domingo, 4 de janeiro de 2026

Quem é que eu seria com o anel de Giges?

É comum dizer-se “antigamente havia mais respeito, as pessoas eram mais educadas, mais justas”, isto, referindo-se à sociedade no tempo do Estado Novo. Seria importante refletirmos sobre esta ideia. Na minha opinião, a razão dessa civilidade era o estado ditatorial em que vivíamos, onde o medo dos castigos, alguns deles severos, para quem infringisse as regras, coagia a maior parte das pessoas a cometerem algumas infrações ou desrespeito que fosse visível. Ou seja, as pessoas não eram mais educadas, tinham era mais medo. Três séculos antes da era cristã, Platão nos diálogos filosóficos publicados em” A República”, dedica um capítulo a este tema. Platão para dar o exemplo, narra a história do Anel de Giges. Giges era um pastor, homem muito digno e estimado por todos, que servia através do seu pastoreio, o que era então o rei da Lídia. Um dia, Giges encontrou numa fenda de terra provocada por um terramoto, um esqueleto gigante de um cadáver que só tinha com ele um anel de ouro. Giges retirou o anel do esqueleto e ficou com ele. Nesse dia, Giges foi a uma assembleia de pastores que havia habitualmente para comunicar aos representantes do rei a situação dos seus rebanhos. Estando Giges com o anel no dedo, começou a rodar o anel e notava que quando a pedra do anel ficava para dentro da mão, as pessoas que estavam ao seu lado falavam dele como se ele não estivesse lá, como se fosse invisível. Ao rodar o anel em sentido contrário, as pessoas começavam a falar como se ele estivesse presente. Após várias experiências verificou que efetivamente o anel tinha esse poder de o tornar invisível. No princípio fazia apenas algumas brincadeiras, mas tomando consciência desse facto, sentiu-se com um poder incomensurável, pois podia fazer o que quisesse sem ser visto e sem enfrentar as consequências. Um dia, fez com que ele fosse um dos delegados que iam à presença do rei. Uma vez com esse estatuto seduziu a rainha e com a ajuda dela matou o rei e tomou o seu lugar. Giges, até então, um ser integro e honesto, tornou-se num crápula um facínora. Platão então questiona: porque é que Giges antes era um ser integro? Se cada um de nós pudesse agir sem ser descoberto, seriamos moralmente justos ou cederíamos à corrupção? As pessoas são justas por natureza ou por medo de serem vistas cometendo irregularidades e serem punidas? Se todos tivéssemos um anel de Giges, como seria a sociedade? As leis são o que mantêm a moralidade ou existe uma moralidade inata que nos impede de ser corruptos? Segundo Platão, a verdadeira natureza de uma pessoa revela-se quando não há temor de punição. Um ditado judaico diz: “Não chames honesto a um homem que nunca teve a possibilidade de roubar”. Este pequeno texto, é para que cada um faça uma reflexão, que pessoa seria se tivesse o anel de Giges? E também para servir de incentivo a lerem a “República” de Platão.

Adriano


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Narcisismo

uma das definições de narcisismo é: uma admiração excessiva e mórbida por si próprio, a ponto de se considerar superior aos outros e precisar de admiração constante. Este termo provém diretamente do mito grego de Narciso. Segundo reza o mito, Narciso era um jovem superiormente belo. Narciso sendo filho de uma Ninfa, vivia rodeado dessas Deusas da Natureza. Muitas foram as Ninfas que tentaram obter a atenção de Narciso. Entre elas, destaca-se a ninfa Eco. Eco por ter enganado através de uma longa conversa a Deusa Hera, esposa de Zeus, quando Hera se apercebeu disso, aplicou-lhe um castigo: já que gostas muito de falar, jamais iniciarás uma conversa, só conseguirás repetir as últimas palavras dos outros. (dai a expressão eco para a reflexão de um som). Eco apaixonou-se por Narciso e por várias vezes foi rejeitada. Acometida de uma grande tristeza, Eco retirou-se para as montanhas, isolando-se do mundo, acabou por morrer, os seus ossos transformaram-se em rocha das montanhas, só ficou a sua voz, que ainda nos dias de hoje, quando falamos entre os vales e as montanhas, ouvimos repetindo o que nós dizemos. A morte de Eco e a constante arrogância com que Narciso tratava todas as Ninfas, foram razões para as Ninfas se reunirem com Némesis ( a deusa da justiça e da Vingança) e pedirem uma punição para Narciso. Némesis concordou, o castigo foi Narciso apaixonar-se por alguém que não fosse possível a reciprocidade. Um dia, enquanto caçava, Narciso deparou-se com uma fonte de água, que formava um lago com água muito cristalina, ao debruçar-se para beber um pouco, viu o reflexo do seu rosto na água. Narciso que nunca tinha visto o seu rosto, ao ver aquela imagem tão bela, apaixonou-se. Ficou obcecado por essa pessoa que via na água e tentava tocá-la, abraçá-la e falar com ela, mas não conseguia. Com essa obsessão, Narciso deixou de comer e beber, ficou dias e dias hipnotizado por aquela bela imagem, acabando por morrer na margem do lago. No local onde ele morreu, nasceu uma flor que se chama Narciso (na Madeira mais conhecido por junquilho), que até hoje guarda a sua memória. Contam que após a morte de Narciso, as Ninfas foram ao lago e encontraram o lago a chorar, perguntaram: choras por causa do Narciso? E o lago responde: sim. É porque ele era tão belo?  E a o lago respondeu: ele era belo? Nunca tinha reparado. As Ninfas disseram: Como é que não tinhas visto a sua beleza se ele passava o dia todo a olhar para ti? E o lago respondeu: Eu estou a chorar, porque quando ele estava debruçado em cima de mim eu podia ver a minha beleza no reflexo dos seus olhos. Este mito data do primeiro século depois de Cristo, mas está muito atual. O lago ensina-nos que normalmente quando olhamos para alguém, vemo-nos a nós próprios. Detestamos nos outros, o que temos em nós e não gostamos, e admiramos nos outros aquilo que temos ou gostaríamos de ter connosco. Dai a expressão: “O que não gostas nos outros corrige em ti”. Eco personifica todos aqueles que repetem o que alguém diz, que não têm pensamento próprio. moldando-se às expectativas dos outros, sem encontrar a sua identidade. Ensina-nos a importância de termos a nossa própria voz, e não sermos apenas o eco das vozes dos outros. Narciso alerta-nos para o perigo de queremos amar alguém, que não seja possível a reciprocidade. Um amor platónico, muitas vezes acaba mal. Narciso também retrata a sociedade atual, já conhecida pela sociedade narcisista. A imagem é mais importante que o carácter, cada vez mais, as pessoas só pensam na sua imagem. A vaidade impera, o narcisista flutua entre nós, imponente e imperial, deliciando-se à frete do espelho, passando dias à frente de um écran postando e admirando selfies. É um critico por excelência, não aceira opiniões contrárias. Anda muita gente amando-se e valorizando-se demasiado, sem capacidade de se abrir para amar ou valorizar outra pessoa. Mas tal como Narciso, correm o risco de morrer sós, não na beira de um lago, mas num profundo poço de solidão, e nenhuma flor vai nascer no local onde morrerem. 

Adriano Gonçalves

terça-feira, 17 de junho de 2025

A Ética

 

Na filosofia, ética é o ramo que estuda os valores morais de um grupo ou de um individuo. O ser humano é um ser em constante conflito consigo próprio. Sigmund Freud estudou este fenómeno e dividiu a mente em três elementos: ID, Ego e Superego. O ID é aquilo que nasce connosco e representa o elemento mais primitivo da mente, onde reside o inconsciente e os desejos mais básicos e primitivos. Após o nascimento, começa a desenvolver-se o Ego, que chamados de consciência, aspeto que procura controlar os impulsos do ID de forma a encontrar soluções menos precipitadas, mais realistas e que vão de encontro dos ideais e sejam socialmente aceitáveis. O Superego, é a consciência moral, são as crenças, cultura familiar, componente moral e social da personalidade e age em contraponto com o ID. O Ego, também conhecido como o nosso EU, tenta criar um caminho de equilíbrio entre o ID e o Superego, agindo como “uma pessoa equilibrada”. Conhecemos atitudes éticas que engrandecem a humanidade e outras que pelo contrário envergonham. Passo a citar um caso de ética, ou seja, de um Ego que conseguiu o equilíbrio: Numa corrida de atletismo “corta-mato” realizada em Espanha, Ivan Fernandes, ia em segundo lugar na prova que era liderada pelo campeão olímpico, o queniano Abel Mutai. Quase no final da prova, Mutai que tinha uma grande distância em relação ao segundo classificado, pensando que já tinha cortado a meta parou e, começou a cumprimentar o público. Ivan Fernandes que vinha em segundo lugar, em vez de correr para a meta e ganhar a prova, dirigiu-se a Mutai e gesticulando explicou-lhe que ainda não tinha cortado a meta, o atleta queniano correu os poucos metros que faltavam e venceu. No final da prova os jornalistas perguntaram a Fernandes: porque fizeste isso? E ele respondeu: Isso o quê? Porque deixaste o Abel Mutai ganhar?  Fernandes respondeu: eu não o deixei ganhar, ele ganhou porque foi melhor do que eu. Que mérito é que eu teria se tivesse ganho desta maneira? Se eu estivesse no primeiro lugar do pódio, quando chegasse a casa o que é que eu ia dizer à minha mãe? Falando de ética, esta é uma frase belíssima, porque a nossa mãe é a última pessoa que queremos decepcionar, porque se a pessoa que nos trouxe à vida tiver vergonha de nós, é porque não prestamos. Os problemas morais e éticos são situações que normalmente não envolvem só a pessoa em questão, mas também outras pessoas que podem sofrer consequências das decisões e ações, que muitas vezes até podem afetar uma comunidade inteira. Falta de ética e atitudes que envergonham, são por exemplo: cientistas e governantes que pelo dinheiro fácil, se deixam corromper por grupos organizados com objetivos ou interesses, normalmente nefastos para a humanidade. Escondem estudos que provam os malefícios provocados nas pessoas e no planeta por certas indústrias, e não satisfeitos, em alguns casos, ainda ajudam a promover os respetivos produtos. Eticamente falando, estes corruptores e corrompidos, são as tais pessoas que não podem contar à mãe os seus êxitos, pois ela poderia sentir vergonha de os ter parido.

Adriano Gonçalves

sexta-feira, 13 de junho de 2025

O Mistério


 Falar sobre o mistério da criação e a origem do universo é uma grande ousadia. A curiosidade sobre o início de tudo e a razão da nossa existência é ancestral. É claro que são perguntas irrespondíveis, embora religiosos e cientistas teimem em dar respostas. O clérigo do alto do púlpito e de bíblia na mão, brota sapiência explicando aos fiéis como Deus criou o mundo em seis dias: “No princípio Deus criou o céu e a terra, depois criou a luz e viu que a luz era boa e separou a luz das trevas e chamou dia à luz e à noite trevas”. Fala de como se processou a criação até ao final do sexto dia e também diz que ao sétimo dia Deus descansou. Desse púlpito ecoam longos sermões, onde se explica o que é que o criador pretende da criatura e também se fala do fim do mundo, onde haverá um julgamento em que os bons herdarão uma vida eterna plena de felicidade e os maus serão deitados num lago que arde com fogo e enxofre. O cientista tão bom palestrante como o clérigo, embora sem bíblia, mas com PowerPoint, emana a sua sabedoria pelos auditórios. Para ele, o universo em vez dos seis dias do clérigo, levou biliões de anos a ser criado. Há 13,7 biliões de anos existia um ponto com uma concentração inimaginável de energia, esse ponto explodiu (Big Bang) e deu origem ao universo. Formaram-se as galáxias, as estrelas, os planetas e as luas. O nosso planeta teve origem há cerca de 4,6 biliões de anos. Nele surgiram as moléculas precursoras da vida que se desenvolveram no fundo mar em regiões de água aquecida pela lava de erupções vulcânicas. Ao longo de milhões de anos essas moléculas foram-se desenvolvendo transformaram-se em células e deram origem às várias formas de vida que hoje conhecemos. Umas ficaram no mar e nasceram-lhes barbatanas, outras decidiram voar e nasceram asas, a quem quis ficar pela terra apareceram pernas. Ao contrário do clérigo, para o cientista não haverá final feliz para quem é bom, a galáxia onde vivemos chamada Via láctea, daqui a 4,5 milhões de anos desaparecerá ao colidir com outra galáxia chamada de Andrómeda. Como dizia Ariano Suassuna “é preciso de ter mais fé para acreditar na história das moléculas do que para acreditar na de Adão e Eva”. É claro que clérigos e cientistas não sabem nada sobre como tudo aconteceu e a razão porque existimos. Os cientistas não dizem como é que se criou essa bola que depois explodiu, nem os clérigos dizem o que é que Deus fazia antes de criar o Universo. Também temos a teoria evolucionista que diz que o homem, os chimpanzés e gorilas proveem de um antepassado comum que viveu há mais de seis milhões de anos em algum lugar da Africa. A diferença intelectual do humano para qualquer outra espécie é abismal, e citando novamente Ariano “eu nem falo na Nona Sifónia nem na Divina Comédia para não ofender os macacos”. Não simpatizo com religiões, mas acredito na espiritualidade. Viver sem Deus para mim seria insuportável. Existem fenómenos paranormais como caso de reencarnação das irmãs gêmeas Pollock, estudados pela ciência, e outras situações que me fazem acreditar que somos muito mais que um simples aglomerado de átomos. Ao que tudo criou, chamo Energia Criadora, evito chamar Deus, para não ser confundido com os Deuses Gregos, Egípcios e por aí fora. Não faço questão de saber como tudo surgiu, isso para mim é um mistério. Tento viver o milagre da vida o melhor possível, e todos os dias dou graças a essa Energia Criadora, que me fez nascer nesta bela terra e à boa vida que tem proporcionado.

Adriano Gonçalves

terça-feira, 10 de junho de 2025

Qual é o legado que iremos deixar ?


 Uma dissertação feita por um conhecido filósofo brasileiro, sobre o percurso de vida de um ser humano e o legado que deixa para as gerações vindouras, serviu de mote para este artigo. Nessa oratória o filósofo cita dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, onde a média de consumo diário de sólidos, líquidos e gasosos por parte do um ser humano que é de 1,5Kg. Fazendo algumas contas, quem tiver o privilégio de viver o que a estatística diz sobre a esperança de vida em Portugal, consumirá durante a sua vida cerca de 45 toneladas sólidos, líquidos e gasosos, mas, como o ser humano também é um animal excretor, após a sua morte deixará atrás de si cerca de 45 toneladas de excrementos. A questão que se coloca é: além do consumo de recursos do planeta e das imensas toneladas de excrementos que depositamos, o que é que fizemos de útil durante o nosso tempo de vida? Ou será que a nossa vida foi fútil, banal e inútil. Qual é o sentido da vida? Poderá ser simplesmente aperfeiçoarmos mecanismos de sobrevivência, vivendo da melhor forma possível, mas isso é o que também fazem os chamados animais irracionais. O Ser Humano teve a sorte, ou o azar, de possuir algo a que chamamos de consciência, devido a isso, só sobreviver vivendo bem sem olhar a meios, não chega. A nossa mente acaba sempre por nos questionar sobre a razão por que existimos. Embora a nossa existência seja involuntária, simplesmente existimos, pois, a mesma dependeu mais da vontade dos nossos progenitores do que de nós, algo nos impele a escolher um propósito que dê um significado a essa existência. Podemos pensar que a vida é uma festa e que estamos cá só para nos divertirmos, que tudo acaba com a nossa morte e, como dizia o antigo slogan a vida é: “sexo, drogas e rock and rol”. Também podemos acreditar, na reencarnação, na ressurreição, acreditar que a vida é uma escola para o nosso desenvolvimento espiritual, que é se relacionar com a realidade de acordo com o que a realidade é, que é ajudar o mundo à nossa volta, desejar a felicidade do outro e sentir que a felicidade do outro é importante para nós. O sentido da vida é um campo muito vasto a explorar, as religiões, correntes filosóficas e políticas, grupos ateístas, dão várias perspetivas sobre o assunto e arrastam multidões para os seus objetivos coletivos. Há quem acredite que o objetivo da vida é a felicidade e que essa felicidade não é encontrada em bens materiais, nem nas outras pessoas, depende única e exclusivamente de um bem-estar interior e de uma ligação do nosso interior à energia criadora de tudo o que existe. Muitos são aqueles que têm contribuído para a existência de um mundo melhor, seja através de descobertas científicas, ou simplesmente prestando auxílio a alguém que precise de ajuda. Independentemente daquilo em que se acredite o importante é que a nossa passagem por este planeta não tenha só servido para consumir alguns dos seus recursos e depositar algumas toneladas de excrementos.

Adriano Gonçalves

terça-feira, 3 de junho de 2025

Poesia


“A Criança de fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim a ser quem sou; mas hoje, vendo que o que sou é nada, Quero ir buscar quem fui onde ficou”.

Fernando Pessoa

 

 Escrever sobre poesia, e sobre a crença que um dia o Mundo será um lugar de paz, amor e fraternidade, conhecendo o percurso conflituoso da humanidade, até parece ironia. Santo Agostinho, dizia que o mal não tinha origem em si mesmo, o que existia era a ausência de bem, e à ausência de bem, deu-se o nome de mal. Eu acredito na transformação gradual da humanidade, até ao ponto em que tudo e todos, um dia viverão em harmonia. Acredito que a humanidade evoluirá em conhecimento, de tal maneira que implementará no mundo uma forma de vida, onde a ausência de bem será insignificante. Acreditando nestes pressupostos, não poderei desassociar do caminho a percorrer, a filosofia, a democracia e a poesia. A filosofia porque é a busca incessante da sabedoria, a democracia porque permite o debate livre das ideias, a poesia, que por ser a voz da alma e aquela que melhor exprime o sentimento humano. O Poeta é um sonhador, um idealista, um criativo. Agostinho da Silva dizia: “todo o homem nasce poeta e deveria viver de tal maneira e proceder de tal forma que um dia quando morresse, se pudesse dizer: morreu um poema”. A poesia brota do âmago e expressa os sentimentos, vai a lugares nunca vistos, mergulha no irreal e torna-o realidade. O pensamento poético é uma criação divina, que usa o poeta para se manifestar. A poesia não deve ser reprimida nem envergonhada. Como escreveu Ary dos Santos: “Serei tudo o que disserem! Poeta castrado, não!”. O que é ser poeta? Para F. Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”. Para F.B. Espanca:” Ser poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens”. Ser poeta é viver sendo aquilo que se quer ser, é lembrar aos homens que todos são uma exceção, que não há alguém no mundo que seja igual, nem física ,nem emocionalmente, e que tudo deveria ser uma exceção adaptada à excecionalidade que cada ser é. Ser poeta é lembrar aos homens que todos podem ser felizes, cada um fazendo aquilo que mais gosta, que o amor é capaz de acabar com qualquer tipo de mal. Ser poeta é acreditar na “Ilha dos amores “de Camões, no “Quinto Império” de Vieira, em Isaías 11:6-9 onde se pode ler que a paz se estende para toda a terra, sem conflitos nem maldade, na “ Sétima idade” de Fernão Lopes. Ser poeta é ensinar aos homens” A Pedra Filosofal” de Gedeão “…o sonho é uma constante da vida, tão concreta e definida, como outra coisa qualquer ..… o sonho comanda a vida…”. Todo o homem nasce poeta, mas a maior parte está hipnotizada por um género de encantador de serpentes, que os mantém amordaçados, uns com o olhar fixo na sobrevivência, outros com o olhar fixo na gula e na luxúria. Mas o pensamento poético um dia irá sobrepor-se a tudo e conduzirá o homem à fraternidade. P. Neruda escreveu: “… quero viver num mundo em que os seres sejam simplesmente humanos, sem mais títulos além desse. Sem trazer na cabeça uma regra, uma palavra rígida, um rótulo.” Eu sei que sou um ser quimérico e tal qual C. Lispector “Não quero a terrível limitação do que vive apenas do que é possível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada”. Ou como E. Galeano explicou a utopia, dizendo que ela estava lá no horizonte e, que sempre que caminhava em sua direção ela afastava-se, ele continuava a caminhar em sua direção e ela sempre se afastando, acaba concluindo: A utopia serve para isso mesmo, para eu não deixar de caminhar. Sonhemos sempre e sejamos o poema para que fomos criados.

Adriano Gonçalves 

quarta-feira, 30 de abril de 2025

1º Princípio do Hermetismo - O Mentalismo


 O Hermetismo, é uma doutrina filosófica e isotérica e tem por base sete princípios, que quando bem interpretados podem mudar o sentido da nossa vida. O seu primeiro Princípio é o Mentalismo, que diz:” O Todo é Mente o Universo é Mental”.  Ou seja, tudo ocorre no plano mental, e só depois no plano físico. Este princípio, defende que tudo existe dentro de uma grande Mente que é o Todo. Por detrás de tudo o que existe há sempre um pensamento criador. Todos os objetos materiais que conhecemos, antes de existirem foram pensados. O Mundo que vivemos é a concretização de pensamentos, uma simples folha de papel, um lápis, um carro, seja o que for, não existe sem ter passado primeiro por um pensamento. A ciência descobriu que existem umas partículas indivisíveis a que deu o nome de fundamentais ou elementares, que são tipo uns “tijolos” que constroem tudo o que há no Universo, as estrelas, planetas, células, átomos, a própria luz e nós mesmos, tudo é construído a partir destas partículas. Ou seja, nós somos formados com a mesma base de matéria de tudo o que existe no universo. A formação do ser humano, visto de forma muito simplicista, podemos dizer que essas partículas elementares formam átomos, que por sua vez formam moléculas, e essas moléculas formam os tecidos e os órgãos que constroem aquilo que somos. Mas, aqui acaba a ciência de tudo o que é físico, visível e mensurável nos laboratórios, e entramos na área do misticismo. Eu, recuso-me a ser simplesmente um aglomerado de átomos e moléculas, com um único propósito que é o da sobrevivência e perpetuação da espécie, ou citando F. Pessoa, simplesmente “um cadáver adiado que procria”. Creio que somos seres espirituais, habitando um mundo físico, fazendo parte de um plano superior. O que ensina o Mentalismo? Ensina que a matéria está submissa à mente e não a mente à matéria. A nossa vida, a nossa realidade, é puro pensamento, o que nós concretizamos na nossa vida é proveniente dos pensamentos que conseguimos realizar. Somos o que pensamos, o que somos surge com os nossos pensamentos e com os nossos pensamentos fazemos o nosso Mundo. Até o facto de amamos alguém, o que amamos é o pensamento que fazemos da pessoa, pois se deixarmos de gostar dessa pessoa e até a odiarmos, a pessoa continua a ser a mesma, o que mudou foi o pensamento que fazíamos dela. Platão na Teoria das Ideias diz: “Para que exista algo manifesto na realidade, algo físico, é preciso que primeiro tenha sido planeado (…)”. Nós somos o resultado de uma energia criadora e informação atuando no plano físico. O princípio do Mentalismo, diz-nos que tudo se inicia na mente, ensina-nos a importância de criarmos um ambiente mental positivo. William James o pai da psicologia moderna tinha uma frase que dizia: “Um passarinho não canta porque está feliz, ele está feliz porque canta” Marco Aurélio um dos maiores do Estoicismo, disse: “As coisas que pensamos determinam a qualidade da nossa mente, a nossa alma assume a cor dos nossos pensamentos”.  F. Pessoa escreveu “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” .É claro que pensamentos negativos brotam instintivamente na nossa mente, mas se imaginarmos a nossa mente como um jardim e os pensamentos negativos como as ervas daninhas, temos de fazer o que fazemos no jardim, arrancar as ervas daninhas antes que sufoquem as flores que tanto gostamos Ao acordar criarmos uma predisposição positiva, dizermos: hoje vou cumprir com os meus objetivos, hoje vou me sentir feliz, não quer dizer que por pensarmos  assim que tudo vai correr bem, por essa razão, também é importante estarmos preparados mentalmente para ultrapassar uma qualquer vicissitude que possa aparecer e criarmos uma mente resiliente . O Mentalismo ensina que todos fazemos parte da mesma Mente Criadora e somos uma consciência se experienciando na busca de um desenvolvimento espiritual. Tudo é frequência, energia e vibração, somos seres espirituais habitando um mundo físico. A nossa forma de pensar influi positiva ou negativamente a nossa saúde, a forma como vivemos, a relação com as outras pessoas, com a natureza e com os outros seres sencientes.


Adriano Gonçalves

segunda-feira, 31 de março de 2025

Memórias 1: A SOLIDÃO EXISTE, EU JÁ A VI

Do tempo em que os envelopes, carregando cartas, fotos e postais, eram o meio de comunicação mais utilizado entre as pessoas separadas por longas distâncias, guardo com especial carinho uma foto enviada pelo meu pai à minha mãe, com a seguinte inscrição no verso:” ofereço esta foto à minha querida noiva, em prova de eterna amizade e como lembrança de um ano e meio de ausência. Lisboa 26 de setembro de 1943.Teu estimado noivo Álvaro Gonçalves”. Olhando a foto, nota-se o quanto ele e o fotografo capricharam para o momento. O nó da gravata exemplarmente centrado (aliás, como foi sempre seu apanágio), bigode e cabelo aparados ao milímetro, o rigor da indumentária, com uma ligeira subida da manga esquerda para dar visibilidade ao relógio. Com um rosto bonito, a foto a preto e branco, mais parecendo um retrato em sépia, não deixa ver o azul-claro dos seus olhos, mas dá-lhe um ar de galã vintage de Hollywood. O meu pai nascido a 31 de março de 1921na ilha da Madeira, tinha à data 22 anos, e encontrava-se a prestar serviço militar em Lisboa. Era o período da segunda grande guerra, e embora Portugal não tivesse uma participação ativa na guerra, o país encontrava-se em prevenção militar. Dezoito anos depois do meu pai ter enviado esta foto à minha mãe, nasci eu. Fui o terceiro de três filhos. O primeiro morreu em bebé, supostamente devido a uma queda, que não foi informada pela cuidadora (talvez por pensar que não era grave), e o segundo, era quase treze anos mais velho do que eu. A razão para eu ter nascido e segundo os meus pais, foi que a minha mãe com 37 anos e o meu pai com 40, quiseram ter mais um filho para que no avançar da idade lhes fizesse companhia. A ideia do meu pai desde o nascimento do primeiro filho, era ter uma filha, pois segundo ele, uma filha era muito mais amiga dos pais do que um filho. Nós temos a linha que tece a vida, mas como não controlamos a agulha, nasci eu, para a deceção do meu pai, mais um menino. Tive um nascimento atribulado e uma primeira infância de demasiada rebeldia, para não utilizar outros adjetivos mais fortes. Os meus pais nunca se esqueciam de me lembrar a razão pela qual eu tinha nascido; fazer-lhes companhia na velhice. A minha mãe costumava chamar-me de: “a minha companhia”. O meu pai tinha horror a lares da terceira idade, de vez em quando perguntava-me: Quando eu e a tua mãe formos velhinhos, não nos vai meter num lar de idosos?  Ao que eu respondia sempre: é claro que não. Promessa essa, que pelas circunstâncias da vida não consegui cumprir com o meu pai. Com a minha mãe, que morreu alguns anos antes do meu pai ter falecido, consegui cumprir a promessa, sendo sua companhia até o dia da sua morte. O meu pai nunca foi uma pessoa de demonstrar os seus sentimentos, pelo que nunca vou saber o quanto ele gostava de mim. O meu relacionamento com o meu pai foi mais ou menos isto: primeiro tinha medo dele, depois passei a ter respeito, a seguir comecei a admirá-lo e acabei amando este homem, que tanto fez por mim. Fomos colegas trabalho, onde ele era o meu chefe, fato esse, que me exigia o máximo de dedicação, para não parecer ser privilegiado pela situação. Habituei-me a ver o meu pai um homem forte e cheio de energia, talvez por isso, custou-me muito ver o lento declínio da sua vida. Completamente quebrado, dei-lhe banho, mudei-lhe fraldas, algumas vezes dei-lhe comer na boca, quase que passou de meu pai a meu filho. Depois, aconteceu o inevitável, a entrada num lar da terceira idade. No princípio correu da melhor forma, o lar era excelente, ele fez uma boa recuperação, tornando-se quase autónomo nas suas atividades básicas. A partir de certa altura, notei que começou a ficar desmotivado, surgiram alguns problemas de saúde e depois a morte. Um dia, numa das minhas visitas ao lar, encontrei o meu pai diferente. Quanta tristeza havia nele! O azul brilhante dos seus olhos, tornara-se baço. Tinha um olhar fixo num ponto longínquo, que parecia desligar a mente do presente, para poder calcorrear toda a história de uma vida passada. Nesse dia, vi a solidão nos olhos do meu pai. Eu sabia que a solidão existia, não fazia bem a ideia do que era, nunca lhe tinha prestado a devida atenção. Mas, quando vi a solidão nos olhos do meu pai, não sei como explicar, só sei que nunca vou esquecer essa imagem. Senti uma mágoa enorme, comecei a falhar-lhe do passado, se ele se lembrava como é que fazia para eu adormecer, do presépio que tínhamos construído juntos e veio-me as lágrimas aos olhos. Ele olhou para mim e disse-me: “não chores porque assim eu também acabo por chorar”. A nossa conversa acabou com ele a dizer-me “tudo passa”. Sim, eu vi a solidão nos olhos do meu pai, vi uns olhos que não encontravam um sentido para viver. Fiquei com medo, um medo que me persegue, o medo da solidão. Shakespeare num dos seus poemas escreveu “Eis o que torna o amor mais forte: Amar quem está tão próximo da morte”. Escrevo este texto, porque sei que o esquecimento é o destino mais previsível de qualquer memória e a melhor forma de isso não acontecer é utilizando a escrita. Assim fica o registo, para nunca me esquecer que a solidão existe, e uma forma de expiação, por não ter conseguido cumprir a promessa que desde muito pequeno tinha feito ao meu pai” nunca o enviar para um lar de idosos”.. A terminar, uma frase atribuída a Raquel Queiróz “A gente nasce e morre só, e talvez por isso mesmo é que se precisa de viver acompanhado”.

Adriano Gonçalves

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Filme Lucy

No filme de ficção Lucy, numa preleção e baseando-se no mito de que o ser humano só utiliza cerca de 10% da sua capacidade cerebral, o professor Norman (interpretado por Morgan Freeman) salienta o caso do único ser vivo que usa o cérebro melhor do que o ser humano, o golfinho. Diz o professor Norman que: “estima-se que esse incrível animal use até 20% da sua capacidade cerebral, isso permite que ele tenha um sistema de ecolocalização mais eficiente do que qualquer sonar inventado pelo homem. Mas o golfinho não inventou o sonar, ele o desenvolveu naturalmente, essa é a parte crucial da nossa reflexão filosófica, poderíamos então concluir que: os humanos estão mais preocupados em ter do que ser”. Eu penso que não devemos desassociar o ter do ser, mas é importante o equilíbrio entre estes dois vetores. Vivemos numa sociedade de consumismo, promovida de forma agressiva pela comunicação social. As pessoas são avaliadas muito mais pelo que têm do que pelo que são, concomitantemente, isso cria um vazio existencial. Para preencher esse vazio, a propaganda consumista induz-nos a comprar coisas, muitas delas desnecessárias. Os últimos modelos de telemóvel, tablet, televisão, computador e uma infinidade de gadgets, sempre com inovações que nos tornam incompletos se não os possuímos. Quem leu “A Cidade e As Serras” de Eça de Queiroz, vê lá tudo isto bem explanado. Tal como no romance de Eça, o vazio nunca é preenchido, exatamente porque o vazio não existe, é uma criação da mente racional, uma ilusão que rapidamente passa. O homem, a natureza e o Universo são só um, dividimos parte do DNA com plantas e animais, todos somos feitos de átomos, e do que temos conhecimento, tudo o que existe no Universo é feito do mesmo material, a falta de compreensão destes aspetos é o que provoca o vazio. O estilo de vida que vivemos com fabulosos avanços tecnológicos, tem atrasado o desenvolvimento das nossas capacidades intrínsecas, coisas que poderíamos fazer sem dificuldade com os nossos meios naturais, hoje dependemos de tecnologia para executar esses procedimentos. O filme de ficção Lucy, tenta que façamos uma reflexão sobre o que aconteceria se conseguíssemos usar 100% do nosso cérebro, se um dia pudéssemos atingir o nível de compreensão que a Lucy atingiu através da droga. Para entendermos melhor o filme, é importante sabermos que Lucy foi o nome dado ao fóssil fêmea descoberto em 1974, e que é o fóssil mais antigo visto até hoje, 3,2 milhões de anos. A título de curiosidade este nome foi dado em homenagem à música dos Beatles “Lucy in the Sky With Diamonds”. Para melhor compreensão desta obra também facilita termos breves noções sobre Kant, Schopenhauer, Einstein e física quântica. Analisando o conteúdo do filme e se acreditarmos que somos feitos de átomos organizados e imaginarmos esses átomos colocados tipo legos, é fácil perceber que se através da nossa capacidade mental conseguirmos alterar a organização dos átomos, podemos nos transformar em outras coisas. A física quântica prova que nada é sólido, tudo é energia e informação. O nosso cérebro é ainda um universo por explorar, e se o utilizarmos em equilíbrio entre o desenvolvimento pessoal e o tecnológico, daremos um grande passo na nossa evolução. Neste filme tal como em Matrix1, temos de nos aliar dos tiros e das peripécias e nos concentrarmos na mensagem filosófica. Termino com uma frase do Millôr Fernandes, que faço questão de não esquecer “É importante ter, sem que o ter te tenha” esta frase alerta-me constantemente para manter o meu equilíbrio entre a mente o espírito e os bens materiais, percebendo que os bens materiais têm valor, mas não devem dominar a minha vida.

 Adriano Gonçalves

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

O Mito dos Cavalos Alados

 

Vou escrever um pouco sobre a natureza da alma, dentro do contexto do diálogo platónico Fedro. Platão na sua obra Fedro, descreve um diálogo que houve entre Sócrates e Fedro. Embora os temas debatidos neste diálogo sejam essencialmente o amor e a retórica, vou-me cingir apenas à questão da alma, abordada também nesta obra através do conhecido Mito da Parelha Alada. Nesta alegoria, Platão faz uma reflexão sobre o que é a alma e qual a sua natureza. A primeira ideia é que a alma é imortal e indestrutível, transcende à matéria, não nasce nem morre, porque a alma é o princípio de tudo e como é um princípio não pode ser gerado, senão deixa de ser um princípio. A segunda opinião é sobre o dualismo, para tudo o que existe há sempre um oposto. Na abordagem da alma, existe o mundo sensível que é o mundo que observamos através dos cinco sentidos, e o seu oposto é o mundo das ideias (céu) constituído de coisas não observáveis, onde existe tudo o que nós conhecemos, mas de forma imaterial, imutável e perfeita. O mundo sensível é uma cópia imperfeita (por vezes demasiado imperfeita) do original que existe no mundo das ideias. Entre esses dois mundos existe um espaço onde andam as almas dos Deuses que são aquelas que já atingiram a perfeição e as outras que ainda estão a passar por provações para evoluir. Das que ainda estão a passar por provações, muitas vão encarnar num corpo humano. Platão escreveu que o seu mestre Sócrates, para melhor explicar a Fedro o seu pensamento sobre alma e como é que a consciência humana pode lidar com os elementos que a constituem, criou o Mito dos Cavalos Alados. O Mito divide a alma em três partes e começa a ser explicado da seguinte maneira: a alma pode ser comparada com uma parelha alada, constituída por uma biga (carruagem)com dois cavalos alados (cavalos voadores) conduzida por um Auriga (cocheiro). O Auriga é a parte que representa o intelecto, a razão, sendo ele que controla e tenta harmonizar os dois cavalos. As outras duas partes são representadas pelos cavalos, sendo que um cavalo é o bom e representa o impulso racional da alma, a parte positiva da paixão, e o outro é o cavalo mau, que representa a parte instintiva da alma, ou seja, a parte das paixões e dos desejos irracionais. Ambos os cavalos têm uma coisa em comum, amam as coisas belas. O cavalo bom é branco e belo é amigo da opinião certa não precisa de ser esporeado pois basta para o fazer trotar uma palavra de comando ou de encorajamento, ele olha para o mundo das ideias (céu) comtemplando toda a beleza que lá existe. O cavalo mau tem um aspeto feio, é amigo da soberba e da lascívia, não obedece a ordens e a muito custo obedeceu, depois de castigado com açoites, fica olhando para baixo contemplando as belezas terrenas, e ao contrário do cavalo bom que se contenta em contemplar, tenta possuir tudo o que é belo, foçando a carruagem para baixo. para o mundo material. E assim anda a alma a vagar pelo espaço, e o cocheiro a tentar equilibrar uma carruagem com dois cavalos que querem estar em lugares diferentes. Nesta indecisão a carruagem por vezes fica descontrolada e cai na terra, os cavalos perdem as asas e a alma fica habitando um corpo para passar pela experiência dos sentidos. Este é o sinal de que o cavalo mau venceu. Todos os que habitamos a terra pertencemos às almas em que a parte má da alma venceu. As nossas Asas que estão partidas vão ter de voltar a crescer para voltar a voar e levar a alma novamente para a luminosidade. Para que as asas voltem a crescer os cavalos têm de ser bem alimentados e os bons alimentos segundo Platão, são a beleza, a sabedoria a justiça e as virtudes. Para isso o cocheiro tem de ser mais habilidoso para conseguir harmonizar os dois cavalos, uma vez que não podemos negar nenhum deles, pois os dois são necessários, só que têm de estar em harmonia e bem alimentados. O problema é que são muitos os incentivos para o mau alimento, é muito o lixo que entra na nossa mente das mais variadas formas e isso impede a nossa evolução espiritual. Muitos de nós vão precisar de muitas reencarnações até que as asas cresçam e a alma possa voltar a voar. Constantemente sou puxado violentamente pelo cavalo mau e por vezes continuo a ser um mau cocheiro e não o consigo controlar os cavalos e a minha carruagem (minha vida) vai no rumo errado. Mas o facto de conhecer este mito tem-me ajudado a refletir e nos momentos menos bons, digo sempre para mim mesmo, lá está o cavalo mau a dominar e isso permite-me ir em busca do equilíbrio. Se alguém ao ler esta minha divagação sinta a curiosidade de explorar este mito e o ajudar a conhecer-se melhor, valeu a pena mais esta divulgação. Mas se ninguém ler, também valeu a pena, porque enquanto o escrevia fiz várias reflexões positivas para mim mesmo.

Adriano


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024


 

Continuando a ler O POETA

Publico pequenos retalhos de alguns escritos de Fernando Pessoa. São pérolas que o pensamento brota. Embora eu escreva para mim, fico feliz se alguém tropeçar neste blogue e ao ler um pouco do que transcrevi, desperte a curiosidade para explorar o poeta mais profundamente.

      

E                                            Exerto1

 E                            

Sou um guardador de rebanhos, o rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos, e com as mãos e os pés, e com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la, e comer um fruto é saber-lhe o sentido. Por isso quando num dia de calor me sinto triste de gozá-lo tanto, e me deito ao comprido na erva, e fecho os olhos quentes, sinto todo o meu corpo deitado na realidade, sei a verdade e sou feliz.

Exerto2

Se eu pudesse trincar a terra toda e sentir-lhe um paladar, e se a terra fosse uma coisa para trincar, seria mais feliz um momento…Mas eu nem sempre quero ser feliz, é preciso de vez em quando ser infeliz, para se  poder ser natural…Nem tudo é dias de sol, e a chuva, quando falta muito, pede-se. Por isso tomo a infelicidade com a Felicidade, naturalmente, como quem não estranha que haja montanhas e planícies, e que haja rochedos e erva.

Exerto3

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!

Exerto4

Adoramos a perfeição porque a não podemos ter, repugná-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.

Exeerto5

Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em querer ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

A Sabedoria do Poeta

Ler Fernando Pessoa ajuda-nos a perceber a vida. Publico pequenos excertos de alguns dos seus poemas que me têm ajudado a refinar o meu modo de pensar. Alterei a estrutura da escrita poética para diminuir o tamanho do texto. São mensagens com muita metafísica e que exigem uma profunda reflexão em cada frase. Não vou comentar a minha análise sobre cada excerto, porque como diz a frase: "Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação".

 

Excerto 1

 

Da minha aldeia vejo o quanto se pode ver o Universo. Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura. Nas cidades a vida é mais pequena que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Nas cidades as grandes casas fecham a vista à chave, escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu. Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos podem dar e tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

 

Excerto2

 

Para além da curva da estrada talvez haja um poço e talvez haja um castelo, ou talvez apenas a continuação da estrada. Não sei nem pergunto. Enquanto vou na estrada antes da curva só olho para a estrada antes da curva, porque não posso ver senão a estrada antes da curva. De nada me serviria estar olhando para outro lado e para aquilo que não vejo. importemo-nos apenas com o lugar onde estamos, há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. Se há alguém para além da curva da estrada, esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada, essa é que é a estrada para eles. Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. Por ora só sabemos que lá não estamos. Aqui há a estrada antes da curva e antes da curva há a estrada sem curva nenhuma.

 

Excerto3

 

Quando vier a primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira e as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria e a primavera era depois de amanhã, morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir se não no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo, e gosto porque assim seria mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente, porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

O 7º Princípio Hermético - Género

O Princípio do Género é sétimo e último grande Princípio do Hermetismo. O seu axioma diz o seguinte:” O Género está em tudo; tudo tem o Princípio Masculino e Feminino; o Género manifesta-se em todos os planos”. Vou dissertar um pouco sobre o Princípio do Género, baseando-me fundamentalmente no livro “O Caibalion, Três Iniciados” e nos vídeos da professora Helena Galvão da escola de filosofia Nova Acrópole. O Princípio do género é derivado do Princípio da Polaridade, os Géneros são dois opostos em que a falta de um evidencia o outro. A função deste Princípio é criar, produzir e gerar. As suas manifestações são visíveis em todos os planos e fenómenos. Nenhuma criação, seja física, mental ou espiritual, é possível sem a participação deste Princípio. Nada pode ser criado sem a aliança entre elementos Femininos e Masculinos. Todas as coisas e todas as pessoas contêm em si estes dois elementos. Todas as coisas Masculinas têm igualmente o elemento Feminino; todas as coisas Femininas têm o Elemento Masculino. É importante realçar que este Princípio é muitas vezes utilizado de forma deturpada para justificações de práticas perniciosas e degradantes de índole sexual, o que contraria completamente a filosofia Hermética. Embora o Género se apresente no plano físico através do sexo Masculino e Feminino, o seu alcance é muito mais do que isso. O Género Feminino é a energia Yin que está contida em tudo o que existe. No planeta é caracterizado pelo lado oriental e no humano está ligado à fertilidade, recetividade, conceção de ideias, criatividade e intuição. O Género Masculino é a energia Yang, também está contida em tudo o que existe. No planeta representa o lado ocidental e no humano expressa-se pela lógica, poder racional, força motriz e instinto de proteção. Neste pequeno trecho apenas vou abordar o Principio do Género na parte mental onde constatamos que na nossa mente existe o Género Masculino e o Género Feminino e que se queremos criar algo que possamos chamar de nosso, temos de obrigatoriamente utilizar os dois Géneros na sua elaboração. Então vejamos, na nossa mente o Princípio Feminino é quem gera novos pensamentos, conceitos e ideias, incluindo a obra da imaginação. O Princípio Masculino simplesmente vai potenciar esse trabalho nas suas várias fases. Contudo, sem a ajuda ativa da vontade do Princípio Masculino, o Princípio Feminino corre o risco de gerar apenas imagens mentais resultantes de impressões recebidas de fora, em vez de produzir criações mentais originais. É muito difícil sabermos se uma ideia que temos é originalmente nossa ou uma criação proveniente da projeção das massas ou de alguém que subtilmente a colocou na nossa mente. Dando o exemplo da ave conhecida como cuco, esta ave tem por hábito ir ao ninho de outras aves retirar os ovos desses pássaros e colocar lá os seus para sejam esses pássaros a chocar os seus ovos. Assim, os outros pássaros chocam os ovos do cuco e tratam os filhotes pensando que são seus. Fazendo uma analogia com os ovos do cuco, é o que pode acontecer com a criação de ideias na mente humana. Uma ideia surge na nossa mente e nós começamos a trabalhá-la, alimentá-la, desenvolvendo-a e tal como o pássaro que criou os filhos do cuco e pensa que são seus, nós também pensamos que essa ideia é nossa, mas pode não ser. Quando alguém nos diz: Cuidado que essa pessoa é um mau caráter. A tendência é ficarmos logo com a ideia de que a pessoa referida não é de confiança. Se não analisarmos por nós mesmos o comportamento da pessoa em questão, vamos pensar que a opinião que temos sobre essa pessoa é nossa e provavelmente até à vamos divulgar. Este, é um pequeno exemplo do quanto pode ser desagradável não criarmos ideias próprias. Que a nossa mente não seja um ninho para alimentar as ideias dos outros, mas um útero para fecundarmos as nossas reflexões e gerar ideias próprias. Mas não esquecer que para conceber uma ideia original será sempre necessário recorrer ao Princípio do Género mental, Masculino e Feminino.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

O 6º Princípio Hermético - Causalidade

No dicionário de português encontramos a seguinte definição para a palavra causalidade: 1. A influência da causa sobre o efeito; 2. Modo de operar de uma causa. O Princípio da Causalidade é o sexto grande Princípio Hermético e diz o seguinte: “Toda a causa tem o seu efeito; todo o efeito tem a sua causa; tudo acontece de acordo com a lei; acaso é apenas o nome dado a uma lei não reconhecida”. Se falarmos de física e da terceira lei de Newton conhecida pela lei da Ação Reação, que afirma que a toda a ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto, é fácil de concordar, pois conseguimos corroborar esta situação na prática. Mas quando falamos da lei Hermética da Causalidade ou Causa e Efeito, estando esta relacionada com a Metafisica, logo despoleta controvérsia. Esta lei Hermética responsabiliza cada indivíduo pelas suas ações, lembrando que tudo acontece de acordo com a Lei Universal que diz que para cada ação gerada haverá sempre um efeito correspondente. A Causa é quem produz o Efeito já que o Efeito não se cria a si só, ou seja, nada acontece sem explicação.Acaso é meramente uma expressão respeitante a algo que não compreendemos. Este Princípio incentiva a agir sobre a causa e não sobre o efeito, possibilitando assim um maior domínio sobre os sentidos. Só há um destino para a humanidade que é o seu desenvolvimento intelectual, moral e por consequência espiritual. Por esta razão a “Causa” pode não estar relacionada só com o momento presente, mas com situações vivenciadas em vidas passadas. O espírito carrega sempre consigo as boas e más ações efetuadas enquanto encarnado, sendo o Princípio de Causa e Efeito um método de educação Divina que dá a conhecer o que os nossos atos produziram de efeito. Isto não quer dizer que existe um destino predeterminado, pois apesar de nada poder escapar à lei da Causa e Efeito, o que em certas filosofias e religiões é conhecido pelo Karma, o Hermetismo vem alertar que através do domínio da mente podemos ser agentes causadores motivacionais da nossa força de vontade e através das nossas ações é nos dada a possibilidade de corrigir as nossas imperfeições. Nascer num país do terceiro mundo, sem água, sem alimentos, sem hipóteses de sair da miséria,nascer com doenças graves com origem no fator genético, viver num País que entrou em guerra, é claro que não é possivel alterar esta situação de sofrimento só através da nossa mente, mas aqueles que podem ajudar os que vivem na miséria e não ajudam, os que podem cuidar daqueles que têm doenças graves e não cuidam, os que promovem as guerras,estão sujeitos à Lei Universal, nesta ou em futuras encarnações os seus espíritos terão que se depurar.Ninguém sai dos vários ciclos de vida sem aprender devidamente a lição. Provavelmente ao nascermos temos um determinado desígnio de vida a cumprir, mas para muitos de nós existe a possibilidade de escolher o caminho a seguir e até podemos seguir um caminho contrário ao que nos estava destinado. Mas somos nós que temos de tomar essa decisão e somos nós que viveremos com as consequências de cada ação e decisão que tomemos na nossa vida. Esta lei acaba por nos mostrar o resultado daquilo que vivemos, pensamos e sentimos.

terça-feira, 19 de abril de 2022

O 5º Princípio Hermético - Ritmo

O quinto Princípio Hermético é o Princípio do Ritmo e tem o seguinte axioma: “Tudo tem fluxo; tudo tem as suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é igual a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação”. O Princípio do Ritmo está umbilicalmente ligado ao Princípio da Polaridade, no qual aprendemos que tudo o que existe tem dois polos. O Princípio do Ritmo diz que a energia do Universo se manifesta num movimento de oscilação pendular através do Ritmo entre os dois polos do Princípio da Polaridade. A medida da oscilação dessa energia à direita é sempre igual à medida da oscilação à esquerda e vice-versa (o Ritmo compensa), tudo funciona semelhante ao pêndulo dum relógio. Vários adágios populares corroboram este movimento pendular: “Não há fome que não traga fartura”, “Não há mal que não venha por bem”, existem muitos mais ditos saídos da experiência de vida que ensina que em tudo existe um movimento pendular, tudo o que vai em direção a um polo regressa à mesma posição e distância em que estava no polo contrário. Foi assim com os grandes Impérios que começaram como pequenos países (reinos), vibraram até ao extremo do polo contrário, formaram grandes impérios e voltaram ao seu estado inicial, sendo pequenos países ou nem isso. Alexandre o Grande da Macedónia e o fabuloso império Macedónico e hoje a Macedónia é uma simples região da Grécia, o Império Romano e o que é hoje a Itália? o império Mongol o maior de sempre e o que é hoje a Mongólia? são tantos os exemplos que seriam precisas resmas de papel para menciona-los. Verificamos esta ação pendular no plano emocional, quantas vezes a paixão acaba repentinamente e até se torna em ódio, na bíblia lemos que Saul (São Paulo) era o maior perseguidor de cristãos e tornou-se no seu maior defensor. Podemos ver na natureza, as estações do ano que estão num fluxo continuo do verão ao inverno e depois do inverno ao verão, tudo tem um ritmo ou um padrão, o que parece ser aleatório é na verdade muito ordenado. A noite segue o dia e o dia segue a noite, a euforia origina depressão, “marés” de sentimentos e emoções sobem e descem sendo a energia pendular a sua causa. Tudo o que existe no Universo, nasce, cresce e morre, oscila do nascimento para a morte, da atividade para a inatividade num ciclo organizado apenas para renascer de novo.” Não há repouso absoluto, inércia ou cessação de movimento, e todo o movimento participa do Ritmo. Este Princípio é de aplicação universal”. É importante compreendermos os nossos ritmos internos, trabalhar com eles em vez de lutar contra, tanto a nível sentimental, na forma como pensamos, como falamos ou atuamos. Para manter uma condição perfeita de vida é preciso dominar o Ritmo, saber quando é melhor descansar, parar ou continuar. A vontade é superior à manifestação deste Princípio e embora o próprio Princípio não possa ser destruído, podemos escapar aos seus efeitos. O pêndulo oscila sempre, mas podemos evitar ser arrastados pela sua oscilação através da chamada Lei da Neutralização. Isto é possível desenvolvendo um elevado nível de consciência e se posicionando acima das ilusões. Vibramos para o lado positivo e aí ficamos num nível de consciência superior não deixando o movimento pendular nos arrastar para o lado negativo, pois esse movimento dá- se a um nível de consciência inferior (inconsciente), que é o nível onde a maioria de nós se encontra. Por vezes não conseguimos evitar ser arrastados para o lado negativo pela força pendular, mas, para quem acredita na reencarnação, tudo é lição.” Os lábios da sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do entendimento”.

domingo, 10 de abril de 2022

O 4º Princípio Hermético - Polaridade

Para uma melhor perceção deste quarto Princípio é importante ter lido os três anteriores na sequência correta, porque os Princípios Herméticos estão interligados entre si por uma ordem lógica. Quem me tem acompanhado nesta caminhada filosófica sobre o Hermetismo, já verificou através dos Princípios anteriores que tudo o que existe, existe dentro de uma grande Mente e que as leis que regem o Universo são as mesmas que regem o Ser Humano e que nada do que existe está parado, tudo se movimenta e Vibra. O quarto Princípio vem agora ensinar que: “Tudo é dual; tudo tem dois polos; tudo tem o seu oposto; O igual e o desigual são a mesma coisa; Os opostos são idênticos na natureza, mas diferentes em graus; Os extremos tocam-se; Todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”. Sintetizando, podemos dizer que vivemos num Mundo polarizado onde tudo coexiste com um oposto. Quem entendeu o Princípio da Vibração mais facilmente compreende a razão da bipolaridade que existe em tudo o que nos rodeia e inclusivamente dentro de nós e que esses opostos são apenas os extremos de uma mesma coisa, mas vibrando em graus diferentes. O totalmente bom ou o totalmente mau são simplesmente polos extremos de uma mesma coisa e entre esses dois extremos existem uma grande quantidade de graus (níveis de vibração). A filosofia Taoista através do Yin e do Yang tem muito em comum com o Princípio da Polaridade, o Yin e o Yang representam duas energias opostas e complementares da natureza, onde considerando o Yang como polo positivo este não vive sem o polo negativo Yin e vice-versa.Estas forças opostas necessitam uma da outra para existir, o positivo não significa o bom e o negativo o mau,são apenas o oposto complementar um do outro, como no átomo que tem nos protões carga positiva e nos eletrões carga negativa e numa pilha (bateria) existe um polo positivo e um polo negativo e sem essas duas forças contrárias nem o átomo nem a pilha conseguem produzir energia. O Taoismo diz que o Mundo é composto por essas forças opostas e que encontrar o equilíbrio entre elas é essencial. O Princípio da Polaridade na prática é muito idêntico, mas considerando o polo positivo como a vibração mais alta e o polo negativo a mais baixa e defende que “a tendência da natureza vai em direção à atividade dominante do polo Positivo”. «Amor e Ódio», são simplesmente o nome que damos aos extremos opostos da mesma coisa, «calor e frio», «dia e noite», «alegria e tristeza» «medo e coragem», «ocidente e oriente», também são as mesmas coisas, mas em polos opostos.O calor e o frio são diferenciados apenas por uma escala de temperatura, quanto mais quente vibração mais alta, quanto mais fria vibração mais baixa. Tudo tem o seu oposto e dentro da sua natureza pode ser transmutado. É claro que não podemos transmutar naturezas diferentes, não podemos transformar um nível mental como o ódio num nível físico como água quente, mas podemos dentro da escala vibracional transformar o ódio em amor e a água quente em água fria, tudo é possível de ser transmutado dentro da natureza em que se encontra. O mais importante desta lição é compreendermos que a Polaridade é o que nos habilita a transmutar um estado mental em outro, em nós mesmo ou em outras pessoas, o que nos aflige é o mesmo que nos alegra, mas em polos opostos e sabendo isso tentamos vibrar na polaridade desejada e como aprendemos dentro da mesma natureza tudo pode ser transmudado.

sexta-feira, 25 de março de 2022

O 3º Princípio Hermético - Vibração

Para quem leu os meus últimos artigos sobre os dois primeiros Princípios Herméticos, coloco mais uma peça neste (puzzle) com a ideia de tornar mais percetível a minha opinião sobre estes Princípios filosóficos. O terceiro grande Princípio Hermético é o Principio da Vibração - “Nada está parado, tudo se movimenta, tudo vibra”. Este Princípio Hermético já corroborado pela ciência, explica que tudo o que existe no Universo está em movimento e tem uma vibração própria. O que nós chamamos de matéria e energia são simplesmente “Modos de Movimento vibratório”, e diferenciam-se apenas no seu modo de vibração. Poderemos dizer que a matéria é energia condensada e como tal vibra e a sua vibração é mensurável. Este Principio Hermético dá-nos a entender que além da matéria e da energia, a mente e o espirito também são resultado das ordens variáveis das vibrações. As formas de matéria extremamente densas encontram-se no nível vibracional mais baixo e o espírito no nível de vibração mais elevado, entre esses dois extremos existe uma imensurável quantidade de intensidades e modos de vibração. Hoje é comum ouvir expressões como; frequência das ondas cerebrais, eu gostava de estar numa vibração mais relaxada ou meditativa, inclusivamente já existem monitores de ondas cerebrais sem utilização de elétrodos e que oferecem informação sobre o controlo mental. Nós conhecemos as ondas cerebrais Theta (3,5 a 8 Hz), Gama (25 a 100 Hz), Delta (1 a 3 Hz) verificadas no sono profundo sem sonho, Alfa (8 a 13HZ) que se encontram fundamentalmente quando meditamos ou Beta (14 a 30 HZ) que estão ligadas ao alto poder cognitivo e capacidade de registar informações. Estas ondas cerebrais são ondas eletromagnéticas produto da atividade das células cerebrais e são medidas por meio de ciclos por segundo Hertz (HZ). A amplitude de cada tipo de onda está relacionada com o estado de consciência do momento, que por sua vez define o estado vibracional em que nós nos encontramos. Os nossos níveis de consciência, emoção e energia estão diretamente relacionados entre si. Hawkins foi um médico psiquiatra norte – americano que dedicou a maior parte da sua vida pesquisando a relação das emoções com os níveis de consciência e construiu uma tabela (escala) para medir e quantificar energeticamente esses níveis e assim analisar o ser humano de acordo com o estágio em que se encontra e o correspondente nível consciencial. Se utilizarmos a escala de emoções ou vibracional de Hawkins veremos que quem vive com vibrações mais baixas são as pessoas que sentem medos, sentimentos de culpa, vergonha, tristeza, apatia, quem vive com vibrações mais altas são pessoas altruístas, viradas para o amor, normalmente alegres, felizes e de paz. A compreensão e o estudo minucioso do Princípio da Vibração tornam mais fácil a sua aplicação na própria pessoa, contribuindo em muito para o seu bem-estar e para a criação de uma boa harmonia com aqueles que a rodeiam. O autoconhecimento deste Princípio é libertador e leva-nos a alcançar patamares mais elevados na nossa vida material e espiritual. Na minha opinião o fator mais importante deste Principio é: sabermos que o nível vibracional em nos encontramos influi grandemente na forma como nos sentimos e agimos e que esse fator pode ser manipulável pela própria pessoa. Sendo assim, façam o favor de vibrarem o mais alto possível.

domingo, 13 de março de 2022

O 2º Princípio Hermético - Correspondência

Na sequência do meu propósito de divulgar os sete Princípios Herméticos vou abordar o segundo princípio que é o Princípio da Correspondência e que diz: “O que está em cima é como o que está em baixo e o que está em baixo é como o que está em cima”. Este principio filosófico ensina que as mesmas leis que regem o macrocosmo (Universo) são as mesmas que comandam o microcosmo (Homem). Como diz a velha máxima: “Se compreendermos o nosso corpo, conseguimos compreender o Universo inteiro”. Utilizando a analogia para exemplificar este princípio, podemos comparar o sistema solar com o átomo, no sistema solar temos o Sol fixo e os Planetas orbitando à sua volta, no átomo acontece exatamente a mesma situação, um núcleo fixo (protões e neutrões) e os eletrões tal qual os Planetas orbitando em sua volta. Para dar mais um exemplo de como o que acontece no micro acontece no macro dou o exemplo de uma guerra. Infelizmente hoje temos a invasão da Ucrânia, o país invadido ativou o seu sistema de defesa colocando o seu exército em ação organizada para neutralizar o invasor. Como o Invasor é muito forte também recorreu a ajuda externa, (outros países) para atingir o objetivo. No interior do nosso corpo passa-se exatamente o mesmo, quando somos atacados por bactérias, vírus, fungos ou protozoários o nosso corpo ativa o seu sistema de defesa (sistema imunológico) que de forma organizada tenta neutralizar o invasor. Os macrófagos tentam capturar os invasores e alertam o organismo e os linfócitos identificam os alvos e iniciam a produção de anticorpos para combater o inimigo. E tal como no país invadido se o inimigo é muito forte recorremos à ajuda externa que neste caso é a medicamentosa. Poderia dar muitos exemplos, mas tornaria este artigo enfadonho, o importante é percebermos que este princípio diz que as leis que regem o nosso interior são as mesmas que regem o Universo, o que rege o interior é o que rege o exterior e como tal as nossas ações individuais por muito irrelevantes que possam parecer têm influência no coletivo, que por sua vez têm influência no planeta e concomitantemente no Universo. Embora o Hermetismo seja uma filosofia milenária continua digna de reflexão, pois se analisarmos bem, do homem que nesse tempo se deslocava numa carroça puxada por cavalos até ao homem que hoje viaja de avião a diferença é o meio de transporte, o Homem é o mesmo, as perguntas e a busca das respostas mantêm-se: Como é que tudo começou? Porque existo? O que acontece depois da morte? A minha ideia e como escrevi no início deste artigo é simplesmente divulgar e dar uma opinião muito pessoal sobre os princípios Herméticos sem ter a pretensão de explicar o sentido profundo destes princípios, pois além de não ter conhecimento para tal, também não conheço no vocabulário palavras que consigam explicar o enigma da criação do Universo. Então porque falar sobre estes princípios se não existem consensos quanto à sua interpretação ou utilidade? A razão é porque este tema incentiva a questionar e existem perguntas que se nós fizermos mesmo sem obtermos respostas, são importantes para o nosso progresso como seres humanos.

quarta-feira, 2 de março de 2022

O 1º Princípio Hermético - Mentalismo

A física quântica é o ramo da ciência que perscruta tudo o que é suscetível de ser analisado no Universo, utilizando uma escala microscópica com equações que chegam a ter mais de dez casas decimais. Com uma tecnologia de precisão tão sofisticada a física quântica já conseguiu desvendar muitos dos mistérios do Universo, mas não consegue explicar a razão pelo qual alguns desses fenómenos acontecem. O prémio Nobel da Física, Richard Feynman, diz que o mundo quântico é ininteligível e com o seu sentido de humor muito peculiar disse certa vez: “se você acha que entendeu a física quântica, é porque você não entendeu”. A ciência diz que existem umas partículas indivisíveis chamadas de fundamentais ou elementares que são os “tijolos” que constroem tudo o que há no Universo. Se nos referirmos à formação do ser humano e de uma forma muito simplicista podemos dizer que essas partículas formam átomos, que por sua vez formam moléculas, essas moléculas formam tecidos e órgãos que constroem aquilo que somos. E aqui acaba a ciência de tudo o que é físico e visível e entramos na área do misticismo, ou seja, o que não é visível e mensurável nos laboratórios. Relativamente ao misticismo vou abordar um pouco o Mentalismo que é o primeiro dos sete princípios do Hermetismo. Este princípio diz que:” O Todo é Mente o Universo é Mental”. O Hermetismo é uma antiga doutrina filosófica e esotérica que defende que o Universo é Mental e tudo existe dentro de uma grande Mente que é o Todo (Deus). O que está a acontecer agora, todo o universo, todos os fenómenos, toda a matéria, toda a energia e toda a história acontece numa Mente vivente e Universal. Por detrás de tudo o que existe há sempre um pensamento. Todos os objetos materiais que dispomos ou vemos antes de existirem foram pensados, o Mundo que vivemos é a concretização de pensamentos, uma simples folha de papel, um lápis, seja o que for, não existe sem ter passado primeiro por um pensamento. Segundo o Hermetismo a matéria está submissa à Mente e não a mente à matéria. A nossa vida, a nossa realidade, é puro pensamento, e o que nós concretizamos na nossa vida são os pensamentos que conseguimos realizar. Somos o que pensamos, o que somos surge com os nossos pensamentos e com os nossos pensamentos fazemos o Mundo. Platão na Teoria das Ideias diz que: “Para que exista algo manifesto na realidade, algo físico, é preciso que primeiro tenha sido planeado, tudo nasce e começa no plano das ideias e depois é manifesto no plano material”. Nós somos um fractal do Todo. O que o Hermetismo chama Todo a religião chama Deus e há quem chame Consciência, independentemente do nome que utilizarmos, nós somos o resultado de uma energia criadora e informação atuando no plano físico. O Universo é Mental, logo toda a razão de ser da realidade é Mente. Todos fazemos parte do mesmo projeto, a natureza, os animais, os seres humanos, as galáxias, tudo o que existe no Universo faz parte mesma substância e deve ser tratado com igual reverência. Nós existimos sobre duas formas; um Eu superior onde existe a perfeição e um Eu inferior a vivenciar no plano físico. O nosso objetivo ao longo de várias reencarnações é aproximarmos o nosso Eu inferior do Eu superior até atingirmos uma unificação. Essa evolução passa pela transmutação Mental, ou seja, criar pensamentos elevados no pensamento primário que é a essência, aceitar esses pensamentos e criar condições para os materializar. Se compreendermos o Mentalismo iremos perceber que a ganância o egoísmo pela causa material não tem sentido porque somos uma consciência se experienciando na busca de uma perfeição espiritual. Tudo é frequência, energia e vibração, somos seres espirituais habitando um mundo físico. A nossa forma de pensar influi positiva ou negativamente na nossa saúde, na forma como vivemos, na relação com as outras pessoas, com a natureza, com os outros seres sencientes.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A Conferência dos Pássaros

Sendo os neurónios unidades de processamento de informação, segundo a ciência o cérebro humano tem em média 86 biliões destas unidades. Este potencial intelectual dota a espécie humana de uma capacidade de imaginação quase ilimitada. O ser humano questiona inclusivamente a razão da própria existência, qual o sentido da vida e o porquê existir alguma coisa em vez de nada existir. São questões que embora pareçam abstratas e retóricas têm um conteúdo profundo. A filosofia através das suas linhas de pensamento como: Hedonismo, Estoicismo e o Existencialismo formula algumas ideias sobre o sentido da vida. A religião nas suas grandes vertentes: Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo, Budismo, Espiritismo e Metafisica, vocifera cada qual à sua maneira as verdades sobre a razão de tudo existir. A ciência com o seu Big Bang e a teoria da evolução de Darwin, também brada a sua verdade sobre existência do universo e como tudo evoluiu. Mas, a realidade é que somos o resultado de um grande mistério e ninguém sabe de onde viemos ou para onde vamos. Acabamos sempre por escolher a resposta com que nos sentimos mais confortáveis e nos dê melhor sentido à vida. Há muito tempo que se fala numa nova era que se aproxima, a era do aquário, também conhecida pela era do ser, onde haverá uma maior consciencialização e transformação positiva do ser humano. Atualmente já vivemos uma mudança de paradigma onde cito entre outras situações o aumento significativo de pessoas nos diversos continentes que alteraram o seu regime alimentar por opção ética, os ativistas ambientais defendendo um maior equilíbrio entre a ação humana e a natureza. A religião não fica alheia ao novo modo de pensar, onde as pessoas começam a procurar o seu desenvolvimento espiritual através da introspeção. Este novo paradigma espiritual é bem retratado num artigo de F. Câncio no DN, são pessoas que acreditam num poder superior, numa força espiritual, oram à sua maneira, pedem e agradecem a essa energia criadora, sentem a presença divina no seu dia a dia, mas rejeitam as religiões convencionais. Believing without Belonging (acreditar sem pertencer) é a expressão inglesa para este movimento em enorme crescimento na europa e nos estados unidos a “não religião” provavelmente um dia será “A nova religião”. Será de perguntar qual é a relação deste texto com o título do artigo? O livro “ A conferência dos pássaros” de Farid UD- Din escrito no século Xll é uma fábula sobre o desenvolvimento espiritual. Conta a história de um grupo de pássaros que iniciam uma viagem a caminho do lugar onde se encontra o seu Deus. Durante a viagem muitos morrem pelo cansaço e pelas dificuldades mas os que completaram a viagem ficaram estupefatos com o que encontraram. Nesse local, à sua frente, só existia um espelho enorme e a única coisa que viam era a si próprios. É nisto que eu acredito, somos seres espirituais numa longa viagem, onde vamos evoluindo através de várias reencarnações, o sentido da vida é evoluirmos a tal ponto que nos encontraremos a nós próprios.