sexta-feira, 22 de junho de 2018

A Energia Criadora


Numa entrevista ao Filósofo português Agostinho da Silva, o entrevistador pergunta se ele acredita na existência de Deus, ao que Agostinho responde: “É preciso que o meu amigo me diga o que é essa coisa de Deus para si?”. Na troca de galhardetes entre entrevistador e entrevistado, Agostinho acaba por explicar que essa ideia de Deus que aparece nas religiões e, para não haver tanta confusão, poderia ser substituída por “criatividade absoluta”. O entrevistador insiste: “é nisso que acredita?” Agostinho responde: “Não acha que seria esquisito eu acreditar que existem coisas criadas e não acreditar na criatividade?” A metafísica faz parte do pensamento humano e, a filosofia trouxe as questões que até hoje inquietam a humanidade: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, qual o verdadeiro sentido da vida? Platão na sua teoria diz que antes de existir o Universo tal qual o conhecemos, só existiam ideias, a que chamou “Mundo das ideias”, um Mundo inteligível onde tudo é perfeito e imutável. Segundo o filósofo, esse é o Mundo real, que uma energia criadora materializou, criando o Mundo tal qual o conhecemos, que chamou de: “sensível ou material”. Tudo o que existe são cópias dessa realidade, que é o “Mundo das ideias” e, por serem cópias são imperfeitas. O objetivo dessas cópias é aproximarem-se o mais possível dos seus arquétipos, caminhar em direção à perfeição, ou, dizendo por outras palavras, diminuir a distância que existe entre o material e o divino. A ciência tenta responder às perguntas dos filósofos, são sondas que vagueiam pelo espaço, observações com enormes telescópios, aceleradores de partículas, mas as respostas podem não estar tão longe, podem estar na introspeção, na viagem ao nosso interior. Provavelmente, tudo o que existe tem uma razão para existir e deve cumprir a função para que foi criado. Nós humanos, devemos cumprir a missão que a natureza nos destinou, que é sermos humanos, na verdadeira essência da palavra. A humanidade tem a responsabilidade de ser a guardiã do planeta e, não pode agir como se fosse uma célula cancerígena do mesmo. Estamos a destruir a harmonia em que o mundo foi criado e onde tudo se completa. Os recursos básicos da espécie humana dependem da biodiversidade que não estamos a preservar. Muitos falam da seleção natural, da lei do mais forte, do gene egoísta, mas estão cegos, não vendo que estes argumentos têm servido para justificar as mais bárbaras atrocidades. Hoje existem 20 milhões de seres humanos em risco de fome extrema num mundo de abundância. A miséria humana não é o caminho para a evolução. Acredito no homem poeta, filósofo, espiritualista e, que este homem nos irá conduzir a um mundo melhor. Está escrito no templo de Apolo em Delfos” Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o Universo, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti, não acharás em lugar algum”. Cada um dentro de si tem a solução para a construção de um mundo melhor. Porque não, começar já?

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O EGO


Tu, triste Farol solitário
Luz que orienta a embarcação
Porque alertas para os perigos que correm
Achas-te digno de adulação?


Não te iludas, triste Farol solitário
Não tens uma plateia a aplaudir
São simplesmente, um bando de gaivotas
Batendo asas para sacudir


Também o vento, não te assobia melodias
Éolo, tem mais com que se preocupar
Habituado a grandes heróis, como Ulisses
Não é a um triste Farol solitário. que vai cortejar


O Mar não te declama poemas
O som das ondas a enrolar
É Posídeon, chamando os poetas
Todos os amantes da poesia, para os inspirar


Digo-te, triste Farol solitário
A razão da tua tristeza
És um soldado de Maya, vives dentro de Matrix
A tua alma está presa


Como podes ser libertado?
Só a gnose pode te ajudar
Consulta Sophia, ouve o que precisa ser ouvido
Mas em relação aos homens, não te deixes enredar


Adriano Gonçalves

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A Borboleta

                                               



Imaginei-te
Apareceste
Fui eu que te criei
Fiz-te bela e livre
Dei-te asas
Criei um jardim
Agora, cá do meu recanto
Fico a ver-te voar entre as flores
 
 
Adriano Gonçalves










 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Fanático


Fanus é uma palavra de origem grega. significa templo. “fanaticus”, adjetivava os frequentadores de Fanus, mas, cujos aspetos passionais e emocionais superavam o equilíbrio racional. A palavra “fanaticus” deu origem à palavra fanático. Hoje, fanático classifica quem de forma intolerante defenda qualquer tipo de causas ou ideias, utilizando se necessário, a violência para converter ou destruir os que não as aceitam. Mas, não devemos confundir fanatismo, com quem de forma abnegada e educada argumenta defendendo ideais. O fanatismo, transporta consigo a irracionalidade e a violência, seja ela física ou verbal. O fanatismo desportivo, político, racista e religioso, tal qual uma doença contagiosa, vêm contaminando as sociedades. No fanatismo desportivo, um espetáculo onde deveriam ser apreciados os dotes artísticos dos intervenientes, perante o fanático é um aspeto irrelevante, só a vitória interessa. Nas bancadas, numa euforia desmedida, lançam-se os mais grosseiros impropérios a outros espetadores e aos intervenientes no jogo. Por vezes, as agressões verbais transbordam para agressões físicas, alteram o seu estado anímico em função de um simples resultado desportivo. O fanático não desfruta do espetáculo é: o mau humor, as noites mal dormidas da derrota, a alegria desmesurada da vitória. O fanatismo político tem repercussões piores. O fanático político defende com ferocidade as suas opiniões, não tem contemplações com amigos ou familiares. A sua verdade é suprema. O seu fanatismo é aproveitado pelos políticos habilidosos. Este fanático é colocado nas primeiras filas das manifestações, participa nos congressos e todos os tipos de reuniões partidárias, é dos que nas campanhas eleitorais, provoca o confronto físico com as campanhas adversárias. O fanatismo racista e xenófobo é hediondo. Normalmente é composto por pequenos grupos de fanáticos que atacam minorias. Neste tipo de fanatismo existe uma tentativa de desvalorizar um determinado grupo social devido a alguma característica física. Fomenta o preconceito, incentiva o ódio e a rejeição contra diferentes grupos étnicos. Todo o tipo de fanatismo é desnecessário e deve preocupar, mas o fanatismo religioso, além de desnecessário é o mais perigoso. O fanático religioso tem a ideia da proteção divina e tudo o que faz é em nome de Deus. Ele convence-se que as suas atitudes são inspiradas por uma força superior e, quando faz algo de errado, sente-se absolvido por essa força. Ao longo dos séculos e até aos dias de hoje, têm-se cometido as maiores sevicias através do fanatismo religioso. Outros tipos de fanatismo, embora não sendo tão perigosos, preocupam-me, casos do fanatismo ecológico e da defesa dos animais, pois esse tipo de comportamento afasta pessoas de bom senso do envolvimento nestas causas. Só a educação pode combater o fanatismo, a educação começa em casa, bons exemplos resultam em bons comportamentos. Ao menor sinal desta “doença” devemos atuar, pois ela aparece muito subtilmente e, rapidamente toma proporções enormes.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Ser Importante


À pergunta arrogante: mas você sabe quem eu sou? Você sabe com quem está a falar? O filósofo brasileiro Mário Cortella responde mais ou menos assim: sei, você é um entre 7,5 biliões de indivíduos, pertencente a uma única espécie, entre outros 30 milhões de espécies que habitam um pequeno planeta, que gira em volta de uma estrela mediana, que é uma entre 100 biliões de estrelas que fazem parte de uma galáxia, entre outros 200 biliões de galáxias que existem num dos universos possíveis e que um dia vai desaparecer. E acaba esta dissertação dizendo: ainda assim você acha-se importante? É claro que esta resposta se destina a quem tem um comportamento arrogante por se considerar superior. A história da humanidade relata-nos as imensas personalidades que deram grandes contributos nas mais diversas áreas e, na defesa de causas com grandes benefícios para a humanidade. Muitos desses famosos, perpetuam a sua imagem em estátuas e nos compêndios, alguns eu admiro, agradeço o que fizeram, mas não são importantes para mim. Ser importante, para mim, tem um sentido muito mais íntimo. Analisando o sentido etimológico da palavra Importante, a sua origem é do latim importare (in + portar) o prefixo in significa dentro e portar significa transportar. Ou seja, uma pessoa importante é aquela transportamos para dentro de nós, que levamos no nosso “coração”. É alguém que nos faz falta, que esteve connosco quando mais precisamos, é quem nunca esqueceremos. Feliz aquele que tem no seu pai, mãe, cônjuge, filhos, pessoas importantes para si. Feliz quem consegue ter “amigos” que na verdadeira essência da palavra são pessoas importantes. Triste quem não faz falta a alguém. Triste aquele que pela vida que levou não tem a quem revelar a sua tristeza. Tchékhov num dos seus contos, fala do concheiro Iona a quem lhe tinha morrido o filho e que no seu enorme desgosto precisava de falar com alguém no sucedido, mas ninguém tinha vontade de o ouvir. Então, numa noite em que não conseguia dormir dirigiu- se à cavalariça e começa a falar com a sua égua: “É assim a vida, eguazinha amiga... já cá não está o Kuzmá Iónitch…. Entregou a alma ao Criador… De repente, sem mais nem menos apagou-se …. É assim: digamos que tu tens um potrinho, que és a mãe do potrinho…E de repente, é um supor, o teu potrinho entrega a alma ao Criador…Grande pena, não era? A égua mastiga, ouve e respira para as mãos do dono. Iona não tem mão em si e conta-lhe tudo” Podemos acabar como o cocheiro Iona, sem sermos importantes para alguém, agarrados a um animal de estimação, ou simplesmente colocados num Lar ou abandonados num Hospital sem alguém que nos queira ouvir. Precisamos sair de dentro de nós, para que os outros nos possam “importar” e tornar-nos importantes. Façamos obra, lutemos por causas, não habitemos dentro duma redoma. Sejamos bons seres humanos e exteriorizemos essa condição de forma a podermos gravar o nosso nome no coração de outras pessoas. É importante sermos importantes.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Ídolos


Desde os primórdios que a escrita faz alusão à idolatria. Um texto bíblico do antigo testamento, conta que o rei da Babilónia Nabucodonosor pediu ao profeta Daniel para lhe decifrar o seguinte sonho: “Uma estátua alta e muito brilhante com uma aparência impressionante. A cabeça da estátua era de ouro maciço, o peito e os braços eram de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro e os pés parte de ferro e parte de barro. Uma pedra desprendeu-se da montanha, e veio bater nos pés da estátua quebrando-os”. E claro, toda a estátua se desmoronou. Consta que provém desta história a frase: “Ídolos com pés de barro”. Embora esta história tenha mais de 2600 anos, pode servir de reflexão para a atualidade onde como nunca se promovem Ídolos. A economia através das técnicas de marketing e utilizando os mais avançados meios de comunicação faz do ídolo, um produto que tenta rentabilizar financeiramente. É demais evidente a tentativa de idolatrizar o mais possível. Esta, é uma ação socialmente perigosa, porque os jovens, têm a tendência de imitar os comportamentos dos seus ídolos, sendo muitos deles inadequados. Proliferam as referências aos comportamentos desviantes dos chamados “ídolos com pés de barro”, heróis vitimas do infortúnio, provavelmente por terem sido colocados num pedestal, para o qual não estavam preparados. São medalhas devolvidas devido à utilização do doping, internamentos para desintoxicação devido ao consumo de drogas, violência doméstica, alcoolismo, prostituição, enfim, um sem-números de situações que põem a descoberto o quanto falível é o ser humano, para ser elevado a Ídolo e venerado. É preciso destruir este ídolo que bloqueia a inteligência humana. Cultuar cega e, não nos deixar ver o outro, ficamos obcecados. Onde poderíamos ver a grandeza da diversidade humana, vemos simplesmente aquele que para nós está acima de tudo. É natural gostarmos, valorizarmos e reconhecermos o valor daqueles que são exímios na sua arte, que atingiram a excelência. É bom examinarmos os seus percursos, aprender com eles, retermos o útil, mas, não venerar essas personalidades. A idolatria não deixa ver que existem cidadãos anónimos, gente honesta, culta, inteligente e humilde, que são verdadeiros exemplos para todos. Estes não têm campanha de marketing, mas são tão ou mais importantes que as celebridades. Não têm uma plateia pela frente, mas são exímios na arte de: “construir um mundo melhor”. Gente altruísta, que depois de um dia árduo de trabalho anda pelas ruas ajudando os sem abrigo, distribuindo alimentos. Alguns arriscando a vida nos campos de refugiados, nos lugares mais inóspitos do planeta, ajudando quem mais precisa. Outros, “comendo o pão que o diabo amassou” para sustentar uma família, dar formação e educação aos seus filhos. Estes nunca serão ídolos, nunca saberemos onde é a sua campa para os ir visitar, mas são a base da construção de uma sociedade melhor.     

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A Caverna


Na “Alegoria da Caverna”, Platão imaginou um grupo de homens que vivessem desde a infância num subterrâneo em forma de caverna. Eles estavam virados para uma parede, acorrentados pelos pés e pescoço. Uma forte luz no exterior da caverna permitia aos prisioneiros verem projetadas na parede as sombras do que passava pela frente da abertura da caverna. Como ignoravam o mundo lá fora, essas sombras, eram a sua realidade. Imaginou também: se um desses prisioneiros se soltasse das amarras e fugisse da caverna, o que aconteceria? Ao sair, ficaria ofuscado pela luz e sentiria dores com a claridade. Aos poucos, iria verificando a beleza incrível que havia fora da caverna. Com o passar do tempo é, normal que sentisse a necessidade de voltar à caverna, contar aos companheiros tudo que presenciou e tentar libertá-los. Qual seria a reação dos prisioneiros? Provavelmente não acreditariam nele, considerá-lo-iam louco e matavam-no. A caverna, representa o nosso mundo. Os prisioneiros, são as pessoas que estão presas a preconceitos que vivem no obscurantismo. As sombras projetadas na parede, são as “falsas verdades”. O fugitivo, é aquele que questiona e reflete sobre o mundo em que vive. O lado de fora da caverna, representa a realidade, a forte luz, o conhecimento. O retorno do fugitivo à caverna, representa o educador, o filósofo. Platão nesta metáfora, provavelmente representa a vida do seu mestre Sócrates, filósofo que não se submeteu aos conceitos vigentes e, incentivou as pessoas a uma busca interior, dando mais valor ao aspeto moral que aos bens materiais. Sócrates foi condenado à morte em 399 A.C. com as acusações de: corromper os jovens com a sua filosofia, negar os Deuses do estado e, ameaçar a vida social e politica de Atenas. Passados que foram quatro séculos, foi a vez de Jesus Cristo percorrer o mesmo caminho de Sócrates. Ao desvalorizar o materialismo em prol da espiritualidade e, através de parábolas provocar reflexões sobre a vida, acabou como Sócrates, condenado à morte. Mil e poucos anos depois apareceu a inquisição, que julgou em tribunal mais de 150 mil pessoas, muitas delas acabaram assassinadas, porque pensavam diferente ou não agiam segundo os padrões sociais instituídos. Atualmente, com a implementação da democracia em muitos países, existe uma maior tolerância à opinião contrária e maior liberdade de expressão. Mas, a tradição, a superstição e a ignorância, ainda são armas poderosas de manipulação. Em muitas situações, quem pensa e age diferente ainda é alvo de preconceito e violência. Hoje, tal qual, no tempo de Platão, continua a ser necessário rebentar as amarras, sair da caverna, ver a realidade e, mesmo correndo riscos, retornar à caverna, contar as boas novas e, tentar soltar os prisioneiros. Bem hajam, todos aqueles que já saíram da caverna e, que mesmo num ambiente de hostilidade, promovem o caminho para a dignidade humana e animal, que lutam contra a pobreza, protegem o meio ambiente e têm um modo de vida sustentável. Benditos, aqueles que se preocupam e dedicam ao bem da humanidade e, com os seus gestos conseguem influenciar os outros.