quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Nada é por acaso, existe uma razão para tudo




“ Chega o momento que a vida de cada homem é uma derrota assumida. É uma verdade que todos sabemos” Marguerite Yourcenar

Várias vezes dei por mim a pensar no porquê de tantos milhões de pessoas aderirem ao jogo, como praticantes ou como simples espectadores, seja ele futebol, ténis, atletismo ou um trivial jogo de cartas. Também muitas vezes tentei perceber a razão da necessidade das pessoas terem uma religião.
Penso que uma das razões do homem aderir ao jogo tem a ver com o facto de a sua vida real terminar sempre com uma derrota (que é a morte) e o ser humano como é um ser que tem necessidade de se transcender, utiliza o jogo para obter vitórias, que de alguma forma acabam por fazer dele um vencedor.
A religião aparece como complemento do jogo, pois as vitórias do jogo são demasiado efémeras e o homem precisava de uma vitória total e assim a religião deu-lhe essa hipótese, dotando-lhe de um espírito imortal e propondo-lhe uma vida eterna, seja através da reencarnação, da ressurreição ou de outras teorias que acabam sempre por torna-lo imortal.
Assim o homem é sempre vencedor e pode viver feliz e descansado. (as tretas que nós arranjamos para enganarmo-nos. No fundo o que interessa é que funcione eheheh)
Ao ler uns textos da obra “ O Homem e o Sagrado” de Roger Caillois,aprendi mais algumas coisas sobre o tema, como por exemplo, a de que o jogo é a base de quase tudo. Eu pensava que o jogo era resultado de uma cultura, mas segundo este autor, o jogo antecede a cultura e não ao contrário.

Vou expor a forma como interpretei o capítulo ll “ o Jogo e o Sagrado “ da obra " O Homem e o Sagrado" de Roger Caillois, que quanto a mim é mais uma ferramenta para ajudar-nos a abrir a mente.

"O HOMEM E O SAGRADO”

II. O JOGO E O SAGRADO
Utilizando a obra de J. Huizinga “ Homo Ludens” como grande referencia o autor Roger Caillois debruça-se sobre a importância do jogo na evolução da civilização. A identificação do lúdico e do sagrado que o autor considera ser a questão mais delicada e complexa é importante para podermos perceber a sua influência na nossa sociedade.
Partindo de um principio que o jogo é um dos instintos primários do homem o autor refere que “ a ciência, a poesia, a sagacidade, a guerra, a filosofia, as artes, nasceram e enriqueceram algumas vezes do espírito lúdico ”. Através do jogo o homem cria regras e acções que por algum tempo o conseguem absorver e separá-lo do seu mundo habitual., por esta razão Huizinga tenta demonstrar que “ o estádio, a mesa de jogo, o círculo mágico, o templo, o palco, o ecrã, o tribunal” por tratarem-se tal como o jogo de mundos temporários no dia-a-dia e por terem uma actividade regulada que tem o seu fim em si mesma, são terrenos ou lugares de jogos.
A dissertação que Caillois faz sobre o lúdico e o sagrado transporta-nos para os primórdios da nossa existência e leva-nos a reflectir profundamente sobre procedimentos que utilizamos e conotamos como triviais, por exemplo a origem do alfabeto, que sendo fonético muito provavelmente teve a sua origem nas brincadeiras com diferentes sons.
A ideia de que o lúdico (jogo) está na base da nossa aprendizagem e que aparece antes da cultura leva-nos a reflectir sobre os gestos dos recém-nascidos que antes de aprenderem qualquer coisa a sua primeira atitude é brincar. Se observarmos o reino animal também constatamos procedimentos idênticos, quando dois cães bebés brincam estabelecem regras pois ao morderem as orelhas uns dos outros mordem só até o ponto de não ferir, as suas acrobacias e procedimentos não são nada mais do que uma aprendizagem para o que será a sua vida adulta.
O jogo também tem uma função protectora pois nele escolhemos os riscos que podemos correr, as regras que limitam as nossas capacidades e leva-nos a atingir uma perfeição que embora limitada e provisória traz-nos uma satisfação pessoal. Este facto não é suficiente para alimentar o ego do ser humano pois ele continua a viver em insegurança, e para colmatar esta lacuna surge o sagrado. O sagrado e o lúdico tem em comum o facto de não fazerem parte da vida real mas terem uma função idêntica em relação à mesma, que é retirar temporariamente o homem da sua vida real que em muito se assemelha a uma selva.

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