Do tempo em que os envelopes,
carregando cartas, fotos e postais, eram o meio de comunicação mais utilizado entre
as pessoas separadas por longas distâncias, guardo com especial carinho uma
foto enviada pelo meu pai à minha mãe, com a seguinte inscrição no verso:”
ofereço esta foto à minha querida noiva, em prova de eterna amizade e como
lembrança de um ano e meio de ausência. Lisboa 26 de setembro de 1943.Teu
estimado noivo Álvaro Gonçalves”. Olhando a foto, nota-se o quanto ele e o
fotografo capricharam para o momento. O nó da gravata exemplarmente centrado (aliás,
como foi sempre seu apanágio), bigode e cabelo aparados ao milímetro, o rigor
da indumentária, com uma ligeira subida da manga esquerda para dar visibilidade
ao relógio. Com um rosto bonito, a foto a preto e branco, mais parecendo um
retrato em sépia, não deixa ver o azul-claro dos seus olhos, mas dá-lhe um ar
de galã vintage de Hollywood. O meu pai nascido a 31 de março de 1921na ilha da
Madeira, tinha à data 22 anos, e encontrava-se a prestar serviço militar em
Lisboa. Era o período da segunda grande guerra, e embora Portugal não tivesse
uma participação ativa na guerra, o país encontrava-se em prevenção militar.
Dezoito anos depois do meu pai ter enviado esta foto à minha mãe, nasci eu. Fui
o terceiro de três filhos. O primeiro morreu em bebé, supostamente devido a uma
queda, que não foi informada pela cuidadora (talvez por pensar que não era
grave), e o segundo, era quase treze anos mais velho do que eu. A razão para eu
ter nascido e segundo os meus pais, foi que a minha mãe com 37 anos e o meu pai
com 40, quiseram ter mais um filho para que no avançar da idade lhes fizesse
companhia. A ideia do meu pai desde o nascimento do primeiro filho, era ter uma
filha, pois segundo ele, uma filha era muito mais amiga dos pais do que um
filho. Nós temos a linha que tece a vida, mas como não controlamos a agulha,
nasci eu, para a deceção do meu pai, mais um menino. Tive um nascimento
atribulado e uma primeira infância de demasiada rebeldia, para não utilizar
outros adjetivos mais fortes. Os meus pais nunca se esqueciam de me lembrar a
razão pela qual eu tinha nascido; fazer-lhes companhia na velhice. A minha mãe
costumava chamar-me de: “a minha companhia”. O meu pai tinha horror a
lares da terceira idade, de vez em quando perguntava-me: Quando eu e a tua mãe
formos velhinhos, não nos vai meter num lar de idosos? Ao que eu respondia sempre: é claro que não.
Promessa essa, que pelas circunstâncias da vida não consegui cumprir com o meu
pai. Com a minha mãe, que morreu alguns anos antes do meu pai ter falecido,
consegui cumprir a promessa, sendo sua companhia até o dia da sua morte. O meu
pai nunca foi uma pessoa de demonstrar os seus sentimentos, pelo que nunca vou
saber o quanto ele gostava de mim. O meu relacionamento com o meu pai foi mais
ou menos isto: primeiro tinha medo dele, depois passei a ter respeito, a seguir
comecei a admirá-lo e acabei amando este homem, que tanto fez por mim. Fomos
colegas trabalho, onde ele era o meu chefe, fato esse, que me exigia o máximo
de dedicação, para não parecer ser privilegiado pela situação. Habituei-me a
ver o meu pai um homem forte e cheio de energia, talvez por isso, custou-me
muito ver o lento declínio da sua vida. Completamente quebrado, dei-lhe banho, mudei-lhe
fraldas, algumas vezes dei-lhe comer na boca, quase que passou de meu pai a meu
filho. Depois, aconteceu o inevitável, a entrada num lar da terceira idade. No princípio
correu da melhor forma, o lar era excelente, ele fez uma boa recuperação,
tornando-se quase autónomo nas suas atividades básicas. A partir de certa
altura, notei que começou a ficar desmotivado, surgiram alguns problemas de saúde
e depois a morte. Um dia, numa das minhas visitas ao lar, encontrei o meu pai
diferente. Quanta tristeza havia nele! O azul brilhante dos seus olhos, tornara-se
baço. Tinha um olhar fixo num ponto longínquo, que parecia desligar a mente do
presente, para poder calcorrear toda a história de uma vida passada. Nesse dia,
vi a solidão nos olhos do meu pai. Eu sabia que a solidão existia, não fazia
bem a ideia do que era, nunca lhe tinha prestado a devida atenção. Mas, quando
vi a solidão nos olhos do meu pai, não sei como explicar, só sei que nunca vou
esquecer essa imagem. Senti uma mágoa enorme, comecei a falhar-lhe do passado,
se ele se lembrava como é que fazia para eu adormecer, do presépio que tínhamos
construído juntos e veio-me as lágrimas aos olhos. Ele olhou para mim e disse-me:
“não chores porque assim eu também acabo por chorar”. A nossa conversa
acabou com ele a dizer-me “tudo passa”. Sim, eu vi a solidão nos olhos
do meu pai, vi uns olhos que não encontravam um sentido para viver. Fiquei com
medo, um medo que me persegue, o medo da solidão. Shakespeare num dos seus
poemas escreveu “Eis o que torna o amor mais forte: Amar quem está tão
próximo da morte”. Escrevo este texto, porque sei que o esquecimento é o
destino mais previsível de qualquer memória e a melhor forma de isso não
acontecer é utilizando a escrita. Assim fica o registo, para nunca me esquecer
que a solidão existe, e uma forma de expiação, por não ter conseguido cumprir a
promessa que desde muito pequeno tinha feito ao meu pai” nunca o enviar para
um lar de idosos”.. A terminar, uma frase atribuída a Raquel Queiróz “A
gente nasce e morre só, e talvez por isso mesmo é que se precisa de viver
acompanhado”.
Adriano Gonçalves