quarta-feira, 30 de abril de 2025

1º Princípio do Hermetismo - O Mentalismo


 O Hermetismo, é uma doutrina filosófica e isotérica e tem por base sete princípios, que quando bem interpretados podem mudar o sentido da nossa vida. O seu primeiro Princípio é o Mentalismo, que diz:” O Todo é Mente o Universo é Mental”.  Ou seja, tudo ocorre no plano mental, e só depois no plano físico. Este princípio, defende que tudo existe dentro de uma grande Mente que é o Todo. Por detrás de tudo o que existe há sempre um pensamento criador. Todos os objetos materiais que conhecemos, antes de existirem foram pensados. O Mundo que vivemos é a concretização de pensamentos, uma simples folha de papel, um lápis, um carro, seja o que for, não existe sem ter passado primeiro por um pensamento. A ciência descobriu que existem umas partículas indivisíveis a que deu o nome de fundamentais ou elementares, que são tipo uns “tijolos” que constroem tudo o que há no Universo, as estrelas, planetas, células, átomos, a própria luz e nós mesmos, tudo é construído a partir destas partículas. Ou seja, nós somos formados com a mesma base de matéria de tudo o que existe no universo. A formação do ser humano, visto de forma muito simplicista, podemos dizer que essas partículas elementares formam átomos, que por sua vez formam moléculas, e essas moléculas formam os tecidos e os órgãos que constroem aquilo que somos. Mas, aqui acaba a ciência de tudo o que é físico, visível e mensurável nos laboratórios, e entramos na área do misticismo. Eu, recuso-me a ser simplesmente um aglomerado de átomos e moléculas, com um único propósito que é o da sobrevivência e perpetuação da espécie, ou citando F. Pessoa, simplesmente “um cadáver adiado que procria”. Creio que somos seres espirituais, habitando um mundo físico, fazendo parte de um plano superior. O que ensina o Mentalismo? Ensina que a matéria está submissa à mente e não a mente à matéria. A nossa vida, a nossa realidade, é puro pensamento, o que nós concretizamos na nossa vida é proveniente dos pensamentos que conseguimos realizar. Somos o que pensamos, o que somos surge com os nossos pensamentos e com os nossos pensamentos fazemos o nosso Mundo. Até o facto de amamos alguém, o que amamos é o pensamento que fazemos da pessoa, pois se deixarmos de gostar dessa pessoa e até a odiarmos, a pessoa continua a ser a mesma, o que mudou foi o pensamento que fazíamos dela. Platão na Teoria das Ideias diz: “Para que exista algo manifesto na realidade, algo físico, é preciso que primeiro tenha sido planeado (…)”. Nós somos o resultado de uma energia criadora e informação atuando no plano físico. O princípio do Mentalismo, diz-nos que tudo se inicia na mente, ensina-nos a importância de criarmos um ambiente mental positivo. William James o pai da psicologia moderna tinha uma frase que dizia: “Um passarinho não canta porque está feliz, ele está feliz porque canta” Marco Aurélio um dos maiores do Estoicismo, disse: “As coisas que pensamos determinam a qualidade da nossa mente, a nossa alma assume a cor dos nossos pensamentos”.  F. Pessoa escreveu “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” .É claro que pensamentos negativos brotam instintivamente na nossa mente, mas se imaginarmos a nossa mente como um jardim e os pensamentos negativos como as ervas daninhas, temos de fazer o que fazemos no jardim, arrancar as ervas daninhas antes que sufoquem as flores que tanto gostamos Ao acordar criarmos uma predisposição positiva, dizermos: hoje vou cumprir com os meus objetivos, hoje vou me sentir feliz, não quer dizer que por pensarmos  assim que tudo vai correr bem, por essa razão, também é importante estarmos preparados mentalmente para ultrapassar uma qualquer vicissitude que possa aparecer e criarmos uma mente resiliente . O Mentalismo ensina que todos fazemos parte da mesma Mente Criadora e somos uma consciência se experienciando na busca de um desenvolvimento espiritual. Tudo é frequência, energia e vibração, somos seres espirituais habitando um mundo físico. A nossa forma de pensar influi positiva ou negativamente a nossa saúde, a forma como vivemos, a relação com as outras pessoas, com a natureza e com os outros seres sencientes.


Adriano Gonçalves

segunda-feira, 31 de março de 2025

Memórias 1: A SOLIDÃO EXISTE, EU JÁ A VI

Do tempo em que os envelopes, carregando cartas, fotos e postais, eram o meio de comunicação mais utilizado entre as pessoas separadas por longas distâncias, guardo com especial carinho uma foto enviada pelo meu pai à minha mãe, com a seguinte inscrição no verso:” ofereço esta foto à minha querida noiva, em prova de eterna amizade e como lembrança de um ano e meio de ausência. Lisboa 26 de setembro de 1943.Teu estimado noivo Álvaro Gonçalves”. Olhando a foto, nota-se o quanto ele e o fotografo capricharam para o momento. O nó da gravata exemplarmente centrado (aliás, como foi sempre seu apanágio), bigode e cabelo aparados ao milímetro, o rigor da indumentária, com uma ligeira subida da manga esquerda para dar visibilidade ao relógio. Com um rosto bonito, a foto a preto e branco, mais parecendo um retrato em sépia, não deixa ver o azul-claro dos seus olhos, mas dá-lhe um ar de galã vintage de Hollywood. O meu pai nascido a 31 de março de 1921na ilha da Madeira, tinha à data 22 anos, e encontrava-se a prestar serviço militar em Lisboa. Era o período da segunda grande guerra, e embora Portugal não tivesse uma participação ativa na guerra, o país encontrava-se em prevenção militar. Dezoito anos depois do meu pai ter enviado esta foto à minha mãe, nasci eu. Fui o terceiro de três filhos. O primeiro morreu em bebé, supostamente devido a uma queda, que não foi informada pela cuidadora (talvez por pensar que não era grave), e o segundo, era quase treze anos mais velho do que eu. A razão para eu ter nascido e segundo os meus pais, foi que a minha mãe com 37 anos e o meu pai com 40, quiseram ter mais um filho para que no avançar da idade lhes fizesse companhia. A ideia do meu pai desde o nascimento do primeiro filho, era ter uma filha, pois segundo ele, uma filha era muito mais amiga dos pais do que um filho. Nós temos a linha que tece a vida, mas como não controlamos a agulha, nasci eu, para a deceção do meu pai, mais um menino. Tive um nascimento atribulado e uma primeira infância de demasiada rebeldia, para não utilizar outros adjetivos mais fortes. Os meus pais nunca se esqueciam de me lembrar a razão pela qual eu tinha nascido; fazer-lhes companhia na velhice. A minha mãe costumava chamar-me de: “a minha companhia”. O meu pai tinha horror a lares da terceira idade, de vez em quando perguntava-me: Quando eu e a tua mãe formos velhinhos, não nos vai meter num lar de idosos?  Ao que eu respondia sempre: é claro que não. Promessa essa, que pelas circunstâncias da vida não consegui cumprir com o meu pai. Com a minha mãe, que morreu alguns anos antes do meu pai ter falecido, consegui cumprir a promessa, sendo sua companhia até o dia da sua morte. O meu pai nunca foi uma pessoa de demonstrar os seus sentimentos, pelo que nunca vou saber o quanto ele gostava de mim. O meu relacionamento com o meu pai foi mais ou menos isto: primeiro tinha medo dele, depois passei a ter respeito, a seguir comecei a admirá-lo e acabei amando este homem, que tanto fez por mim. Fomos colegas trabalho, onde ele era o meu chefe, fato esse, que me exigia o máximo de dedicação, para não parecer ser privilegiado pela situação. Habituei-me a ver o meu pai um homem forte e cheio de energia, talvez por isso, custou-me muito ver o lento declínio da sua vida. Completamente quebrado, dei-lhe banho, mudei-lhe fraldas, algumas vezes dei-lhe comer na boca, quase que passou de meu pai a meu filho. Depois, aconteceu o inevitável, a entrada num lar da terceira idade. No princípio correu da melhor forma, o lar era excelente, ele fez uma boa recuperação, tornando-se quase autónomo nas suas atividades básicas. A partir de certa altura, notei que começou a ficar desmotivado, surgiram alguns problemas de saúde e depois a morte. Um dia, numa das minhas visitas ao lar, encontrei o meu pai diferente. Quanta tristeza havia nele! O azul brilhante dos seus olhos, tornara-se baço. Tinha um olhar fixo num ponto longínquo, que parecia desligar a mente do presente, para poder calcorrear toda a história de uma vida passada. Nesse dia, vi a solidão nos olhos do meu pai. Eu sabia que a solidão existia, não fazia bem a ideia do que era, nunca lhe tinha prestado a devida atenção. Mas, quando vi a solidão nos olhos do meu pai, não sei como explicar, só sei que nunca vou esquecer essa imagem. Senti uma mágoa enorme, comecei a falhar-lhe do passado, se ele se lembrava como é que fazia para eu adormecer, do presépio que tínhamos construído juntos e veio-me as lágrimas aos olhos. Ele olhou para mim e disse-me: “não chores porque assim eu também acabo por chorar”. A nossa conversa acabou com ele a dizer-me “tudo passa”. Sim, eu vi a solidão nos olhos do meu pai, vi uns olhos que não encontravam um sentido para viver. Fiquei com medo, um medo que me persegue, o medo da solidão. Shakespeare num dos seus poemas escreveu “Eis o que torna o amor mais forte: Amar quem está tão próximo da morte”. Escrevo este texto, porque sei que o esquecimento é o destino mais previsível de qualquer memória e a melhor forma de isso não acontecer é utilizando a escrita. Assim fica o registo, para nunca me esquecer que a solidão existe, e uma forma de expiação, por não ter conseguido cumprir a promessa que desde muito pequeno tinha feito ao meu pai” nunca o enviar para um lar de idosos”.. A terminar, uma frase atribuída a Raquel Queiróz “A gente nasce e morre só, e talvez por isso mesmo é que se precisa de viver acompanhado”.

Adriano Gonçalves

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Filme Lucy

No filme de ficção Lucy, numa preleção e baseando-se no mito de que o ser humano só utiliza cerca de 10% da sua capacidade cerebral, o professor Norman (interpretado por Morgan Freeman) salienta o caso do único ser vivo que usa o cérebro melhor do que o ser humano, o golfinho. Diz o professor Norman que: “estima-se que esse incrível animal use até 20% da sua capacidade cerebral, isso permite que ele tenha um sistema de ecolocalização mais eficiente do que qualquer sonar inventado pelo homem. Mas o golfinho não inventou o sonar, ele o desenvolveu naturalmente, essa é a parte crucial da nossa reflexão filosófica, poderíamos então concluir que: os humanos estão mais preocupados em ter do que ser”. Eu penso que não devemos desassociar o ter do ser, mas é importante o equilíbrio entre estes dois vetores. Vivemos numa sociedade de consumismo, promovida de forma agressiva pela comunicação social. As pessoas são avaliadas muito mais pelo que têm do que pelo que são, concomitantemente, isso cria um vazio existencial. Para preencher esse vazio, a propaganda consumista induz-nos a comprar coisas, muitas delas desnecessárias. Os últimos modelos de telemóvel, tablet, televisão, computador e uma infinidade de gadgets, sempre com inovações que nos tornam incompletos se não os possuímos. Quem leu “A Cidade e As Serras” de Eça de Queiroz, vê lá tudo isto bem explanado. Tal como no romance de Eça, o vazio nunca é preenchido, exatamente porque o vazio não existe, é uma criação da mente racional, uma ilusão que rapidamente passa. O homem, a natureza e o Universo são só um, dividimos parte do DNA com plantas e animais, todos somos feitos de átomos, e do que temos conhecimento, tudo o que existe no Universo é feito do mesmo material, a falta de compreensão destes aspetos é o que provoca o vazio. O estilo de vida que vivemos com fabulosos avanços tecnológicos, tem atrasado o desenvolvimento das nossas capacidades intrínsecas, coisas que poderíamos fazer sem dificuldade com os nossos meios naturais, hoje dependemos de tecnologia para executar esses procedimentos. O filme de ficção Lucy, tenta que façamos uma reflexão sobre o que aconteceria se conseguíssemos usar 100% do nosso cérebro, se um dia pudéssemos atingir o nível de compreensão que a Lucy atingiu através da droga. Para entendermos melhor o filme, é importante sabermos que Lucy foi o nome dado ao fóssil fêmea descoberto em 1974, e que é o fóssil mais antigo visto até hoje, 3,2 milhões de anos. A título de curiosidade este nome foi dado em homenagem à música dos Beatles “Lucy in the Sky With Diamonds”. Para melhor compreensão desta obra também facilita termos breves noções sobre Kant, Schopenhauer, Einstein e física quântica. Analisando o conteúdo do filme e se acreditarmos que somos feitos de átomos organizados e imaginarmos esses átomos colocados tipo legos, é fácil perceber que se através da nossa capacidade mental conseguirmos alterar a organização dos átomos, podemos nos transformar em outras coisas. A física quântica prova que nada é sólido, tudo é energia e informação. O nosso cérebro é ainda um universo por explorar, e se o utilizarmos em equilíbrio entre o desenvolvimento pessoal e o tecnológico, daremos um grande passo na nossa evolução. Neste filme tal como em Matrix1, temos de nos aliar dos tiros e das peripécias e nos concentrarmos na mensagem filosófica. Termino com uma frase do Millôr Fernandes, que faço questão de não esquecer “É importante ter, sem que o ter te tenha” esta frase alerta-me constantemente para manter o meu equilíbrio entre a mente o espírito e os bens materiais, percebendo que os bens materiais têm valor, mas não devem dominar a minha vida.

 Adriano Gonçalves

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

O Mito dos Cavalos Alados

 

Vou escrever um pouco sobre a natureza da alma, dentro do contexto do diálogo platónico Fedro. Platão na sua obra Fedro, descreve um diálogo que houve entre Sócrates e Fedro. Embora os temas debatidos neste diálogo sejam essencialmente o amor e a retórica, vou-me cingir apenas à questão da alma, abordada também nesta obra através do conhecido Mito da Parelha Alada. Nesta alegoria, Platão faz uma reflexão sobre o que é a alma e qual a sua natureza. A primeira ideia é que a alma é imortal e indestrutível, transcende à matéria, não nasce nem morre, porque a alma é o princípio de tudo e como é um princípio não pode ser gerado, senão deixa de ser um princípio. A segunda opinião é sobre o dualismo, para tudo o que existe há sempre um oposto. Na abordagem da alma, existe o mundo sensível que é o mundo que observamos através dos cinco sentidos, e o seu oposto é o mundo das ideias (céu) constituído de coisas não observáveis, onde existe tudo o que nós conhecemos, mas de forma imaterial, imutável e perfeita. O mundo sensível é uma cópia imperfeita (por vezes demasiado imperfeita) do original que existe no mundo das ideias. Entre esses dois mundos existe um espaço onde andam as almas dos Deuses que são aquelas que já atingiram a perfeição e as outras que ainda estão a passar por provações para evoluir. Das que ainda estão a passar por provações, muitas vão encarnar num corpo humano. Platão escreveu que o seu mestre Sócrates, para melhor explicar a Fedro o seu pensamento sobre alma e como é que a consciência humana pode lidar com os elementos que a constituem, criou o Mito dos Cavalos Alados. O Mito divide a alma em três partes e começa a ser explicado da seguinte maneira: a alma pode ser comparada com uma parelha alada, constituída por uma biga (carruagem)com dois cavalos alados (cavalos voadores) conduzida por um Auriga (cocheiro). O Auriga é a parte que representa o intelecto, a razão, sendo ele que controla e tenta harmonizar os dois cavalos. As outras duas partes são representadas pelos cavalos, sendo que um cavalo é o bom e representa o impulso racional da alma, a parte positiva da paixão, e o outro é o cavalo mau, que representa a parte instintiva da alma, ou seja, a parte das paixões e dos desejos irracionais. Ambos os cavalos têm uma coisa em comum, amam as coisas belas. O cavalo bom é branco e belo é amigo da opinião certa não precisa de ser esporeado pois basta para o fazer trotar uma palavra de comando ou de encorajamento, ele olha para o mundo das ideias (céu) comtemplando toda a beleza que lá existe. O cavalo mau tem um aspeto feio, é amigo da soberba e da lascívia, não obedece a ordens e a muito custo obedeceu, depois de castigado com açoites, fica olhando para baixo contemplando as belezas terrenas, e ao contrário do cavalo bom que se contenta em contemplar, tenta possuir tudo o que é belo, foçando a carruagem para baixo. para o mundo material. E assim anda a alma a vagar pelo espaço, e o cocheiro a tentar equilibrar uma carruagem com dois cavalos que querem estar em lugares diferentes. Nesta indecisão a carruagem por vezes fica descontrolada e cai na terra, os cavalos perdem as asas e a alma fica habitando um corpo para passar pela experiência dos sentidos. Este é o sinal de que o cavalo mau venceu. Todos os que habitamos a terra pertencemos às almas em que a parte má da alma venceu. As nossas Asas que estão partidas vão ter de voltar a crescer para voltar a voar e levar a alma novamente para a luminosidade. Para que as asas voltem a crescer os cavalos têm de ser bem alimentados e os bons alimentos segundo Platão, são a beleza, a sabedoria a justiça e as virtudes. Para isso o cocheiro tem de ser mais habilidoso para conseguir harmonizar os dois cavalos, uma vez que não podemos negar nenhum deles, pois os dois são necessários, só que têm de estar em harmonia e bem alimentados. O problema é que são muitos os incentivos para o mau alimento, é muito o lixo que entra na nossa mente das mais variadas formas e isso impede a nossa evolução espiritual. Muitos de nós vão precisar de muitas reencarnações até que as asas cresçam e a alma possa voltar a voar. Constantemente sou puxado violentamente pelo cavalo mau e por vezes continuo a ser um mau cocheiro e não o consigo controlar os cavalos e a minha carruagem (minha vida) vai no rumo errado. Mas o facto de conhecer este mito tem-me ajudado a refletir e nos momentos menos bons, digo sempre para mim mesmo, lá está o cavalo mau a dominar e isso permite-me ir em busca do equilíbrio. Se alguém ao ler esta minha divagação sinta a curiosidade de explorar este mito e o ajudar a conhecer-se melhor, valeu a pena mais esta divulgação. Mas se ninguém ler, também valeu a pena, porque enquanto o escrevia fiz várias reflexões positivas para mim mesmo.

Adriano


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024


 

Continuando a ler O POETA

Publico pequenos retalhos de alguns escritos de Fernando Pessoa. São pérolas que o pensamento brota. Embora eu escreva para mim, fico feliz se alguém tropeçar neste blogue e ao ler um pouco do que transcrevi, desperte a curiosidade para explorar o poeta mais profundamente.

      

E                                            Exerto1

 E                            

Sou um guardador de rebanhos, o rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos, e com as mãos e os pés, e com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la, e comer um fruto é saber-lhe o sentido. Por isso quando num dia de calor me sinto triste de gozá-lo tanto, e me deito ao comprido na erva, e fecho os olhos quentes, sinto todo o meu corpo deitado na realidade, sei a verdade e sou feliz.

Exerto2

Se eu pudesse trincar a terra toda e sentir-lhe um paladar, e se a terra fosse uma coisa para trincar, seria mais feliz um momento…Mas eu nem sempre quero ser feliz, é preciso de vez em quando ser infeliz, para se  poder ser natural…Nem tudo é dias de sol, e a chuva, quando falta muito, pede-se. Por isso tomo a infelicidade com a Felicidade, naturalmente, como quem não estranha que haja montanhas e planícies, e que haja rochedos e erva.

Exerto3

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!

Exerto4

Adoramos a perfeição porque a não podemos ter, repugná-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.

Exeerto5

Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em querer ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

A Sabedoria do Poeta

Ler Fernando Pessoa ajuda-nos a perceber a vida. Publico pequenos excertos de alguns dos seus poemas que me têm ajudado a refinar o meu modo de pensar. Alterei a estrutura da escrita poética para diminuir o tamanho do texto. São mensagens com muita metafísica e que exigem uma profunda reflexão em cada frase. Não vou comentar a minha análise sobre cada excerto, porque como diz a frase: "Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação".

 

Excerto 1

 

Da minha aldeia vejo o quanto se pode ver o Universo. Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura. Nas cidades a vida é mais pequena que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Nas cidades as grandes casas fecham a vista à chave, escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu. Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos podem dar e tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

 

Excerto2

 

Para além da curva da estrada talvez haja um poço e talvez haja um castelo, ou talvez apenas a continuação da estrada. Não sei nem pergunto. Enquanto vou na estrada antes da curva só olho para a estrada antes da curva, porque não posso ver senão a estrada antes da curva. De nada me serviria estar olhando para outro lado e para aquilo que não vejo. importemo-nos apenas com o lugar onde estamos, há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. Se há alguém para além da curva da estrada, esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada, essa é que é a estrada para eles. Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. Por ora só sabemos que lá não estamos. Aqui há a estrada antes da curva e antes da curva há a estrada sem curva nenhuma.

 

Excerto3

 

Quando vier a primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira e as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria e a primavera era depois de amanhã, morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir se não no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo, e gosto porque assim seria mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente, porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

O 7º Princípio Hermético - Género

O Princípio do Género é sétimo e último grande Princípio do Hermetismo. O seu axioma diz o seguinte:” O Género está em tudo; tudo tem o Princípio Masculino e Feminino; o Género manifesta-se em todos os planos”. Vou dissertar um pouco sobre o Princípio do Género, baseando-me fundamentalmente no livro “O Caibalion, Três Iniciados” e nos vídeos da professora Helena Galvão da escola de filosofia Nova Acrópole. O Princípio do género é derivado do Princípio da Polaridade, os Géneros são dois opostos em que a falta de um evidencia o outro. A função deste Princípio é criar, produzir e gerar. As suas manifestações são visíveis em todos os planos e fenómenos. Nenhuma criação, seja física, mental ou espiritual, é possível sem a participação deste Princípio. Nada pode ser criado sem a aliança entre elementos Femininos e Masculinos. Todas as coisas e todas as pessoas contêm em si estes dois elementos. Todas as coisas Masculinas têm igualmente o elemento Feminino; todas as coisas Femininas têm o Elemento Masculino. É importante realçar que este Princípio é muitas vezes utilizado de forma deturpada para justificações de práticas perniciosas e degradantes de índole sexual, o que contraria completamente a filosofia Hermética. Embora o Género se apresente no plano físico através do sexo Masculino e Feminino, o seu alcance é muito mais do que isso. O Género Feminino é a energia Yin que está contida em tudo o que existe. No planeta é caracterizado pelo lado oriental e no humano está ligado à fertilidade, recetividade, conceção de ideias, criatividade e intuição. O Género Masculino é a energia Yang, também está contida em tudo o que existe. No planeta representa o lado ocidental e no humano expressa-se pela lógica, poder racional, força motriz e instinto de proteção. Neste pequeno trecho apenas vou abordar o Principio do Género na parte mental onde constatamos que na nossa mente existe o Género Masculino e o Género Feminino e que se queremos criar algo que possamos chamar de nosso, temos de obrigatoriamente utilizar os dois Géneros na sua elaboração. Então vejamos, na nossa mente o Princípio Feminino é quem gera novos pensamentos, conceitos e ideias, incluindo a obra da imaginação. O Princípio Masculino simplesmente vai potenciar esse trabalho nas suas várias fases. Contudo, sem a ajuda ativa da vontade do Princípio Masculino, o Princípio Feminino corre o risco de gerar apenas imagens mentais resultantes de impressões recebidas de fora, em vez de produzir criações mentais originais. É muito difícil sabermos se uma ideia que temos é originalmente nossa ou uma criação proveniente da projeção das massas ou de alguém que subtilmente a colocou na nossa mente. Dando o exemplo da ave conhecida como cuco, esta ave tem por hábito ir ao ninho de outras aves retirar os ovos desses pássaros e colocar lá os seus para sejam esses pássaros a chocar os seus ovos. Assim, os outros pássaros chocam os ovos do cuco e tratam os filhotes pensando que são seus. Fazendo uma analogia com os ovos do cuco, é o que pode acontecer com a criação de ideias na mente humana. Uma ideia surge na nossa mente e nós começamos a trabalhá-la, alimentá-la, desenvolvendo-a e tal como o pássaro que criou os filhos do cuco e pensa que são seus, nós também pensamos que essa ideia é nossa, mas pode não ser. Quando alguém nos diz: Cuidado que essa pessoa é um mau caráter. A tendência é ficarmos logo com a ideia de que a pessoa referida não é de confiança. Se não analisarmos por nós mesmos o comportamento da pessoa em questão, vamos pensar que a opinião que temos sobre essa pessoa é nossa e provavelmente até à vamos divulgar. Este, é um pequeno exemplo do quanto pode ser desagradável não criarmos ideias próprias. Que a nossa mente não seja um ninho para alimentar as ideias dos outros, mas um útero para fecundarmos as nossas reflexões e gerar ideias próprias. Mas não esquecer que para conceber uma ideia original será sempre necessário recorrer ao Princípio do Género mental, Masculino e Feminino.