domingo, 4 de janeiro de 2026

Quem é que eu seria com o anel de Giges?

É comum dizer-se “antigamente havia mais respeito, as pessoas eram mais educadas, mais justas”, isto, referindo-se à sociedade no tempo do Estado Novo. Seria importante refletirmos sobre esta ideia. Na minha opinião, a razão dessa civilidade era o estado ditatorial em que vivíamos, onde o medo dos castigos, alguns deles severos, para quem infringisse as regras, coagia a maior parte das pessoas a cometerem algumas infrações ou desrespeito que fosse visível. Ou seja, as pessoas não eram mais educadas, tinham era mais medo. Três séculos antes da era cristã, Platão nos diálogos filosóficos publicados em” A República”, dedica um capítulo a este tema. Platão para dar o exemplo, narra a história do Anel de Giges. Giges era um pastor, homem muito digno e estimado por todos, que servia através do seu pastoreio, o que era então o rei da Lídia. Um dia, Giges encontrou numa fenda de terra provocada por um terramoto, um esqueleto gigante de um cadáver que só tinha com ele um anel de ouro. Giges retirou o anel do esqueleto e ficou com ele. Nesse dia, Giges foi a uma assembleia de pastores que havia habitualmente para comunicar aos representantes do rei a situação dos seus rebanhos. Estando Giges com o anel no dedo, começou a rodar o anel e notava que quando a pedra do anel ficava para dentro da mão, as pessoas que estavam ao seu lado falavam dele como se ele não estivesse lá, como se fosse invisível. Ao rodar o anel em sentido contrário, as pessoas começavam a falar como se ele estivesse presente. Após várias experiências verificou que efetivamente o anel tinha esse poder de o tornar invisível. No princípio fazia apenas algumas brincadeiras, mas tomando consciência desse facto, sentiu-se com um poder incomensurável, pois podia fazer o que quisesse sem ser visto e sem enfrentar as consequências. Um dia, fez com que ele fosse um dos delegados que iam à presença do rei. Uma vez com esse estatuto seduziu a rainha e com a ajuda dela matou o rei e tomou o seu lugar. Giges, até então, um ser integro e honesto, tornou-se num crápula um facínora. Platão então questiona: porque é que Giges antes era um ser integro? Se cada um de nós pudesse agir sem ser descoberto, seriamos moralmente justos ou cederíamos à corrupção? As pessoas são justas por natureza ou por medo de serem vistas cometendo irregularidades e serem punidas? Se todos tivéssemos um anel de Giges, como seria a sociedade? As leis são o que mantêm a moralidade ou existe uma moralidade inata que nos impede de ser corruptos? Segundo Platão, a verdadeira natureza de uma pessoa revela-se quando não há temor de punição. Um ditado judaico diz: “Não chames honesto a um homem que nunca teve a possibilidade de roubar”. Este pequeno texto, é para que cada um faça uma reflexão, que pessoa seria se tivesse o anel de Giges? E também para servir de incentivo a lerem a “República” de Platão.

Adriano