barro”, heróis vitimas do infortúnio, provavelmente por terem sido colocados
num pedestal, para o qual não estavam preparados. São medalhas devolvidas
devido à utilização do doping, internamentos para desintoxicação devido ao
consumo de drogas, violência doméstica, alcoolismo, prostituição, enfim, um
sem-números de situações que põem a descoberto o quanto falível é o ser humano,
para ser elevado a Ídolo e venerado. É preciso destruir este ídolo que bloqueia
a inteligência humana. Cultuar cega e, não nos deixar ver o outro, ficamos
obcecados. Onde poderíamos ver a grandeza da diversidade humana, vemos
simplesmente aquele que para nós está acima de tudo. É natural gostarmos,
valorizarmos e reconhecermos o valor daqueles que são exímios na sua arte, que
atingiram a excelência. É bom examinarmos os seus percursos, aprender com eles,
retermos o útil, mas, não venerar essas personalidades. A idolatria não deixa
ver que existem cidadãos anónimos, gente honesta, culta, inteligente e humilde,
que são verdadeiros exemplos para todos. Estes não têm campanha de marketing,
mas são tão ou mais importantes que as celebridades. Não têm uma plateia pela
frente, mas são exímios na arte de: “construir um mundo melhor”. Gente
altruísta, que depois de um dia árduo de trabalho anda pelas ruas ajudando os
sem abrigo, distribuindo alimentos. Alguns arriscando a vida nos campos de
refugiados, nos lugares mais inóspitos do planeta, ajudando quem mais precisa.
Outros, “comendo o pão que o diabo amassou” para sustentar uma família, dar
formação e educação aos seus filhos. Estes nunca serão ídolos, nunca saberemos
onde é a sua campa para os ir visitar, mas são a base da construção de uma
sociedade melhor.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
A Caverna
Na “Alegoria da Caverna”, Platão
imaginou um grupo de homens que vivessem desde a infância num subterrâneo em
forma de caverna. Eles estavam virados para uma parede, acorrentados pelos pés
e pescoço. Uma forte luz no exterior da caverna permitia aos prisioneiros verem
projetadas na parede as sombras do que passava pela frente da abertura da
caverna. Como ignoravam o mundo lá fora, essas sombras, eram a sua realidade.
Imaginou também: se um desses prisioneiros se soltasse das amarras e fugisse da
caverna, o que aconteceria? Ao sair, ficaria ofuscado pela luz e sentiria dores
com a claridade. Aos poucos, iria verificando a beleza incrível que havia fora
da caverna. Com o passar do tempo é, normal que sentisse a necessidade de
voltar à caverna, contar aos companheiros tudo que presenciou e tentar
libertá-los. Qual seria a reação dos prisioneiros? Provavelmente não
acreditariam nele, considerá-lo-iam louco e matavam-no. A caverna, representa o
nosso mundo. Os prisioneiros, são as pessoas que estão presas a preconceitos
que vivem no obscurantismo. As sombras projetadas na parede, são as “falsas
verdades”. O fugitivo, é aquele que questiona e reflete sobre o mundo em que
vive. O lado de fora da caverna, representa a realidade, a forte luz, o
conhecimento. O retorno do fugitivo à caverna, representa o educador, o
filósofo. Platão nesta metáfora, provavelmente representa a vida do seu mestre
Sócrates, filósofo que não se submeteu aos conceitos vigentes e, incentivou as
pessoas a uma busca interior, dando
mais valor ao aspeto moral que aos bens materiais. Sócrates foi condenado à
morte em 399 A.C. com as acusações de: corromper os jovens com a sua filosofia,
negar os Deuses do estado e, ameaçar a vida social e politica de Atenas.
Passados que foram quatro séculos, foi a vez de Jesus Cristo percorrer o mesmo
caminho de Sócrates. Ao desvalorizar o materialismo em prol da espiritualidade
e, através de parábolas provocar reflexões sobre a vida, acabou como Sócrates,
condenado à morte. Mil e poucos anos depois apareceu a inquisição, que julgou
em tribunal mais de 150 mil pessoas, muitas delas acabaram assassinadas, porque
pensavam diferente ou não agiam segundo os padrões sociais instituídos.
Atualmente, com a implementação da democracia em muitos países, existe uma
maior tolerância à opinião contrária e maior liberdade de expressão. Mas, a
tradição, a superstição e a ignorância, ainda são armas poderosas de
manipulação. Em muitas situações, quem pensa e age diferente ainda é alvo de
preconceito e violência. Hoje, tal qual, no tempo de Platão, continua a ser
necessário rebentar as amarras, sair da caverna, ver a realidade e, mesmo
correndo riscos, retornar à caverna, contar as boas novas e, tentar soltar os
prisioneiros. Bem hajam, todos aqueles que já saíram da caverna e, que mesmo
num ambiente de hostilidade, promovem o caminho para a dignidade humana e
animal, que lutam contra a pobreza, protegem o meio ambiente e têm um modo de
vida sustentável. Benditos, aqueles que se preocupam e dedicam ao bem da
humanidade e, com os seus gestos conseguem influenciar os outros.
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
A Desculpa
Existe a desculpa esfarrapada cujo expoente é a famosa frase: “eu não tenho culpa, a culpa é do meu signo”,
a desculpa religiosa “a culpa é do diabo,
foi ele que me tentou” e a desculpa cientifica, “A culpa é do Gene “. A
desculpa é transversal a toda a sociedade, desde o trivial ao argumento mais
sofisticado, existem desculpas para todos os gostos. No parlamento brasileiro uma
deputada expressou de forma convicta: “A
corrupção está no DNA do brasileiro”. É sobre a desculpa científica que vou
tecer algumas palavras neste artigo. Não me querendo imiscuir numa área que não
domino, limito-me a referenciar somente o que a um leigo é permitido. O DNA é
constituído por cromossomas que por sua vez são constituídos por genes. Os
genes são um género de manual de instruções codificadas. A nossa herança
biológica, (hereditariedade) é transmitida pelas características codificadas
nos genes. Segundo o biólogo Dawkins, os genes é que criaram o nosso corpo e a
nossa mente. Compreendendo a parte biológica dos genes, já não é tão claro, que
sejam eles os responsáveis pelas nossas atitudes, perfil psicológico, emoções,
opções morais e éticas. É comum a expressão: “Não podemos fazer nada, ele é assim,
faz parte da sua genética (feitio)”. O geneticista Dean Hamer, depois de já
ter mencionado um gene responsável pela homossexualidade, mais propriamente o cromossoma
x secção xq28, saiu recentemente com um livro (O gene de Deus) que revela o gene
(Vmat2) como responsável pela fé religiosa. Embora não explique se foi esse gene
responsável pelo homem criar Deus ou se foi Deus que criou esse gene para o
homem saber da sua existência. Também um estudo efectuado na Finlândia revelou
dois genes que podem estar ligados à violência. Já se identificou o gene do
alcoolismo e, até o da promiscuidade e da infidelidade. Ou seja, nós não somos responsáveis pelas nossas ações, mas umas
“pobres” vítimas dos genes. É claro que estes argumentos já estão a ser
utilizados habilmente pelos advogados para redução de penas. Acredito no livre
arbítrio filosófico, doutrina que afirma: “o ser humano é livre de escolher ou
decidir em função da sua própria vontade, estando isento de qualquer
condicionamento prévio ou causa determinante” Acredito na educação que por sua
vez produz o respeito. Acredito na consciência e, não acreditando na religião,
acredito na espiritualidade. O corpo não é simplesmente
uma máquina para a sobrevivência e transmissão dos genes é, também uma entidade
para o desenvolvimento do espírito. O que provoca o alcoolismo não é o gene é,
a infelicidade e a miséria humana. Os cerca de 800 milhões de pessoas ameaçados
de morte por causa da fome, devido ao desperdício de alimentos. Os 60 biliões
de animais mortos por ano nos matadouros, o aquecimento global, a infestação
dos produtos agrícolas com químicos e toda a destruição da natureza, as guerras
para fomentar a venda de armas, a precariedade no emprego e desigualdades
sociais, nada disto tem desculpa, a culpa não é dos genes, dos signos ou do
diabo é da estupidez humana, que como Einstein disse: “É infinita”.
domingo, 31 de dezembro de 2017
Reprogramação
Já defendiam os pensadores da
antiga Grécia e mais tarde Marx e Sartre, entre outros, que o homem é um animal
social e produto do meio em que vive. O homem mentalmente constrói-se a partir
das suas relações sociais, sendo influenciado pelos paradigmas (cultura) que
lhe são impostos desde a mais tenra idade. Somos vitimas e cúmplices de uma
educação familiar, religiosa, escolar e social. “...nascemos originais e morremos cópias “esta frase retrata a vivencia
da maioria das pessoas. Somos treinados para sermos trabalhadores e não empreendedores.
A sociedade de forma inteligente e, sabendo que um indivíduo num determinado
ambiente se ajusta ao mesmo, molda os seus membros conforme as suas
necessidades. Esta organização (sociedade) gerou mecanismos de repetição
constante, que por sua vez acabam por criar automatismos, na ação dos indivíduos. Os vícios, são um exemplo de
como a repetição constante manipula facilmente o ser humano. Podemos constatar
este aspeto mesmo nas chamadas drogas legais: cafeína, nicotina e álcool,
aceites e fomentadas socialmente, cujo efeito dissuasor de uma sociedade
estratificada, instrumentalizada e altamente competitiva, serve plenamente os
objetivos dessa mesma sociedade. Estaremos condenados a ser apenas um produto
do meio em que vivemos? Eu penso que não. Nós podemos ser subversivos, temos
capacidade para fazer uma reprogramação “emocional”, destruir padrões “mentais”
entranhados, mudar de hábitos criando novos paradigmas. Com a repetição
sistemática de um determinado comportamento o cérebro cria vias sinápticas mais
rápidas fazendo com que ações promovam outras ações de uma forma quase
automática. Assim foram criados os nossos atuais padrões de comportamento e,
desta forma também podemos criar novos hábitos, abandonando aqueles com que não
concordamos. Mas, é importante sabermos que os novos hábitos levam algum tempo
a se fixarem. Também é preciso lembrar que os nossos antigos hábitos sugiram
através de repetições de comportamento e, mesmo depois de “quebrados”, esses
comportamentos podem ser reativados sobre o menor estímulo. Depois de
adquirirmos novos padrões de comportamento, não devemos abrir alguma exceção
para voltar a utilizar algum dos padrões que com tanto esforço conseguimos eliminar.
Alterar comportamentos pode ter um efeito que vai muito além do fator
individual. Dou o exemplo do que uma simples alteração dos hábitos alimentares
pode fazer: foi feito um estudo pela universidade de Oxford onde prova
cientificamente que ser vegetariano reduz para metade a pegada ecológica. Como
podemos verificar os nossos comportamentos podem ter impacto a nível global. Nota-se
um número crescente de pessoas a quererem alterar os seus padrões de
comportamento, mas nós somos seres programados, a mudança mete sempre medo, exige
esforço e dedicação. Qualquer um de nós
e após uma introspeção, se quiser, pode mudar qualquer hábito por muito enraizado
que esteja. Na minha opinião o fator importante para conseguirmos reprogramar
os nossos hábitos não é a força de vontade, mas a consciência e a capacidade de
se liderar.
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Não Obstante a Palavra
Não obstante a
palavra “vegetariano” já não ser uma palavra exótica e, reconhecendo que
atualmente existe uma maior curiosidade e procura de informação sobre a
alimentação vegetariana, ainda assim, existem alguns mal-entendidos sobre este
tipo de alimentação. Estando referenciados vários tipos de vegetarianismo, na
maior parte dos casos, quando alguém diz ser vegetariano, simplesmente está a
dizer que não come animais. Com exceção dos vegetarianos” Vegans” que além de
não comerem animais, não consomem nenhum produto de origem animal, grande parte
dos vegetarianos têm uma alimentação que se coaduna com a alimentação dita”
Normal” Omnívora, excetuando três alimentos: carne, peixe e marisco.
Desmistificando o vegetarianismo, começo por dar o exemplo de um convívio onde
consta uma refeição omnívora e, a presença de um vegetariano nesse convívio
possa causar algum constrangimento ao anfitrião. A pergunta mais comum é: mas o
que é que vou cozinhar para ele? É muito fácil. À exceção do animal, o
vegetariano come de tudo. Todo o tipo de farináceos, legumes, leguminosas,
frutas e alguns até comem ovos, queijos e demais derivados do leite, que podem
ser preparados e cozinhados de qualquer forma. Ou seja, com os ingredientes que
estão a fazer a refeição omnívora, só não adicionando a carne, peixe ou
marisco, poderão fazer uma bela refeição vegetariana. Todos esses alimentos
quando bem confecionados e condimentados com as excelentes especiarias que
existem, fazem pratos deliciosos para o vegetariano ou qualquer outra pessoa.
Ao contrário do que se pensa, o vegetariano não é somente um comedor de
saladas. Embora possa comer, o vegetariano também não é um comedor de soja,
tofu, Shoyu, Algas, seitan, alimentos integrais e, tantos outros produtos que
fazem parte da alimentação macrobiótica e não da alimentação vegetariana. O vegetariano faz uma alimentação completamente normal, só
não come animais. Como acontece com pessoas que por motivos de alergias,
gustação ou alguma sensibilidade, não comem certos alimentos é, normal que também
algum vegetariano tenha algumas restrições mesmo nos alimentos que podem fazer
parte do seu cardápio. Anteriormente mencionei que existem vários tipos de
vegetarianismo, este facto está diretamente relacionado com as motivações que
levam as pessoas a esta prática. Podem ser motivos éticos (respeito pela vida
dos animais), a própria saúde, razões ambientais (ecológicas e económicas) ou
por razões espirituais. Independentemente do regime alimentar ou da razão da
opção, o importante é sermos consumidores responsáveis e estarmos conscientes
que a nossa opção alimentar tem consequências devendo ter em conta: um baixo
impacto ambiental, proteger e respeitar a biodiversidade e o ecossistema, ser
sustentável, nutricional e saudável. Daí, devermos dar preferência aos produtos
sazonais, nacionais, de origem vegetal e produção biológica. Assim também
ajudaremos os agricultores e mercados locais e concomitantemente estamos a ser
uteis à economia global.
domingo, 30 de julho de 2017
Capitalismo Global
Império:
“Unidade política que abrange uma vasta
extensão territorial e que integra povos com diferentes culturas sob um único
poder, independentemente da forma de governo”. Nos últimos dois milénios, utilizando a força
e as invasões militares floresceram impérios como o Helénico, Romano,
Bizantino, Otomano entre outros, com um objetivo comum, conquistar terras e ter
um domínio total sobre as suas riquezas e povos. Todos esses impérios eram
personificados por uma grande figura, uma nação ou um sistema político. Assim
sendo, a sua génese estava identificada e, foi possível lutar contra esses
poderes e vencer. O imperialismo para os historiadores foi dado como extinto e,
ao longo das últimas décadas um sistema democrático e a independência das
nações foi-se impondo na generalidade dos países. Mas, subtilmente, surgiu um
novo modelo de domínio, que sem rosto, nação ou sistema politico, cumpre na
integra os objetivos do antigo Império. Tem um especto aparentemente
inofensivo, objetivos altruístas, é atrativo, fascinante, domina as sociedades,
sistemas políticos e nações. O império não acabou, mudou de estratégia. Hoje
não utiliza as invasões militares como antigamente, o atual sistema imperial
cujo nome é: “capitalismo global” faz exatamente o que os antigos impérios
faziam, invade as nações, domina os seus povos e riquezas. Este sistema
conseguiu absorver e comprometer as elites da maior parte dos países, fossem
eles considerados ricos, emergentes ou pobres. Impôs ao mundo um mercado livre
e global, os estados, seus habitantes e as multinacionais começaram a funcionar
em função desse mercado. Criou-se mecanismos que permitiram a transferência de
empresas e empregos dos países desenvolvidos para países onde a mão-de-obra
qualificada e a matéria-prima são mais baratas e com uma baixa carga de
impostos. Tudo vale para fazer riqueza, o império não permite que alguém o
conteste, só no último ano foram assassinados 200 ativistas ambientais, por
contestarem o sistema. Conforme escreveu
Aldous Huxley “A ditadura perfeita terá a aparência de uma democracia, uma
prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga. Um sistema de
escravatura onde graças ao consumo e divertimento, os escravos terão amor à sua
escravidão” É alarmante a nível
ambiental a crescente destruição da biodiversidade e o uso excessivo de
recursos naturais, a nível social, o aumento de desemprego e trabalho precário
nos países desenvolvidos. O capital precisa de transformar continuamente a
natureza em mercadoria para sustentar o seu crescimento, a sua expansão tem de
ter um ritmo sempre crescente para que não caia em crise e haja uma queda das
ações. O consumismo excessivo está a ser introduzido nas populações como uma
droga altamente viciante. O “capitalismo global” a seguir às armas atómicas é a
maior ameaça que o mundo já enfrentou. Cabe a cada um de nós, ter consciência
desta realidade e iniciar a sua luta contra o sistema, não se deixando
manipular e passando esta mensagem tão importante para a salvação do planeta e
da raça humana.
sexta-feira, 5 de maio de 2017
Conversas com o filósofo
Tinha o nome de “Conversas Vadias” e foi um programa
histórico passado na RTP em 1990, onde grandes personalidades do jornalismo
português entrevistaram e debateram vários temas com o Professor, filósofo e
ensaísta português Agostinho da Silva. É meu intuito, através destas breves
palavras escritas, relembrar a existência deste vulto da cultura portuguesa e
quem sabe, aguçar a curiosidade a quem não o conheça e acicatar o descobrir
desta personalidade. Todos os programas de “Conversas Vadias” estão no youtube e podem facilmente ser
visualizadas. Agostinho da Silva, falecido em 1994, foi um homem com uma visão
profética. Desafiava as pessoas s serem aquilo para que nasceram e, não viverem sendo no que a sociedade as tornou. Foi um
critico do actual modelo de ensino por achar que o mesmo cerceava a
criatividade dos alunos e, onde grassavam conteúdos sem interesse prático para
a vida. Defendia que o proliferar da tecnologia iria permitir mais horas livres
para o ser humano, que por sua vez iria viver mais anos e a escola deveria
preparar os alunos para esta nova realidade. Nas suas “Conversas Vadias”
incentivava as pessoas a extraírem algo de positivo mesmo das
situações mais adversas, pois, podia ser que fosse a vida a colocar essas
situações, que ao serem ultrapassadas levariam a uma evolução da pessoa em
questão “ não devemos dizer que a vida é
negativa e ficar presos a essa ideia, mas procurar outras soluções. Podemos ser
uma pedra a recusar o cinzel do escultor que nos quer tornar menos pedra e mais
estátua.” Quando lhe perguntaram; O que é que acontece nas situações em que
não conseguimos ultrapassar essas dificuldades? de pronto respondeu:” Pode ser que a vida seja mais inteligente do
que nós, nos faça sinais, supondo que nós somos tão inteligentes como ela e,
nós depois apresentemos soluções que afinal não são as mais correctas e
pretendidas por ela” O filósofo não gostava de dividir as pessoas entre as
que têm qualidades e as que têm defeitos. “ Em
vez disso deveríamos dizer que as pessoa têm determinadas características,
porque ao longo dos anos temos verificado que muitas vezes do que chamamos
defeitos saíram grandes obras e são as qualidades que muitas vezes às abatem.”
Abordar a obra de Agostinho da Silva pode ser importante incentivo a tudo
questionarmos, desenvolvermos uma opinião própria e não nos deixarmos
manipular. As novas tecnologias de informação estão a ser utilizadas de uma
forma muito agressiva, por vários agentes económicos, políticos e religiosos,
sendo muito importante a capacidade para filtrar toda essa informação,
utilizado somente a parte útil dessa informação. O filósofo, depois das suas
divagações, costumava dizer: “Mas esqueça
tudo isto que lhe estou a dizer, nunca pense por mim, pense sempre por você;
valem mais todos os erros que forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do
que todos os acertos, se eles foram meus e não seus. Se o criador o tivesse
querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas
cabeças também distintas”.Também dizia que : “Os
meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois
da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe
pertence. São meus discípulos, se algum tenho, os que estão contra mim; porque
esses guardam no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais
desejaria transmiti-lhe: a de não se conformarem”. Acabo transcrevendo uma
frase que li algures: “ A mente que se
abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”
quarta-feira, 15 de março de 2017
Evoluindo
Segundo
a Associação Vegetariana Portuguesa, em 2007 existiam em Portugal cerca de
30.000 vegetarianos. Em 2014, a Associação Portuguesa de Medicina
Preventiva anunciou que esse número ascendia a cerca de
200.000. Muitos podem questionar estes números, mas, poucos contestarão a
gestão comercial da McDonald’s,
cuja cadeia de restaurantes em Portugal, lançou um hambúrguer vegetariano,
o McVeggie, composto por quinoa
e vegetais. Ninguém acredita que a maior cadeia mundial de restaurantes de fast food, iria investir
num produto que não tivesse um grande número de consumidores. Esta
pequena introdução vem a propósito dos projetos de lei, que primeiramente
apresentado pelo partido Pessoas Animais e Natureza (PAN) e, posteriormente
pelo Bloco de Esquerda (BE) e Partido Ecologista os
Verdes (PEV), torna obrigatório a inclusão de pelo menos uma opção
vegetariana (que não contenha nenhum produto de origem animal) nos menus de
todas as cantinas públicas e refeitórios do Estado. Esta lei, foi aprovada
no parlamento na passada sexta feira com a abstenção do PSD e CDS e
concordância dos restantes partidos que compõem o hemiciclo. Aguarda
promulgação e a respetiva publicação em Diário da Republica. Prevê-se
que entre em vigor daqui a dois meses. De salientar, que a aprovação da lei,
foi pedida em petição pública por mais de 15 000 pessoas. A Autoridade de
Segurança Alimentar e Económica (ASAE) assegura a fiscalização e o
cumprimento da lei, sendo esta a instituição à qual qualquer cidadão pode
enviar uma queixa. Assim, acabará a discriminação
que existia em relação às pessoas que têm uma opção de vida
vegetariana. Mas, como uma boa notícia nunca vem só, esta semana foi
publicado em Diário da Republica, no dia 3 de março, o novo estatuto
jurídico dos animais. Esta nova lei, largamente noticiada aquando da sua
promulgação pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa,
entra em vigor no próximo dia 1 de maio. O estatuto reconhece os animais
como: “Seres vivos dotados de
sensibilidade e objeto de proteção jurídica”. Esta
legislação vem alterar o anterior código penal, no qual os animais eram
considerados coisas. Estas novas leis, só surpreendem aqueles que não
conhecem a história da evolução das leis em Portugal. O nosso país ao
longo da sua história tem estado na vanguarda das leis que acabaram com
muitas injustiças e desigualdades sociais. Vou mencionar apenas algumas
das que considero mais importantes: Portugal foi o primeiro país no mundo
a inscrever na Constituição a abolição da pena de morte. Já, em 1761
Portugal tinha sido o primeiro país a abolir a escravatura, embora de forma
restrita, pois só abrangia o território Continental e a Índia. Em 1869, foi
aprovada a abolição completa da escravidão no império português. Em 1867, primeiro código civil,
começou em Portugal a evolução dos direitos das mulheres. Em
1889, Portugal já tinha uma mulher médica e, em 1890 é autorizado o acesso
das mulheres aos liceus públicos. Mais recentemente, o ordenamento jurídico
português consagra, em sede de lei Constitucional, Direitos Fundamentais dos
Cidadãos com Deficiência. Esta lei consagra às pessoas portadoras de
deficiência o direito social, designadamente o direito à subsistência
condigna. Também possuímos uma lei de bases do ambiente, bastante
ambiciosa, que defende o direito dos cidadãos a terem um ambiente humano e
ecologicamente equilibrado. Portugal, subscreve na íntegra a declaração sobre
os direitos das pessoas pertencentes a minorias Nacionais ou Étnicas,
Religiosas e Linguísticas. Muitas destas leis que têm sido fundamentais para a
evolução da nossa sociedade, provêm de propostas de pequenos partidos, ações
individuais e movimentos de cidadania. Dai, a importância de não criarmos
bipolarização politica, dispersarmos os votos, darmos oportunidade às várias
correntes de pensamento e, criarmos sinergias que contribuam para uma sociedade
mais equilibrada e solidária.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Rendimento Básico Incondicional
Uber e Volvo juntam-se para
testar carros sem condutor; Ford quer lançar carro sem condutor até 2021; A
partir de agora todos os carros da Tesla são produzidos com tecnologia
necessária para no futuro serem carros sem condutor. Estas são algumas das
notícias produzidas diariamente anunciando avanços tecnológicos. A produção
deste tipo de veículos Inevitavelmente vai provocar desemprego em milhões de
pessoas cuja profissão é conduzir. As empresas que se dedicam à tecnologia estão
a evoluir os robôs. Segundo estudiosos desta área a inteligência artificial provocará
nos próximos anos uma perda líquida superior a cinco milhões de empregos, nos
15 países líderes. Robôs que trabalham sem revindicações, dias inteiros sem
parar, sem férias, sem horas de almoço, sem doenças, são um aliciante para as
grandes empresas. As máquinas deveriam ajudar o humano, diminuindo as horas
laborais humanas e, concomitantemente melhorando as suas condições salariais. Mas,
a ganância humana não permite que assim seja, então a máquina em vez de ajudar
o humano coloca-o no desemprego e sem meios de sustentação. As pessoas não
podem morrer à fome, vai ser preciso arranjar meios de sustentabilidade para
esses milhões que sem emprego, precisam viver com o mínimo de dignidade. Para
colmatar esta situação, surge o chamado Rendimento Básico Incondicional (RBI).
O que é o RBI? O RBI é uma prestação a ser atribuída a cada cidadão,
independentemente da sua situação financeira, familiar ou profissional, que lhe
forneça condições para viver com o mínimo de dignidade. O RBI, não discrimina
ninguém, pois todos o recebem e garante uma autonomia financeira às pessoas com
mais dificuldades. Esta é uma forma de tentar acabar com a pobreza. Assim dito,
parece uma utopia, uma proposta de alienados, pessoas ignorantes e
irresponsáveis. Mas não é assim, é uma proposta que pode ser viável e com estudos
de implementação a serem efetuados em países como a Finlândia e a Noruega. Na Suíça,
embora sendo rejeitado, foi efetuado um referendo sobre a atribuição do RBI a
Suíços e estrangeiros legais no país há pelo menos cinco anos A ideia de um
rendimento mínimo fixo não é nova. Existe um movimento internacional que desde
1986 defende esta ideia. Este tema é destaque em Portugal devido ao partido
Pessoas Animais e Natureza (PAN) defender um estudo para a sua implementação no
nosso país. Segundo o PAN, ao aplicar o RBI iriam desaparecer muitas das
prestações sociais (não contributivas) como o complemento social para idosos,
pensões de invalidez, rendimento social de inserção, desemprego e, poderia ser
atribuído um valor limite para atribuição de reformas, o que permitiria o Estado
poupar milhões de euros. A esta poupança ainda podemos somar uma “poupança
instantânea” em encargos públicos provocados pela pobreza aos sistemas públicos
de saúde. Segundo O PAN, com os valores das declarações de rendimentos totais
de IRS de 2012, que somaram 80 milhões de euros, aplicando metade dessa verba
para o RBI, permitiria dar 435 euros mensais a cada adulto. O PAN ao lançar
este tema para a praça pública, fez despoletar um grande interesse pelos
principais órgãos de informação e deu início a um debate público com
intervenção de algumas das principais personalidades políticas portuguesas.
Este é um tema pertinente, que na minha opinião merece uma reflexão bastante
profunda. Dei o exemplo do ramo automóvel, mas esta evolução tecnológica é
transversal a toda a área comercial, como podemos constatar presentemente nas
self-Checkout, que são a mais recente forma de pagamento nas grandes
superfícies e que dispensam o operador de caixa e, os projectos de construção
dos chamados supermercados “inteligentes”
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
Cassandra
Cassandra era a mais formosa das filhas de Príamo rei de
Tróia. A mitologia grega, através da ilíada, conta que o Deus Apolo concedeu a
Cassandra o dom de predizer o futuro em troca do seu amor por ele. Mas, Cassandra
faltou à sua palavra. Apolo irritado, ordenou que as profecias de Cassandra não
merecessem algum crédito e quem às ouvia acabava ridicularizando as mesmas.
Assim, quando Cassandra previu a destruição de Tróia, ninguém levou a sério, o
mesmo aconteceu quando pediu que destruíssem o famoso cavalo de Tróia e, com a
profecia sobre a morte de Ageamenon. Consideravam-na louca. Como sabemos, essas
profecias acabaram por concretizar-se. Hoje, na psicologia, utiliza- se o
termo: “síndrome ou complexo de Cassandra”, uma metáfora para designar pessoas
que, apesar de falarem verdade, são tidas como mentirosas, ou quando alguém
visando o melhor, avisa e aconselha, mas os seus avisos e conselhos são
ignorados. Fazendo uma analogia e um pouco de ironia, parece-me quea maldição
do Deus Apolo, que ao longo dos séculos tem atingido as mais diversas
intelectualidades da história, hoje atinge fundamentalmente os defensores da
sustentabilidade do planeta e, aqueles que se preocupam com o bem comum e com o
futuro das gerações vindouras. Isto passa-se a nível regional, Nacional e
internacional. Quem não se lembra da famosa palmeira no Porto Santo, várias
pessoas alertaram para a sua perigosidade, foram ignoradas e vítimas de
chacota, a mesma acabou por cair fazendo duas vítimas. Os avisos públicos
feitos pelo geógrafo Raimundo Quintal, para uma possível catástrofe devido ao
estado das ribeiras e zonas adjacentes. O geógrafo foi acusado de profeta da
desgraça, inimigo da Madeira e ridicularizado. Depois o previsto aconteceu e foi
a destruição que se viu. Um recente relatório da ONU aponta a América Latina
como a região mais hostil aos ambientalistas. Por toda a América latina e
Caraíbas, os activistas ambientais são desacreditados, classificados como “
antidesenvolvimento” e, enfrentam os piores obstáculos na sua luta por um mundo
mais sustentável. Em muitos casos a sua cruzada em prol do planeta e dos
direitos humanos tem custado as suas vidas. Entretanto vão-nos chegando
notícias credíveis sobre o estado em que estamos deixando a nossa casa. No
oceano Pacífico existe a maior lixeira do mundo, conhecida nos meandros
científicos pela “ Sopa de plástico”. Estima-se que esta lixeira flutuante seja
composta por cerca de cem milhões de toneladas de lixo. Segundo a ONU, os
resíduos de plástico matam por ano mais de um milão de aves marinhas e mais de
cem mil mamíferos marinhos. A verdade (incómoda) sobre a produção de animais em
serie, para um consumo desmesurado de carne que está dizimando os recursos
naturais do planeta. As florestas estão perdendo a área de um campo de futebol
por segundo, para a criação de pastos para a pecuária, que por sua vez também é
considerada a principal fonte de contaminação de oceanos, rios e aquíferos. O aquecimento global, segundo as últimas notícias está chegando
ao aumento de 1ºC, ou seja, à metade da trajectória para um aquecimento de 2ºC
que é considerado pelos climatologistas como “perigoso”. A enumeração destas
situações continuava mas falta-me espaço. Não sejamos como os troianos, não
passemos a vida a ridicularizar todos aqueles que nos avisam sobre o mal que
estamos a fazer à natureza e, as consequências nefastas que isso ira trazer.
Sejamos seres inteligentes, analisar, reflectir e agir pela nossa consciência.
Não deixemos que a nossa Tróia (planeta) seja destruída.
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
A CASA DOS HÓSPEDES

Adaptado de um poema do mestre Sufi do século Xll: RUMI
O “ser
humano” é uma casa de hóspedes.
Cada manhã
é uma nova visita.
A alegria,
a depressão, a maldade, a falta de
sentido
Aparecem, como
uma visita inesperada.
Devemos
a todos dar as boas vindas e entretê-los
Mesmo que
sejam uma multidão de dores e mágoas
Que
violentamente varram a nossa casa e, levem a mobília
Mesmo
assim, devemos tratar honradamente cada hóspede
Ele pode
estar a purificar-nos
Para que
possamos receber uma nova alegria.
O
pensamento obscuro, a vergonha, a malícia
Devemos recebe-los
à porta rindo
E, convidá-los
para entrarem.
Sejamos
gratos a quem quer que venha
Porque
cada um foi enviado
Como um
guia do além.
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